segunda-feira, 13 de abril de 2009

Tal mãe tal filha.

Passeias pela casa atarefada, pegas nuns brincos da cómoda, os sapatos altos perto da cama, tiras uma blusa da cruzeta e enfias-te na casa de banho atarefadamente. Cumpres como um ritual esse teu tão próprio acto de te arranjares. Inclinas a cabeça para te decidires como vais pentear o cabelo hoje, como eu faço frente ao espelho para escolher para que lado puxo a repa. Calças o sapato alto e começo a ganhar a tua adversão às sapatilhas, repara. Vais pensar, quando já te decidiste pelo cabelo esticado para trás, se o Zé Miguel já se terá levantado e se eu já saí do banho - não saio a ti nessas demoras, bem sei. Vestes a blusa e passeias pela casa atarefada, vais acordar o Zé Miguel e chamar-me à atenção pela porta do quarto do banho, que não me demore que está quase na hora. Lembras-te que ainda falta ir buscar o bolo às Padeirinhas e que não há nada para o lanche. Os teus passos são apressados, atarefados, ainda não estás arranjada para o almoço, quanto mais para o lanche.

Saio do banho e antecedo à tua pergunta: Estás tão bonita, Mãe. Sorris-me, dizes que estou mais. Danço em tom provocatório: Também eu sou nova, trauteio. Inclinas-me a cabeça como quanto te questionas como pentear o cabelo pela manhã, recriminando-me carinhosamente. Ajudas-me a escolher um vestido, emprestas-me um dos teus colares, o vermelho que o pai te deu a paginas tantas. Quando estivermos as duas arranjadas vais reparar como estamos parecidas, talvez recordes quando tinhas os meus vinte anos e ideias sobre o que serias quando tivesses a idade que tens - trinta anos e um par de filhos depois. Nunca te disse mas o meu maior receio, o papão da minha alma, é que me olhes e, em vez de te veres em mim, vejas uma daquelas caprichosas raparigas de Lamego que, quando eras nova como eu, te causavam náuseas e úlceras na paciência - a virtude que mantiveste trinta anos e um casal de filhos depois.

Vais buscar o bolo às Padeirinhas, ainda não tens nada para o lanche e não crês que já faças cinquenta anos. Vais pensar, no regresso da confeitaria a casa, o que terá mudado desde que tinhas os meus vinte anos. Estarias, então, à porta de conhecer o pai. O mulherengo da tua cidade natal, com tenções de seguir Medicina e alistado para a tropa - como odiaste o Exército, então. Estarias, uns anitos depois, casada e depois grávida de mim. Não sei a que ponto foste operada ao apêndice, mas julgo que já o Zé por cá gatinhava. No regresso da confeitaria a casa vais deixar as recordações a meio porque não tens nada para o lanche e não crês que já faças cinquenta anos.

Sei o bolo que escolheste, aquele que tanto gostamos. Passeias atarefada pela casa, confirmas que haja pelo menos fiambre e pão, broa para o pai que é alérgico ao trigo. Podes não crer que faças já cinquenta anos mas também não os aparentas, Mãe, não te preocupes e vamos é almoçar. Sei que, uma vez chegados ao restaurante, vamos falar todos muito alto, todos ao mesmo tempo. É o melhor que sabemos e vamos pedir colas e ice tea, todos de vestido ou vestidos de fato-gravata. Nós de vestido e eles de fato-gravata, bem entendido. O avô vai discutir religião com a avó que não a sua esposa, essa vai adormecer sentada, embalada nas citações do Papa e nas exaltações da avó que não ela própria. O pai vai escolher o vinho, enquanto o namorado da Nádia o provoca com o futebol. O meu tio Zé Alberto vai alinhar e ripostar que o meu pai agora é virado para o Ciclismo, já que do seu Benfica só tem dissabores. O meu pai vai fazer ouvidos de mercador e dizer que a culpa é da arbitragem. O Nádia está a contar ao Guilherme como correu a apresentação em inglês lá no doutoramento em Oeiras, o Guilherme está a dizer que ela fica sempre mal nas fotografias, o André explica que precisa de novo despertador que aquele não o acorda e ainda vai ser despedido da empresa lá em Braga. O meu irmão e o Gonçalo vão, tão certamente, falar de jogos de consolas e o André, que de fato-gravata parece o primeiro-ministro, vai fazer pouco dos meus sapatos e do meu cabelo volumoso. Vou imitar uma birra, vamos falar todos ao mesmo tempo e muito alto, o meu pai e o meu tio vão berrar um "Ei!" quase em uníssono, a Nádia defende-me e o André esfrega as mãos de contentamento. O Gonçalo levanta-se, entorna a coca cola pela mesa acima e queixa-se que ficou com pouquinho, que vai pedir outra, estão todos a queixar-se que assim não podemos sair de casa, o André esfrega as mãos de contentamento, o Zé Miguel ri-se muito e o Guilherme, que é o namorado da Nádia, irmã do Gonçalo e do André, acompanha-o. O meu pai e o Zé Alberto gesticulam, o avô tem de interromper a discussão sobre a sexualidade com a avó porque a esposa acordou com o barulho do copo na mesa, a coca cola sibilando gás pela toalha acima, pergunta incessantemente que barulho foi aquele. A minha avó, a outra que não a que pergunta Que barulho foi aquele João?! incessantemente, porque ouve muito mal, não se apercebeu da barafunda que se instalou na outra ponta da mesa, e começa a contar um episódio muito engraçado em casa da Belinha, a aniversariante, quando viu um livro e leu "Séchualidade" em vez de "Sexualidade", ri-se alto e conta de novo porque o avô não ouviu, está a dizer incessantemente à mulher que Foi só um copo Amélia!, o André esfrega as mãos de contentamento e rimos alto porque é o que sabemos melhor. A minha mãe fala com a irmã, a tia Mila, que tem o mesmo riso sem ser gémea e as mesmas piadas sem as terem combinado ou decorado. Tem meio século e o dobro da paciência, a minha mãe. Sorri com um sorriso bonito, a minha mãe. Não aparentas os cinquenta que fazes, mamã, não te preocupes e vamos é comer o bolo que tanto gostamos. Vamos devorá-lo e sair do restaurante às horas do lanche - espera-nos o fiambre e o pão, broa para o pai que é alérgico. Tiramos fotografias como parolos que saíram à rua em dia de festa e eu e o André, que assim vestidos a condizer parecemos noivos e não primos, temos ainda flores para te dar, as tuas preferidas e sabemos que nos vais brindar com o teu sorriso bonito e o teu meio século de carinho, a virtude que mantiveste este tempo todo.

Pelo final do dia, quando todos se foram embora e despimos as vestimentas de cerimónia, reparo como somos parecidas até de fato de treino. Temos as duas bandolete no cabelo como quando eu tinha cinco anos e colávamos cromos juntas. Pelo jantar somos só os cinco, rimos alto e falamos ao mesmo tempo, a páginas tantas o pai vai berrar um "Ei!" e os avós vão tocar à campainha, vamos todos para a sala ver os Vinis que mantiveste desde que tinhas vinte anos e ideias sobre o que serias quando tivesses a idade que hoje tens. Agora é o avô que dormita, o meu pai explica ao meu irmão o que é HD e já ele está farto de saber o que é Alta Definição, as avós discutem o perigo de eu já conduzir sozinha, só dá malucos na estrada e nas notícias Janocas, enquanto seguro os Vinis no colo. A minha mãe espera que eu os veja, um a um, para me dizer os melhores e aqueles que eu também vou gostar como ela gostou, quando tinha os meus vinte anos. Os discos que guardou com o mesmo afinco com que conservou a paciência, essa preciosa virtude - estes preciosos Vinis. Vais brindar a nossa noite com o teu bonito sorriso, Mãe. - Estás tão bonita. Vais dizer que estou mais e, agora, respondo que é porque sou tua filha.

11 comentários:

  1. Estou deliciada e com um sorriso enorme e de lágrimas nos olhos :)
    Tens razão, quando falas da família, também me lembras de mim, como também nos rimos e falamos todos muito alto!

    Volto a dizer, estou deliciada, com um sorriso enorme e de lágrimas nos olhos :)
    (e a tua mãe não aparenta, mesmo nada, os cinquenta :))

    ResponderExcluir
  2. sempre te achei mesmo parecida com a senhora abençoada tua mae :)


    (e gostei muito do texto...estamos todos contagiados pelo espirito familiar :))

    ResponderExcluir
  3. Que bonito.

    É quando já não consigo fazer mais nada.

    ResponderExcluir
  4. Joaninha, tão liindo.
    Quais parágrafos difíceis de ler, viciantes sim.

    A tua mãe tem sorte, querida, que filhas como tu são raras e perfeitas :')

    Beijinho, *
    (gostei do "a páginas tantas" x'D)

    ResponderExcluir
  5. Que fofinho este texto. É tão bom identificarmo-nos com aqueles que amamos e fazermos parte deles e eles de nós.

    A família é assim.

    ResponderExcluir
  6. Adorei. Li o texto todo com um sorriso na boca e deixe-me levar por cada linha onde ias retratando uma familia feliz duma forma tão pura e divertida.
    Gostei muito desta - "as avós discutem o perigo de eu já conduzir sozinha"
    E não te preocupes, nunca serás uma dessas caprichosas de Lamego, vai é colecionando os teus próprios vinis. :D

    ResponderExcluir
  7. Adorei, mostra tão bem o carinho que tens pela família, é lindoo *.*

    Beijinho *

    ResponderExcluir
  8. quando vi o tamanho do texto pensei logo que ia desistir a meio, mas não, li sofregamente todo este fraseado onde descreves, e tão bem, a tua familia. está lindo, delicioso! :D

    ResponderExcluir
  9. Um texto de palavras e emoções de rebuçado...
    Aquece-nos o peito frio.
    Doce, doce! =)

    http://escritoemlaranja.blogspot.com

    ResponderExcluir
  10. Ficou mesmo bonito joana..
    :') não há palavras! *

    ResponderExcluir
  11. Ooh o texto está lindo, Joana! A tua mãe deve ter ficado mesmo feliz!
    "Sei que, uma vez chegados ao restaurante, vamos falar todos muito alto, todos ao mesmo tempo. É o melhor que sabemos (...)" voces sao exactamente iguais à minh a familia materna. É tudo tao alegremente confuso! :D
    Beijinhos enormes,
    Mar*

    ResponderExcluir