Tenho as mãos brancas de fermento, revolvo massa e claras em castelo com a fúria que tento esconder enquanto escolho uma forma grande e bonita. Berram em uníssono e uma outra vez o meu nome - Não te volto a chamar!, sorrio solidária com a fúria que tentam esconder enquanto me chamam para a sala. Pouso o tabuleiro untado, as mãos na banca e o fermento escorre em gotas poeirentas até ao chão da cozinha. Quero abrir a torneira e espetar a cara debaixo da água que há-de correr com a fúria que tento esconder entre massas e claras em castelo, berros vindos da sala. Pego antes num pano da loiça, caminho em direcção às vozes do sofá. Vão recriminar a minha demora, protestar que o que têm para dizer é mais importante que massas e claras em castelo, teremos tempo depois para bolos. Bem sei e vou saudá-las, às duas vozes na sofá, com um sorriso e um "encomenda-se o jantar primeiro" senão a noite alonga entre o que têm para dizer e o que vamos repetir até a noite ser longa e fecha-se o Take Away da frente. Não lhes dou hipótese de pedirem que deixe isso também para depois, teremos tempo para jantares mais tarde que o que têm para dizer é mais importante que a porcaria do Take Away néon que tanto criticamos quando nos mudámos. Enquanto marco o número, de volta à cozinha, onde o telefone está preso à parede e parece-me, também ele, untado e poeirento, lembro-me do dia em que nos mudámos. Reclamamos do néon Take Away mal abrimos a persiana da sala porque quebrava o ambiente que idealizávamos para a nossa salinha, enquanto desembrulhávamos caixas de cartão de quase uma vida. Desconhecíamos, então, que a vida estava ainda para vir, naquele apartamento frente ao néon do Take Away. Peço ao Ricardo, o do restaurante, o habitual e daqui a vinte minutos uma de nós vai lá levantar o pedido, pagar o jantar. Talvez vá lá eu, depois de lavar as mãos, sentir o vento que há-de correr com a fúria que tento esconder entre massas e claras em castelo, berros vindos da sala que já me demoro muito e é só pedir o do costume. Bem sei, sorrio, caminho apressadamente em direcção a vozes do sofá.
Apanho a conversa a meio, já a ouvi duas vezes e, ainda assim, atento como se da primeira se tratasse, olhos seguem conversa com a fúria com que a segue o coração, atento como se da primeira. Por vezes falamos todas ao mesmo tempo, entendemo-nos mesmo assim. Vinte e cinco minutos depois o jantar está na mesa, em embalagens pequenas e de cartão, a lembrar o primeiro dia em que nos mudamos e encomendamos no mesmo Take Away que havíamos reclamado mal abrimos a persiana. Sentamo-nos as três, cada uma pega numa embalagem pequena e de cartão, descalçamos os sapatos altos, falamos conversas que já falamos por duas vezes e ainda com a convicção de quem a diz pela primeira. Os olhares, esses, compreendem-se como se compreendem os corações, atentos como olhares que se compreendem mesmo que estivéssemos as três caladas, petiscando de embalagens de cartão pequeno. Não o estamos, gesticulamos e assentimos, vezes há em que soltamos um "oh" de recriminação ou um "oh" de condescendência.
Sentadas, as três, na sala, falando e gesticulando entre o jantar de cartão, sabemos que a vida é isto. Não o sabíamos, quando nos mudamos, porque pensávamos, ingénuas - as três - convictas de que a essa, à vida, trazíamos nós embaladas em caixas de cartão. A vida desembrulhou-se ali, entre olhares que se compreendem como corações que já nem se imaginam senão entrecruzados, por três vezes.
Apanho a conversa a meio, já a ouvi duas vezes e, ainda assim, atento como se da primeira se tratasse, olhos seguem conversa com a fúria com que a segue o coração, atento como se da primeira. Por vezes falamos todas ao mesmo tempo, entendemo-nos mesmo assim. Vinte e cinco minutos depois o jantar está na mesa, em embalagens pequenas e de cartão, a lembrar o primeiro dia em que nos mudamos e encomendamos no mesmo Take Away que havíamos reclamado mal abrimos a persiana. Sentamo-nos as três, cada uma pega numa embalagem pequena e de cartão, descalçamos os sapatos altos, falamos conversas que já falamos por duas vezes e ainda com a convicção de quem a diz pela primeira. Os olhares, esses, compreendem-se como se compreendem os corações, atentos como olhares que se compreendem mesmo que estivéssemos as três caladas, petiscando de embalagens de cartão pequeno. Não o estamos, gesticulamos e assentimos, vezes há em que soltamos um "oh" de recriminação ou um "oh" de condescendência.
Sentadas, as três, na sala, falando e gesticulando entre o jantar de cartão, sabemos que a vida é isto. Não o sabíamos, quando nos mudamos, porque pensávamos, ingénuas - as três - convictas de que a essa, à vida, trazíamos nós embaladas em caixas de cartão. A vida desembrulhou-se ali, entre olhares que se compreendem como corações que já nem se imaginam senão entrecruzados, por três vezes.
Falamos de coisas que não compreendemos, segredos confessados entre pés descalços e braços abertos, gesticulando. Vamos fazer piadas sobre o que não compreendemos, comentar que o Ricardo, o do restaurante, é o único homem que não nos desilude porque só tem de tratar de embalagens pequenas de cartão e ainda nos elogia sempre que vamos levantar o pedido e pagar o jantar. Temos por beber um bom vinho, o que iremos abrir para o sofá, mais logo teremos tempo para um bom bolo. Sentadas, as três, na sala que nos desembrulhou a vida, vamos achar feio o néon do Take Away como se o víssemos pela primeira vez.
Abraçar-nos-emos com a força que nos paira nas palavras e os corações, esses, já nem se imaginam senão entrecruzados, assim, por três vezes.

(hum.. será que realmente vivemos juntas? será que realmente bebemos vinho enquanto comemos de caixas de cartão?)
ResponderExcluirFoi assim que aconteceu, e continuará a acontecer assim :)
amo-te mãe, com o coração todo *
mais um texto brilhante Joana *
ResponderExcluirObrigada (:
ResponderExcluirque texto tão bonito, Joana!
Beijinho*
Nem Take Aways feiosos em néon conseguem apagar o brilho de um jantar, de uma vida, entre amigas, contigo.
ResponderExcluirSabes que elas têm sorte? as amigas ...
:D *
E mal de quem tem a vida em pacotes, não aproveita conversas como essa que relatas. Só gostava era de saber porquê a fúria que tentas esconder. Será por não serem todos tão simples como o Ricardo?
ResponderExcluir(pois, o português... mas também me customo enganar nessa palavra, e aí sim, fico confundido :D e quanto ao meu anterior conto, não, não há um III, e acho que por uns tempos não tenho outro que agora ando a deixá-los todos a meio)
Obrigado pelo comentário no meu blog, amanhã virei com tempo para ler :)
ResponderExcluirum resto de uma boa semana
é assim que acontecerá. Sabes, eu realmente hoje pensei nisso no metro. Quando olho para tras vejo que em todas as alturas da minha vida sempre achei que sabia muito e agora sei muito mais e agora continuo certa de que sei tudo que ha para saber! (ok, isto foi um devaneio x))
ResponderExcluirOH MAE, TU PARECES PARVA, SABES?
eu acho que nos noutra vida viviamos assim e é por isso que andamos a ter estes flashbacks :P
O nosso amor é tao bonito que nem precisa de piropos sobre pernas hot para se manter aceso (a)
Eu amo-te cozinhadeira :)
Parece que sim. :p
ResponderExcluirObrigada, Joana, do coração.
São estes momentos que, mais tarde, em novas mudanças, se vão levar em caixotes, para que nunca se percam.
ResponderExcluirum belo texto *
Mesmo não estando à espera e podermos fazer planos para a vida futura, muitas vezes na nossa própria vida, 1 dia daqui outra semana além também estão fechadas a servir nas caixinhas de take away, não quer dizer que sejam menos importantes,apenas são retalhos diferentes que os temos de saborear de maneira diferente e com outro espírito :)
ResponderExcluirbeijinhos
Há momentos assim. Há conversas assim. Para não esquecer.
ResponderExcluir