Quero contar-te uma história e a minha memória não me deixa precisar dia, mês tão-pouco, mas situo-a no ano anterior e, para o fim que tem, bem basta para data saber que se passou em 2008. Oh, dois mil e oito. Dissessem que nesse ano acabou o mundo, e não que acabará em dois mil e dez, gostam sempre mais de números redondos, e eu acreditar-me-ia. O mundo acabou em 2008 e quase ninguém deu conta. Eu dei e conto-te uma história para que dês também.
Lembras-te quando, uma vez, fui dormir a tua casa, como fui tantas outras vezes? Fizeste o jantar e eu pus a mesa, combinávamos horas para despertar entre pratos lavados e colheres provando a sopa. Eu sempre a pedinchar mais uns minutos de sono, a tua responsabilidade a chamar-me à razão que, assim sendo, perderíamos o comboio e sempre podia dormitar na viagem. Sorria, estavas certa e a tua responsabilidade carinhosa chamava-me sempre à razão, chega-me os guardanapos por favor. O jantar decorreu como tantos outros, passas-me a salada sem eu ta pedir e o gesto é quase mecânico, quase habitual. Diriam que jantamos todas as noites juntas, tu passando-me a salada em gestos mecânicos, queres mais arroz? O jantar decorreu como tantos outros e arrumamos a cozinha a meias. Deitas os guardanapos usados no lixo, sacodes a toalha na varanda que dá para o campo de futebol enquanto vou pondo a loiça na máquina de lavar. Gestos quase mecânicos, fossemos nós jantar juntas todas as noites. Seriam já horas de dormir, olha que perdemos o comboio amanhã de manhã que és sempre um pesadelo a levantar, dizias-me entre pasta dos dentes que te fugia das palavras em espuma colorida. Finjo um amuo, vou vestir o pijama. Seriam já horas de dormir quando ele me ligou e me mentiu. Lembras-te quando, uma vez, fui dormir a tua casa, como fui tantas outras vezes, e, já de pijama vestido, ele me ligou e me mentiu? O amor não devia ter dessas (arti)manhas e foste tu quem me chamou à razão. Lidar com a mentira foi como lidar com o medo e com nenhum deles foi bonito de se ver. Andam de par em par, esses dois safados. Dão a mão e ceifam-nos os sonhos, os planos para horas de dormida e horas de despertar. Seguraste-me as mãos, porque estavam no quarto a mentira e o medo e eu tremia muito. Surpreendeu-te a fragilidade das minhas palavras, as minhas pernas com vontade própria e a vontade era a de se abanarem como electrizadas, pernas como varas, pernas tremendo. Eu, que levara anos a conseguir amar, anos a ser capaz de admitir tal fraqueza. Sim, porque é uma fraqueza. Seguravas-me as mãos e apertavas-me no teu ventre. Tinha o estômago no coração, o coração vagueava nas ruas por onde ele andava, quando me ligou dizendo que estava em casa dormindo. Mentiu-me e conheci o medo que me ceifava os sonhos, os planos que eu fazia de jantar com ele também, gestos mecânicos como se fossemos partilhar, eu e ele, dormidas o resto das nossas vidas. Olhaste-me nos olhos, então, e chamaste-me à razão. Falavas pausadamente, apertavas-me as mãos e obrigavas-me a erguer-me direita, pernas como estacas, pernas ilesas e salvas de tremuras. Conheci a mentira e o medo numa só noite, ceifando planos e sonhos, e tive-te por perto para me amparares lágrimas, gritos e tombos. Fomos para a tua varanda, a outra, a da entrada, onde quase caí na casa do vizinho, lembras-te?, pernas teimando um medo que sentia tão mais acima. Tão mais perto do peito que latejava, revolvendo sonhos e planos mortos, ceifados por mentiras - e que mentiras. Ensinaste-me, na varanda da entrada, a inspirar e expirar com força, de pijama e dentes lavados. O coração, esse, sujo e maltratado, roto e insípido. Tinha frio, tinha vergonha de estar paralisada e de não me lembrar de inspirar sozinha, e tu falavas pausadamente, apertavas-me as mãos e respiravas comigo. Abraçamo-nos, eu envergonhada e tu surpresa, e chorei convulsões nos teus ombros. Chorosa e envergonhada, senti que me abraçavas os soluços e me obrigavas a erguer direita, oh pernas teimosas. Falavas pausadamente, lembras-te?
Não sei bem que dia, noite de que mês se tratou, mas vou sempre guardar o pacto que fiz contigo e com o luar, testemunhando o teu ventre e as tuas palavras pausadas e serenas.
O mundo acabou em 2008 e só nós demos conta - nós e o luar dessa noite, não sei de que mês, lembras-te?
Hoje ligo-te, quero contar-te uma história. Vais responder-me pausadamente e o carinho que transbordas em cada fala vai fazer-me sentir as tuas mãos e o teu ventre, os teus olhos procurando os meus e obrigando-me a erguer-me direita.
Conheces-me sem eu ter que te explicar, como se me passasses a salada sem ta pedir, gesto mecânico, gesto habitual. E, por isso, hoje ligo-te para te contar uma história, falas-me pausadamente: Joana, o mundo começa hoje.
Sorrio, a tua responsabilidade carinhosa chama-me sempre à razão e, contigo, hei-de ter sempre as pernas - essas teimosas - e o coração - esse louco - a salvo.
Lembras-te quando, uma vez, fui dormir a tua casa, como fui tantas outras vezes? Fizeste o jantar e eu pus a mesa, combinávamos horas para despertar entre pratos lavados e colheres provando a sopa. Eu sempre a pedinchar mais uns minutos de sono, a tua responsabilidade a chamar-me à razão que, assim sendo, perderíamos o comboio e sempre podia dormitar na viagem. Sorria, estavas certa e a tua responsabilidade carinhosa chamava-me sempre à razão, chega-me os guardanapos por favor. O jantar decorreu como tantos outros, passas-me a salada sem eu ta pedir e o gesto é quase mecânico, quase habitual. Diriam que jantamos todas as noites juntas, tu passando-me a salada em gestos mecânicos, queres mais arroz? O jantar decorreu como tantos outros e arrumamos a cozinha a meias. Deitas os guardanapos usados no lixo, sacodes a toalha na varanda que dá para o campo de futebol enquanto vou pondo a loiça na máquina de lavar. Gestos quase mecânicos, fossemos nós jantar juntas todas as noites. Seriam já horas de dormir, olha que perdemos o comboio amanhã de manhã que és sempre um pesadelo a levantar, dizias-me entre pasta dos dentes que te fugia das palavras em espuma colorida. Finjo um amuo, vou vestir o pijama. Seriam já horas de dormir quando ele me ligou e me mentiu. Lembras-te quando, uma vez, fui dormir a tua casa, como fui tantas outras vezes, e, já de pijama vestido, ele me ligou e me mentiu? O amor não devia ter dessas (arti)manhas e foste tu quem me chamou à razão. Lidar com a mentira foi como lidar com o medo e com nenhum deles foi bonito de se ver. Andam de par em par, esses dois safados. Dão a mão e ceifam-nos os sonhos, os planos para horas de dormida e horas de despertar. Seguraste-me as mãos, porque estavam no quarto a mentira e o medo e eu tremia muito. Surpreendeu-te a fragilidade das minhas palavras, as minhas pernas com vontade própria e a vontade era a de se abanarem como electrizadas, pernas como varas, pernas tremendo. Eu, que levara anos a conseguir amar, anos a ser capaz de admitir tal fraqueza. Sim, porque é uma fraqueza. Seguravas-me as mãos e apertavas-me no teu ventre. Tinha o estômago no coração, o coração vagueava nas ruas por onde ele andava, quando me ligou dizendo que estava em casa dormindo. Mentiu-me e conheci o medo que me ceifava os sonhos, os planos que eu fazia de jantar com ele também, gestos mecânicos como se fossemos partilhar, eu e ele, dormidas o resto das nossas vidas. Olhaste-me nos olhos, então, e chamaste-me à razão. Falavas pausadamente, apertavas-me as mãos e obrigavas-me a erguer-me direita, pernas como estacas, pernas ilesas e salvas de tremuras. Conheci a mentira e o medo numa só noite, ceifando planos e sonhos, e tive-te por perto para me amparares lágrimas, gritos e tombos. Fomos para a tua varanda, a outra, a da entrada, onde quase caí na casa do vizinho, lembras-te?, pernas teimando um medo que sentia tão mais acima. Tão mais perto do peito que latejava, revolvendo sonhos e planos mortos, ceifados por mentiras - e que mentiras. Ensinaste-me, na varanda da entrada, a inspirar e expirar com força, de pijama e dentes lavados. O coração, esse, sujo e maltratado, roto e insípido. Tinha frio, tinha vergonha de estar paralisada e de não me lembrar de inspirar sozinha, e tu falavas pausadamente, apertavas-me as mãos e respiravas comigo. Abraçamo-nos, eu envergonhada e tu surpresa, e chorei convulsões nos teus ombros. Chorosa e envergonhada, senti que me abraçavas os soluços e me obrigavas a erguer direita, oh pernas teimosas. Falavas pausadamente, lembras-te?
Não sei bem que dia, noite de que mês se tratou, mas vou sempre guardar o pacto que fiz contigo e com o luar, testemunhando o teu ventre e as tuas palavras pausadas e serenas.
O mundo acabou em 2008 e só nós demos conta - nós e o luar dessa noite, não sei de que mês, lembras-te?
Hoje ligo-te, quero contar-te uma história. Vais responder-me pausadamente e o carinho que transbordas em cada fala vai fazer-me sentir as tuas mãos e o teu ventre, os teus olhos procurando os meus e obrigando-me a erguer-me direita.
Conheces-me sem eu ter que te explicar, como se me passasses a salada sem ta pedir, gesto mecânico, gesto habitual. E, por isso, hoje ligo-te para te contar uma história, falas-me pausadamente: Joana, o mundo começa hoje.
Sorrio, a tua responsabilidade carinhosa chama-me sempre à razão e, contigo, hei-de ter sempre as pernas - essas teimosas - e o coração - esse louco - a salvo.
Se não vivermos juntas, quero dizer-te que viverás sempre comigo. Irmã como que se de sangue, a outra de mim e do peito.

bem
ResponderExcluirque dedicatória...que texto magnifico....e soube a pouco ...queria continuar a ler durante mais tempo...obrigado por partilhares tão belas palavras!!
Beijocas Desinteressadas
Sempre soubes-te escrever muito bem . Explicar os sentimentos por palavras que a qualquer um faz parar o coração por momentos , fazer sentir protagonistas culpados de uma historia que tao bem contas como se assim a fosse.
ResponderExcluirDatas ? nunca foste boa em dantas , mas esta ,a deste post decora-
Fragil? Com medo? Ninguem o diria , sempre tives-te jeito para palavras ora desde 2008 (data?) , 29 do 11 de 2008 , brincas com as palavras deixando esperança e puxando quando me levanto . Na vida encontram-se pessoas que nos fazem pensar sabias que nos fazem acalmar e acreditar naquilo que somos sem medo de encarar o futuro e deixar o passado no sitio dele . Data ? Decora esta , onde começa uma nova vida tua ,e de muito mais gente que nasce , uns do ventre outros que nascem do meio da inocencia vendo como as brincam .
Queres uma historia ? sem telefonemas .. 5meses a dar corda a uma criança inocente que acreditara no amor? , e quando a criança se sente segura a corda tu puxas da forma mais violenta deixando a crianaça no chao , 5meses de sofrimento ? sabes o bem inocente nao o es. Ate que a criança vira homem e com a força de quem a faz nascer para a vida decide largar a corda que das e puxas e levantar-se com as prorpias pernas perdendo a esperança. Com a certeza que entre bocas e bocas em boatos em boatos nao foi como tu que fez chegar a ouvidos de pessoas e conhecidos mal daquele que dizias amar .
Joana, eu gostava de escrever assim, de conseguir metade desse teu jeito de envolver todos os que te conhecem a escrita.
ResponderExcluirÉs fabulosa e nada do que digas vai mudar isso.
Disseram-me que o mundo ia acabar em 2012 e, sinceramente, fiquei preocupada ao princípio, coisa tola (ou não),que iamos todos pelo ar. Mas morrer é isto, é mentirem-nos em pijama.
Grande amiga que tu tens. Capaz de em momentos desses tranquilizar-te as pernas aos poucos. E também capaz de, quando chegar a altura certa, dizer frases destas :"Joana, o mundo começa hoje." E é verdade Joana, teve foi umas intermitências pelo meio, nada de especial para ti e para as tuas forças. Vai, começas hoje.
ResponderExcluirO Pianista é dos meus filmes favoritos. Dele, também gosto muito de Colete de Forças.
(tu também me fazes rir :D)
Este texti está amazing mae! adorei, mesmo!
ResponderExcluirO Mundo nunca acabou, adormeceu por momentos, mas hoje recomeça!
(acho que devia corrigir ali que foi antes 28 de novembro porque 29 foi o meu dia de anos, portanto nao misturem!
há coisas tão tristes, mas tão tristes, que a mim só me dão pena!)
a ti mãe, amo-te * de coração!
escreves tão tão bem, fazes-me beber as palavras como poucas vezes faço : )
ResponderExcluir(o teu mundo, começa hoje, amanhã, quando estiveres pronta para te pores face to face com a vadia que nos trocou as voltas.
ResponderExcluirQue Lindo meu deus. :O
ResponderExcluirSerá que o "voces" são impossivel ?
(Tive a reparar nuns comentários - deste post e no dia anterior - há pessoal que não percebe mesmo quando deve sair de cena, o melhor é não ligar mesmo. Força.)
ResponderExcluirRisquei duas vezes.
ResponderExcluirTens o dom das palavras, sim. Mas, acima de tudo, tens o dom de amar - esse dom a que chamamos fraqueza, não por cairmos em erros contínuos e ainda ficarmos supresas com atitudes que julgamos inesperadas, mas porque temos a capacidade de perdoar, quando nos magoam (quando nos mentem, até).
ResponderExcluirQue interessa decorar datas? Não há datas para amar. Ama-se todos os dias, em gestos e em palavras também.
Que interessa dizer que se sofreu, mas cresceu, quando no final de contas apenas se mostra, mais uma vez, o lado infantil, o lado insensível - o lado cobarde?
Joana, tu cresceste. Tu viveste e sofreste, mas cresceste. Porque encaraste a vida, a perda, sem teres de deitar culpas em alguém. E há quem te admire, quem não te julgue as palavras. Há quem te ame e veja a pessoa que és.
És genuína - tenho pena que nem toda a gente o reconheça.
Joana, o mundo começa hoje. *
"Lidar com a mentira foi como lidar com o medo e com nenhum deles foi bonito de se ver. Andam de par em par, esses dois safados. Dão a mão e ceifam-nos os sonhos, os planos para horas de dormida e horas de despertar."
ResponderExcluirAnseio o dia em que vou comprar um livro teu! Espero que tenhas um grande futuro com as palavras pois tenho a certeza que as palavras teriam um grande futuro contigo.
És genial, Joana, parabéns!
P.S: O meu mundo também acabou em 2008 e, tal como tu, também uma irmã de ergueu numa varanda numa noite de luar.
Eu vi o mundo a acabar em 2007, mas para que conste, ele já recomeçou. E o pior foi ouvir uma verdade assim dita como quem diz que vai lavar os dentes e saber tudo menos como lidar com ela, demasiado surreal!
ResponderExcluirAdorei Joana :) E, por experiência prórpia, digo-te que o mundo acaba mas depois começa outro, bem melhor :D
ResponderExcluirBeijinhoo *
O mes pouco importa, o dia também nao, bastaram as ocorrencias para essas te acompanharem até hoje, e é lamentavel que ainda assim haja pessoas que te culpam por coisas qe nao foram tao lineares quando tais pensam que sao. Mas isso é passado e nao é através desse passado que o presente se vive. A Vida, Joana, a vida começa hoje! E as lagrimas e as pernas a tremer bem como os soluços daqela noite ficaram apenas entre nós os 3.. eu, tu e o luar dessa noite. O coração magoado é algo que custa a curar, insaciavel no acto da verdade quando a mentira nos cobria o coração, mas nao será isso qe te tirará o brilho desse olhar, o sorriso qe eu AMO ver em ti, e toda essa alegria caracteristica que sempre te envolveu. E sabes bem como sao estes momentos qe nos tornam mais fortes, e tu tas mais forte, oh, e como mais forte estás porque afinal até os maus momentos nos ensinam.
ResponderExcluirFarei o possivel e o impossivel, sempre, para que esse maroto coraçao e essas pernas teimosas se aguentem firmamente, tal como o imenso carinho que eu tenho por ti, e tudo porque nao ha ninguem que mereça mais que tu a felicidade, essa palavra facil de pronunciar, mas complicada de encontrar na realidade, mas que irá ao teu encontro quando menos esperar, e enquanto isso nao acontecer, lembra-te de mim, dos nossos momentos e de todas as confidencias, porque a felicidade é amizade e como a nossa, irma, a verdade será sempre tao transparente como a agua!
Estarei sempre aqi nao duvides nunca.
E gosto mais de ti do que alguma vez possas imaginar!
um bjinho, metade*
Bem, Jo, parece que a Ni também de comentários-que-davam-posts :'D
ResponderExcluirTão bom ver como vocês, metades, se completam.
*
Saio daqui com um nó no peito. O mundo acaba tantas vezes sem nos apercebermos.
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