terça-feira, 7 de abril de 2009

Ver a minha avó.

Imagino as tardes e as manhãs na sua casa como horas longas, infinitas no seu presente, nítidas, com tempo bastante para recordar idades que mais ninguém lembra sem ajuda. Anda pela casa, vestida com as suas batas de viúva, e os seus passos apressam-se quando vai terminar de fazer alguma coisa: lavar a roupa no tanque do quintal, apanhar cerejas maduras, fazer renda. Ao acordar, cumpre a sua rotina precisa, bebe leite com cevada por uma caneca e penteia os cabelos finos, brancos acastanhados. Esse é o único momento em que se vê ao espelho, há quanto perdera a vaidade, as futilidades do espírito. Não sai todas as manhãs para comprar comida na mercearia. Sai em dias que conhece e escolhe. Nos Invernos mais rigorosos, a neve torna as escadas da entrada em rampa e então fica em casa, com mantimentos que guardara o resto do ano qual formiga trabalhadora. Quando sai de casa leva sempre o porta-moedas na mão. Todos os seus objectos, até o porta-moedas, têm uma história, chegam de um tempo que existiu antes de mim. Ela conhece os caminhos certos até à mercearia, sem os ver porque tem cataratas nos dois olhos, diz bom dia a todas as pessoas que encontra e haverá pouco, nada, que a possa surpreender. Em casa, coloca os pés com cuidado sobre cada degrau das escadas, coloca os pés de lado e agarra-se ao corrimão, quando a neve não transforma tudo em rampas. Na rua, ela desce a ladeira com o mesmo cuidado, sem degraus, sem corrimão e sem neve. Às vezes ela sai para a rua quando ouve a carrinha do pão como uma chocolateira velha. Escolhe uns quatro e o padeiro tem sempre fermento nos dedos e recebe moedas na palma da mão, concorda com as mulheres que o rodeiam e concorda com ela. Noutros dias, tem consultas marcadas há meses no balcão da casa do povo e assinaladas a caneta bic no calendário onde não falta nenhum dia desde o ano de 1923. Vai muitas vezes a casa das vizinhas, sabe em que vaso ou por baixo de que tapete guardam uma chave suplente, para as suas visitas, conversam baixinho quando falam de alguém: Sabes o que aconteceu à, e dizem um nome qualquer. Tratarem-se por tu é a prova inusitada que, noutro tempo, foram novas, foram raparigas com ideias sobre o que seriam quando tivessem a idade que têm. A minha avó gosta muito de falar dos netos e das suas novelas da tarde com as vizinhas, escutam-na sempre e ligam-me, pelo fim do dia, para me perguntar se sempre é verdade que já tirei a carta mas que ainda não estou noiva. No regresso detém-se muitas vezes nos bombeiros para saber das suas aventuras, as que depois me vem contar com um fulgor muito próprio, muito seu. Ouve-as, às aventuras, com a mesma avidez com que ouve as minhas, até as mais insignificantes. Julgo que não me vê, porque tem cataratas nos dois olhos, mas sabe-me de cor com um fulgor muito próprio, muito seu.
Tenho muitas vezes saudades da minha avó, sem lhe dizer. Com a idade que tem guarda-se um certo conservadorismo, alguma rigidez de sentimentos, talvez no porta-moedas que traz na mão sempre que a vou buscar à estação de comboios. Mas vejo-a, não só porque (ainda) não tenho cataratas mas porque a sei de cor com um fulgor muito próprio, muito nosso.

20 comentários:

  1. Este texto fez-me recordar os momentos que passei com a minha avó que já faleceu. A rotina que tinha era muito identica a da tua avózinha, que saudades que tenho da minha. Gostei do promenor do porta-moedas, acho que todas as mulheres idosas andam com um e com batas de viúvas. É a sua moda :D
    Beijinho'

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  2. Muito obrigada por gostares do meu cantinho, ainda não tenho muitos textos, tenho que escrever mais. Eu gostei imenso dos teus dois blogs, escreves muito bem e sabes captar uma pessoa. Sim e eu tambem adiciono-te para estar sempre actualizada. Obrigada.
    Beijinho*

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  3. Este texto levou-me directamente à minha avó, apesar de não ter os mesmos hábitos que a tua. Acho que foi a ternura com que escreveste que me levou ao encontro com a minha.
    Está maravilhoso Joana *.*

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  4. Faz-me lembrar a minha infância, que foi passada com a minha avô paterna numa casa muito humilde e que, por falta de condições, teve de ser deixada. Foi como espetar uma faca no peito dela e, sem admitir, também no meu. É que a riqueza e mesmo a comodidade não é nada comparado com o amor partilhado que lá se viveu.

    Mais uma vez, um texto lindíssimo.

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  5. Apesar de não ter tido o mínimo de contacto com a minha avó, o teu texto deliciou-me por completo e a dada altura parececia mesmo que a estava a ver à minha frente, parabéns!

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  6. Adorei este texto :)
    Concordo com a Ana Moreira, "a dada altura parecia mesmo que a estava a ver à minha frente".
    Não tenho nenhuma avó assim, uma morreu antes de eu nascer e outra é muito nova para avó e vive em Bissau (é coordenadora de um projecto de lingua portuguesa em todas as escolas de lá), eu gosto muito dela mas confesso que tambem gostava de ter uma avó assim como a tua :).
    Ahh obrigada pelos comentarios (:!
    Beijinho enorme,
    Mar*

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  7. Ver a tua avó através do teu olhar (ainda) sem cataratas amolece o coração com uma ternura tal que leio e releio este texto - com um fulgor muito próprio, um fulgor muito teu -, aspirando a ter, um dia, uma velhice tão doce como a que descreves.

    Joana, (realmente) tocante.
    *

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  8. Estou de lágrimas nos olhos que nem sei que mais te diga :')

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  9. Está um doce! Fz-me lembrar a minha avó, e como gosto tanto dela e nem sempre lhe digo.
    Posso dizer que este é dos meus preferidos :)

    e amanhã já te dou um abraço! :D

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  10. Estou mais que encantada. As tuas palavras elevaram-me a este teu mundo : )

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  11. ... Infelizmente, o destino não me deixou sentir saudades de uma avó ou de um avô. Viviamos muitissimo longe e nunca se criou grande afinidade.
    Mas tive, por sorte, bem ao lado do sitio onde cresci quem desempenhasse mais do que na perfeição esse papel. E esses sim foram os meus avós. E tenho saudades, muitas!

    http://escritoemlaranja.blogspot.com

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  12. Adorei este texto. Está cheio de emoção. E além de nos teres mostrado como é a tua avó fizeste lembrar quem leu o texto da avó que cada um tem, viva ou na memória. De como são de outro tempo e parece tão diferente agora, mas também como sempre tem um jeito muito particular de mostrarem o que sentem.
    (vai ao meu blogue, já está publicado. este é antigo, depois meto os que ando agora a fazer. esses sim, estão alguma coisa :D )

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  13. está um doce este texto :) magnífico.

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  14. Levaste-me a pensar na minha avó. Uma mulher diferente, mas tem nela a essência de todas as avós.

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  15. Tão bonito e tão bem feito (: *

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  16. Tão bonito, Joana. Escreveste-o com tal ternura que me levou também a pensar na minha avó :D
    Beijinho*

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  17. está tão docinho, que carinho que é este texto : )

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  18. Oh Joana,que texto lindo. Oh, partilho dessa tua doce ternura que tens pela tua avó. e chamo "vóo!" do fundo do corredor da grande casa.


    Que texto lindíssimo Joana. Sinto todo o teu carinho:)

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