Falas-me da tua paixão pela música como se a uma deusa prestasses contas. Explicas acordes à minha ignorância, partituras que o meu coração canta sem as estudar. Borbulha-te entusiasmo em cada palavra, desenhas um piano com as mãos e quase consigo ver as teclas brancas, as teclas pretas. Segues a minha atenção com o teu olhar entusiasmado, estás a explicar acordes à minha ignorância e eu tento perceber-te como se a deus prestasse contas. Nunca percebi arte que fosse exterior à literatura, mal distingo instrumentos de sopro porque me soam todos a flautas das que eu tinha quando andava na escola e tinha formação musical. Nunca percebi cultura que fosse para lá do dialecto e da escrita e ainda assim atento nas tuas palavras borbulhando entusiasmo. Mentalmente, registo o que me explicas como quando estudava pintura em História e tinha um professor que nunca borbulhou o que fosse, entusiasmo ou vida. Não queria divagar enquanto acordas a minha ignorância com acordes, partituras e um piano desenhado nas tuas mãos largas, mas não posso afirmar veementemente que ainda te oiça. Acontecia o mesmo quando tinha um professor de História que me explicava pintura, mas aí eu questionava-me se o homem sequer respirava. Tinha o tom monocórdico e as mãos sempre pousadas uma sob a outra, a destra sempre no topo de dedos esquerdinos finos, amarelecidos pelo tempo e pelo tabaco. Contigo questiono-me se borbulhas entusiasmo apenas pela paixão que tens pela música, como se a uma deusa contas prestasses. Tens uma voz quente que oscila entre acordes que, agora, já não me são tão forasteiros quanto isso, e que me cativa entre sílabas mornas que fraseiam os teus gestos, figuram a tua boca de uma dança que me distrai das tuas explicações musicais. As tuas mãos desenham teclas brancas e teclas pretas e de vez em quando perguntas se estou a perceber. Chegas-te mais perto de mim e perscrutas o meu silêncio. Nunca percebi qualquer arte que não fosse literatura mas não me importava de explorar a cultura que baila nesse teu corpo robusto, numa dança que te distraia dessa deusa a quem julgas ter de prestar contas. Carregas três vezes no botão do rádio e cantamos acordes que corações conhecem sem estudar. Revejo mentalmente as tuas explicações sobre a arte que nunca soube cultivar ou entender e, cantando contigo, borbulho um entusiasmo que não o pela tua deusa e musa. Percebo, então, porque divaguei enquanto acordavas a minha ignorância. É a tua voz quente e são as tuas mãos largas, os teus lábios em danças distractivas e esse teu corpo robusto, onde baila uma cultura que, agora, já não me é tão forasteira quanto isso.
'Enquanto a música não me acalmar, não vou descer, não vou enfrentar... O meu vício de ti não vai passar e não percebo porque não esmorece - ao que parece o meu corpo não se esquece.'* Mesa.

Ai Joana, transpiras sentimento, paixão.
ResponderExcluirAdorei cada palavra - até parece que te ouço a repeti-las.
A foto fantástica, a frase genial :D
*
Adorei este! Nem sabes como sorrio sempre que venho aqui ler os teus textos, e como sorrio por te sentir bem. :)
ResponderExcluirAté parece que também eu sinto tudo isso.
É tão bom ver essa tua felicidade crescer de dia para dia, sentir os teus olhos a brilharem cada vez que contas coisas novas que vais descobrindo, é tão bom sentir-te (novamente) feliz. :)
Olha as saudades são pra matar!
Fogo :o está lindo. É que fico sem reacção, completamente!
ResponderExcluirAi, mesmo não sabendo outra arte para além da literatura, os teus textos transbordam uma melodia muda muito doce.
ResponderExcluirAdorei a última frase que citaste.
ResponderExcluirbeijinhu
percebes de literatura e de escrita ainda mais, mais uma vez fantástico *
ResponderExcluirO texto está muito bom, percebes mesmo de literatura.
ResponderExcluir(Bem, afinal não foste tu que o viste primeiro, foi a música. Mas aposto que vais ganhar mesmo assim.)