Fora enxotado do seminário com pouco mais do que quando fora obrigado a lá inscrever-se. Afinal, a decepção não ocupava espaço na mala e o pobre Ferreira matutava nas palavras do pai dias a fio. Essas, pesavam mais que o seu sobretudo encharcado pelo mau tempo que se fazia então sentir. Um circo, tu montaste um circo na casa de Deus, meu tratante!, vociferava a sua voz na cabeça do jovem Ferreira, sob o choro miudinho da mãe, soluçando. Durante uma semana viveu de restos insignificantes de rua e de lembranças de uma bela e saborosa refeição, até que, então esfomeado, se lembrou de ir bater à porta de uns amigos de família - o casal Soares dos Reis. Viviam do outro lado da cidade e raramente iam à oficina dos Ferreira. Naquela altura as notícias levavam quase mês a espalharem-se pela vila, quanto mais a atravessar uma cidade, e o Ferreira aproveitava-se desse facto e do de os seus pais não quererem alastrar a vergonha, o circo, a peste. Diriam, provavelmente, que o seu primogénito se sagrara padre de eleição, em missão pelo estrangeiro e em boa nova pelos desfavorecidos. Decidido a manter a fachada, o Ferreira prometera a si mesmo não estragar a mobília da família Soares, nem tão pouco denunciar a sua ânsia pela carpintaria, antes improvisar uma qualquer desculpa para o facto de se ausentar do seminário e ir tão longe, ao outro lado da cidade.
Demorou nova semana a chegar ao destino, conhecia as ruelas pelos recados que em pequeno fazia para a oficina e nelas sabia onde encontrar pedaços de pão recesso e carne crua que lhe avivavam o estômago e espírito nas horas mortas e famintas. Frente à mansão onde esperava ser acolhido penteara o cabelo com um pente fino que tirara de uma pequena sacola da mala feita. Gesticulava desculpas para quando o mordomo viesse ao portão, talvez as Irmãs lhe tivessem dado uns dias de férias, um prémio por se sagrar padre de eleição. Quando o mordomo avistou o seu vulto ansioso, gesticulando frente ao portão, agitou-se na sua direcção, pedindo identificação e motivo de visita. Prestes a gaguejar o seu nome e a sua desculpa, o senhorio fez sinal ao mordomo que se retirasse, abrindo portas e braços ao pequeno Ferreira. Entre abraços e saudações, questionavam-se se estaria ali com afazeres da oficina - Dize porque aqui estais, Ferreirinha. Aproveitando-se da ignorância dos Soares dos Reis, decidiu dar-lhes a boa nova: Mandaram-me da oficina para ser o vosso alfaiate particular, se não vos importardes, bons senhores. Extasiados, dançaram de contentamento - o gaiato ficaria contente com uns dinheiros poucos e poupavam viagens atravessando a cidade, pensavam para com os seus botões. Aceitaram o trato sem hesitações, ignorando que o Ferreira engolia em seco a sua falta de jeito para costuras e coseduras - ao que a fome o obrigava, pobre Ferreira. Nessa mesma noite, duas criaditas azafamavam-se no que seria o seu quarto, correndo lençóis lavados numa larga cama e água quente numa corpulenta bacia para o banho do jovem. Lembrando-se que não trazia alfaias consigo, material com que pudesse sequer fazer uma bainha ou cordão que atasse um corpete, o Ferreira aventurava-se pela mansão que desconhecia para lá da porta principal, tentando descobrir pelo menos uma agulha e uma caixa de linhas. Abria portas contido, com um certo receio do desconhecido, e logo era banhado por luzes claras, candelabros que o saudavam entre cortinas de seda colorida e papel de parede em motivos festivos. O calor que exalava de cada porta aberta fazia-o cobiçar por abrir uma nova sem se lembrar de procurar agulhas ou caixas de linhas. Havia tantos artefactos pela casa, pecinhas de madeira rebuscadas em cada perna de cadeira, formas que o Ferreira não tinha antes visto ou pensado ver. As estantes de livros eram tão altas que precisavam de uma escada de rodas apoiada, os tapetes cobriam o chão como uma alcatifa malhada. Abria as portas de par em par, caminhava em pezinhos de lã e maravilhava em cada pormenor, cada novo quarto quente, caloroso. Estaria neste jogo há uns vinte minutos, tocando em peças de madeira e procurando pó onde dele não existia nem grão, quando entrou num dos quartos principais. A cama era mais larga que a sua, a colcha de um tom corado quebrava nas pernas nuas de uma rapariga nova, rosto igualmente rosado. Levantara-se vendo o Ferreira na sombreira da porta, as mãos grandes segurando o cepilho dourado, os olhos escuros assustados, cobria as pernas com a colcha, corada e rosada. O jovem Ferreira demorou-se mais três ou quatro fracções de segundo, o longo cabelo da jovem desconhecida era liso e castanho como chocolate quente e derretido, os seus lábios pareciam trabalhados por uma navalha num labor apaixonante, caloroso como um candelabro saudando luz. Num gesto zangado, a jovem empurrava a porta onde o Ferreira estagnava, berrando o nome do que seria, talvez, uma terceira criadita da casa dos Reis. Assustado, envergonhado e intrigado, o Ferreira voltou ao seu quarto, a cama já feita, e metera-se na banheira com a corpulenta bacia de água já morna. Quem seria aquela figura firme, como a cigana que em tempos lhe lera a mão, asseada e de pernas longas como o seu cabelo cor de chocolate? Fosse quem fosse, a sua expressão zangada era caricata e o seu quarto era o mais bonito da mansão, o mais caloroso e o mais apaixonante. Fosse quem fosse, o certo era que dormiria debaixo do mesmo tecto que o Ferreira e tal saber dava-lhe um conforto como nenhum que até então conhecera. Talvez a jovem adormecesse pensando em si, sonhava acordado o Ferreirinha, lavando a cara com água já fria - o rubor do seu rosto não desaparecia nem com sabão de alfazema.
Demorou nova semana a chegar ao destino, conhecia as ruelas pelos recados que em pequeno fazia para a oficina e nelas sabia onde encontrar pedaços de pão recesso e carne crua que lhe avivavam o estômago e espírito nas horas mortas e famintas. Frente à mansão onde esperava ser acolhido penteara o cabelo com um pente fino que tirara de uma pequena sacola da mala feita. Gesticulava desculpas para quando o mordomo viesse ao portão, talvez as Irmãs lhe tivessem dado uns dias de férias, um prémio por se sagrar padre de eleição. Quando o mordomo avistou o seu vulto ansioso, gesticulando frente ao portão, agitou-se na sua direcção, pedindo identificação e motivo de visita. Prestes a gaguejar o seu nome e a sua desculpa, o senhorio fez sinal ao mordomo que se retirasse, abrindo portas e braços ao pequeno Ferreira. Entre abraços e saudações, questionavam-se se estaria ali com afazeres da oficina - Dize porque aqui estais, Ferreirinha. Aproveitando-se da ignorância dos Soares dos Reis, decidiu dar-lhes a boa nova: Mandaram-me da oficina para ser o vosso alfaiate particular, se não vos importardes, bons senhores. Extasiados, dançaram de contentamento - o gaiato ficaria contente com uns dinheiros poucos e poupavam viagens atravessando a cidade, pensavam para com os seus botões. Aceitaram o trato sem hesitações, ignorando que o Ferreira engolia em seco a sua falta de jeito para costuras e coseduras - ao que a fome o obrigava, pobre Ferreira. Nessa mesma noite, duas criaditas azafamavam-se no que seria o seu quarto, correndo lençóis lavados numa larga cama e água quente numa corpulenta bacia para o banho do jovem. Lembrando-se que não trazia alfaias consigo, material com que pudesse sequer fazer uma bainha ou cordão que atasse um corpete, o Ferreira aventurava-se pela mansão que desconhecia para lá da porta principal, tentando descobrir pelo menos uma agulha e uma caixa de linhas. Abria portas contido, com um certo receio do desconhecido, e logo era banhado por luzes claras, candelabros que o saudavam entre cortinas de seda colorida e papel de parede em motivos festivos. O calor que exalava de cada porta aberta fazia-o cobiçar por abrir uma nova sem se lembrar de procurar agulhas ou caixas de linhas. Havia tantos artefactos pela casa, pecinhas de madeira rebuscadas em cada perna de cadeira, formas que o Ferreira não tinha antes visto ou pensado ver. As estantes de livros eram tão altas que precisavam de uma escada de rodas apoiada, os tapetes cobriam o chão como uma alcatifa malhada. Abria as portas de par em par, caminhava em pezinhos de lã e maravilhava em cada pormenor, cada novo quarto quente, caloroso. Estaria neste jogo há uns vinte minutos, tocando em peças de madeira e procurando pó onde dele não existia nem grão, quando entrou num dos quartos principais. A cama era mais larga que a sua, a colcha de um tom corado quebrava nas pernas nuas de uma rapariga nova, rosto igualmente rosado. Levantara-se vendo o Ferreira na sombreira da porta, as mãos grandes segurando o cepilho dourado, os olhos escuros assustados, cobria as pernas com a colcha, corada e rosada. O jovem Ferreira demorou-se mais três ou quatro fracções de segundo, o longo cabelo da jovem desconhecida era liso e castanho como chocolate quente e derretido, os seus lábios pareciam trabalhados por uma navalha num labor apaixonante, caloroso como um candelabro saudando luz. Num gesto zangado, a jovem empurrava a porta onde o Ferreira estagnava, berrando o nome do que seria, talvez, uma terceira criadita da casa dos Reis. Assustado, envergonhado e intrigado, o Ferreira voltou ao seu quarto, a cama já feita, e metera-se na banheira com a corpulenta bacia de água já morna. Quem seria aquela figura firme, como a cigana que em tempos lhe lera a mão, asseada e de pernas longas como o seu cabelo cor de chocolate? Fosse quem fosse, a sua expressão zangada era caricata e o seu quarto era o mais bonito da mansão, o mais caloroso e o mais apaixonante. Fosse quem fosse, o certo era que dormiria debaixo do mesmo tecto que o Ferreira e tal saber dava-lhe um conforto como nenhum que até então conhecera. Talvez a jovem adormecesse pensando em si, sonhava acordado o Ferreirinha, lavando a cara com água já fria - o rubor do seu rosto não desaparecia nem com sabão de alfazema.

quero mais, por favor, posta mais!
ResponderExcluirfala-me aqui do jovem Ferreira que eu estou a adorar!
ResponderExcluirVai ser um comentário longo, mas espero ajudar-te.
ResponderExcluirGostei do início, ele a confrontar-se consigo próprio e a procurar soluções que iam originando problemas e depois mais soluções, saiste bem daí. Deu um toque inteligente. Uma espécie de mistério, não policial mas de confrontação.
A parte em que ele passava pela casa à procura da agulha e das linhas está muito boa, a minha favorita. Metes-te as coisas a ganhar um tom intimidatório, ele ia entrando e havia as estantes altas, ia devagar, os candelabros, ... Não sei se foi o que quiseste fazer, mas também pode ser visto como a consciência dele, estava naquela situação porque se esqueceu da agulha - que pode simbolizar a familia dele e um passado seguro - e decidiu ir contra tudo e contra todos pelo sonho dele. Além de me teres feito escrever isto: "As estantes agigantavam-se nas paredes e preparavam-se para se curvar em qualquer momento e engulir-me."
Do final também gostei, deixaste um suspense para nos mantermos atentos sobre essa rapariga, e a comparação com a cigana também é boa, além de ser misteriosa, a cigana representa o futuro, que nele também é misterioso.
Acho que está muito bem feito, mas talvez a linguagem não esteja muito natural, acho que é o que falta, deixar as palavras correr de forma mais natural, não tanto procurar as palavras mais caras, mas as mais musicais, pois o Português é uma das linguas mais musicais que existem, por isso é dificil, se fosse em inglês tudo soava bem - deve ser daí que vêm a tua ideia de confusão.
Não está muito grande, mas talvez até desse para tirar uma outra palavra - principalmente no ínico do 2º paragrafo - mas nada demais. Acima de tudo não foste pelo mais fácil e acho que te saíste muito bem.
Parabéns, o teu conto está profundo e cheio de metáforas. :D Continua, agora deixas-te com vontade ler mais. E se queres um conselho, não comeces o III capítulo logo pela rapariga, foi isso que acabou por criar mais vontade de ler o resto. È preciso saber dosear para dar ritmo.
(Eu tb m sinto diferente quando peço a alguém que leia os meus textos, e fiquei muito contente por me teres pedido a mim. Sempre que quiseres estou aqui, espero ter-te sido util)
Adorei :D *
ResponderExcluirSim, é verdade, às vezes falta alguma imponência. Mas eu acho que a linguagem criva as palavras.
ResponderExcluirE è claro que te dou mais dicas no futuro, e sempre com muito gosto. Mas acho que não tarda muito já estou é eu a perguntar-te cenas. Estás a ir muito bem. :D
Oh, estou a adorar! Posta mais sim, todos nós queremos conhecer melhor o jovem Ferreirinha e a rapariga dos longos cabelos escuros como chocolate quente e derretido.
ResponderExcluirSegunda à tarde estou de passagem bem rápida pelo Porto.:)
Tu és fantástica!
ResponderExcluirNunca pensas-te editar um livro?
Tens muita qualidade.
beijinhu*
Há mais um capítulo. E lá vais ver porque é que se chama Candeeiro. :D
ResponderExcluirTemos escritora é? Vamos já tratar dos patrocínios, de editoras e dos correctores. Façamos já trinta por uma linha .. o jovem Ferreira tem pernas para andar.
ResponderExcluirEstá verdade seja dita bom. Quem sabe se não sairá daqui um Best-Seller daqueles..
:D Obrigado
ResponderExcluiré verdade, é preciso deixar sempre umas pontas soltas, um pouco de mistério.
Humm, lá está!, o suspense e a curiosidade para o próximo capítulo :D
ResponderExcluirAdoro as tuas descrições tão adjectivadas, Joana ;D
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