quarta-feira, 29 de abril de 2009

Onde o mundo acaba e a esperança começa.

Quero contar-te uma história e a minha memória não me deixa precisar dia, mês tão-pouco, mas situo-a no ano anterior e, para o fim que tem, bem basta para data saber que se passou em 2008. Oh, dois mil e oito. Dissessem que nesse ano acabou o mundo, e não que acabará em dois mil e dez, gostam sempre mais de números redondos, e eu acreditar-me-ia. O mundo acabou em 2008 e quase ninguém deu conta. Eu dei e conto-te uma história para que dês também.
Lembras-te quando, uma vez, fui dormir a tua casa, como fui tantas outras vezes? Fizeste o jantar e eu pus a mesa, combinávamos horas para despertar entre pratos lavados e colheres provando a sopa. Eu sempre a pedinchar mais uns minutos de sono, a tua responsabilidade a chamar-me à razão que, assim sendo, perderíamos o comboio e sempre podia dormitar na viagem. Sorria, estavas certa e a tua responsabilidade carinhosa chamava-me sempre à razão, chega-me os guardanapos por favor. O jantar decorreu como tantos outros, passas-me a salada sem eu ta pedir e o gesto é quase mecânico, quase habitual. Diriam que jantamos todas as noites juntas, tu passando-me a salada em gestos mecânicos, queres mais arroz? O jantar decorreu como tantos outros e arrumamos a cozinha a meias. Deitas os guardanapos usados no lixo, sacodes a toalha na varanda que dá para o campo de futebol enquanto vou pondo a loiça na máquina de lavar. Gestos quase mecânicos, fossemos nós jantar juntas todas as noites. Seriam já horas de dormir, olha que perdemos o comboio amanhã de manhã que és sempre um pesadelo a levantar, dizias-me entre pasta dos dentes que te fugia das palavras em espuma colorida. Finjo um amuo, vou vestir o pijama. Seriam já horas de dormir quando ele me ligou e me mentiu. Lembras-te quando, uma vez, fui dormir a tua casa, como fui tantas outras vezes, e, já de pijama vestido, ele me ligou e me mentiu? O amor não devia ter dessas (arti)manhas e foste tu quem me chamou à razão. Lidar com a mentira foi como lidar com o medo e com nenhum deles foi bonito de se ver. Andam de par em par, esses dois safados. Dão a mão e ceifam-nos os sonhos, os planos para horas de dormida e horas de despertar. Seguraste-me as mãos, porque estavam no quarto a mentira e o medo e eu tremia muito. Surpreendeu-te a fragilidade das minhas palavras, as minhas pernas com vontade própria e a vontade era a de se abanarem como electrizadas, pernas como varas, pernas tremendo. Eu, que levara anos a conseguir amar, anos a ser capaz de admitir tal fraqueza. Sim, porque é uma fraqueza. Seguravas-me as mãos e apertavas-me no teu ventre. Tinha o estômago no coração, o coração vagueava nas ruas por onde ele andava, quando me ligou dizendo que estava em casa dormindo. Mentiu-me e conheci o medo que me ceifava os sonhos, os planos que eu fazia de jantar com ele também, gestos mecânicos como se fossemos partilhar, eu e ele, dormidas o resto das nossas vidas. Olhaste-me nos olhos, então, e chamaste-me à razão. Falavas pausadamente, apertavas-me as mãos e obrigavas-me a erguer-me direita, pernas como estacas, pernas ilesas e salvas de tremuras. Conheci a mentira e o medo numa só noite, ceifando planos e sonhos, e tive-te por perto para me amparares lágrimas, gritos e tombos. Fomos para a tua varanda, a outra, a da entrada, onde quase caí na casa do vizinho, lembras-te?, pernas teimando um medo que sentia tão mais acima. Tão mais perto do peito que latejava, revolvendo sonhos e planos mortos, ceifados por mentiras - e que mentiras. Ensinaste-me, na varanda da entrada, a inspirar e expirar com força, de pijama e dentes lavados. O coração, esse, sujo e maltratado, roto e insípido. Tinha frio, tinha vergonha de estar paralisada e de não me lembrar de inspirar sozinha, e tu falavas pausadamente, apertavas-me as mãos e respiravas comigo. Abraçamo-nos, eu envergonhada e tu surpresa, e chorei convulsões nos teus ombros. Chorosa e envergonhada, senti que me abraçavas os soluços e me obrigavas a erguer direita, oh pernas teimosas. Falavas pausadamente, lembras-te?
Não sei bem que dia, noite de que mês se tratou, mas vou sempre guardar o pacto que fiz contigo e com o luar, testemunhando o teu ventre e as tuas palavras pausadas e serenas.

O mundo acabou em 2008 e só nós demos conta - nós e o luar dessa noite, não sei de que mês, lembras-te?
Hoje ligo-te, quero contar-te uma história. Vais responder-me pausadamente e o carinho que transbordas em cada fala vai fazer-me sentir as tuas mãos e o teu ventre, os teus olhos procurando os meus e obrigando-me a erguer-me direita.
Conheces-me sem eu ter que te explicar, como se me passasses a salada sem ta pedir, gesto mecânico, gesto habitual. E, por isso, hoje ligo-te para te contar uma história, falas-me pausadamente: Joana, o mundo começa hoje.
Sorrio, a tua responsabilidade carinhosa chama-me sempre à razão e, contigo, hei-de ter sempre as pernas - essas teimosas - e o coração - esse louco - a salvo.
Se não vivermos juntas, quero dizer-te que viverás sempre comigo. Irmã como que se de sangue, a outra de mim e do peito.

17 comentários:

  1. bem
    que dedicatória...que texto magnifico....e soube a pouco ...queria continuar a ler durante mais tempo...obrigado por partilhares tão belas palavras!!

    Beijocas Desinteressadas

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  2. Sempre soubes-te escrever muito bem . Explicar os sentimentos por palavras que a qualquer um faz parar o coração por momentos , fazer sentir protagonistas culpados de uma historia que tao bem contas como se assim a fosse.
    Datas ? nunca foste boa em dantas , mas esta ,a deste post decora-
    Fragil? Com medo? Ninguem o diria , sempre tives-te jeito para palavras ora desde 2008 (data?) , 29 do 11 de 2008 , brincas com as palavras deixando esperança e puxando quando me levanto . Na vida encontram-se pessoas que nos fazem pensar sabias que nos fazem acalmar e acreditar naquilo que somos sem medo de encarar o futuro e deixar o passado no sitio dele . Data ? Decora esta , onde começa uma nova vida tua ,e de muito mais gente que nasce , uns do ventre outros que nascem do meio da inocencia vendo como as brincam .
    Queres uma historia ? sem telefonemas .. 5meses a dar corda a uma criança inocente que acreditara no amor? , e quando a criança se sente segura a corda tu puxas da forma mais violenta deixando a crianaça no chao , 5meses de sofrimento ? sabes o bem inocente nao o es. Ate que a criança vira homem e com a força de quem a faz nascer para a vida decide largar a corda que das e puxas e levantar-se com as prorpias pernas perdendo a esperança. Com a certeza que entre bocas e bocas em boatos em boatos nao foi como tu que fez chegar a ouvidos de pessoas e conhecidos mal daquele que dizias amar .

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  3. Joana, eu gostava de escrever assim, de conseguir metade desse teu jeito de envolver todos os que te conhecem a escrita.
    És fabulosa e nada do que digas vai mudar isso.
    Disseram-me que o mundo ia acabar em 2012 e, sinceramente, fiquei preocupada ao princípio, coisa tola (ou não),que iamos todos pelo ar. Mas morrer é isto, é mentirem-nos em pijama.

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  4. Grande amiga que tu tens. Capaz de em momentos desses tranquilizar-te as pernas aos poucos. E também capaz de, quando chegar a altura certa, dizer frases destas :"Joana, o mundo começa hoje." E é verdade Joana, teve foi umas intermitências pelo meio, nada de especial para ti e para as tuas forças. Vai, começas hoje.
    O Pianista é dos meus filmes favoritos. Dele, também gosto muito de Colete de Forças.
    (tu também me fazes rir :D)

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  5. Este texti está amazing mae! adorei, mesmo!
    O Mundo nunca acabou, adormeceu por momentos, mas hoje recomeça!

    (acho que devia corrigir ali que foi antes 28 de novembro porque 29 foi o meu dia de anos, portanto nao misturem!
    há coisas tão tristes, mas tão tristes, que a mim só me dão pena!)

    a ti mãe, amo-te * de coração!

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  6. escreves tão tão bem, fazes-me beber as palavras como poucas vezes faço : )

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  7. (o teu mundo, começa hoje, amanhã, quando estiveres pronta para te pores face to face com a vadia que nos trocou as voltas.

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  8. Que Lindo meu deus. :O

    Será que o "voces" são impossivel ?

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  9. (Tive a reparar nuns comentários - deste post e no dia anterior - há pessoal que não percebe mesmo quando deve sair de cena, o melhor é não ligar mesmo. Força.)

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  10. Tens o dom das palavras, sim. Mas, acima de tudo, tens o dom de amar - esse dom a que chamamos fraqueza, não por cairmos em erros contínuos e ainda ficarmos supresas com atitudes que julgamos inesperadas, mas porque temos a capacidade de perdoar, quando nos magoam (quando nos mentem, até).
    Que interessa decorar datas? Não há datas para amar. Ama-se todos os dias, em gestos e em palavras também.
    Que interessa dizer que se sofreu, mas cresceu, quando no final de contas apenas se mostra, mais uma vez, o lado infantil, o lado insensível - o lado cobarde?
    Joana, tu cresceste. Tu viveste e sofreste, mas cresceste. Porque encaraste a vida, a perda, sem teres de deitar culpas em alguém. E há quem te admire, quem não te julgue as palavras. Há quem te ame e veja a pessoa que és.
    És genuína - tenho pena que nem toda a gente o reconheça.


    Joana, o mundo começa hoje. *

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  11. "Lidar com a mentira foi como lidar com o medo e com nenhum deles foi bonito de se ver. Andam de par em par, esses dois safados. Dão a mão e ceifam-nos os sonhos, os planos para horas de dormida e horas de despertar."
    Anseio o dia em que vou comprar um livro teu! Espero que tenhas um grande futuro com as palavras pois tenho a certeza que as palavras teriam um grande futuro contigo.
    És genial, Joana, parabéns!

    P.S: O meu mundo também acabou em 2008 e, tal como tu, também uma irmã de ergueu numa varanda numa noite de luar.

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  12. Eu vi o mundo a acabar em 2007, mas para que conste, ele já recomeçou. E o pior foi ouvir uma verdade assim dita como quem diz que vai lavar os dentes e saber tudo menos como lidar com ela, demasiado surreal!

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  13. Adorei Joana :) E, por experiência prórpia, digo-te que o mundo acaba mas depois começa outro, bem melhor :D

    Beijinhoo *

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  14. O mes pouco importa, o dia também nao, bastaram as ocorrencias para essas te acompanharem até hoje, e é lamentavel que ainda assim haja pessoas que te culpam por coisas qe nao foram tao lineares quando tais pensam que sao. Mas isso é passado e nao é através desse passado que o presente se vive. A Vida, Joana, a vida começa hoje! E as lagrimas e as pernas a tremer bem como os soluços daqela noite ficaram apenas entre nós os 3.. eu, tu e o luar dessa noite. O coração magoado é algo que custa a curar, insaciavel no acto da verdade quando a mentira nos cobria o coração, mas nao será isso qe te tirará o brilho desse olhar, o sorriso qe eu AMO ver em ti, e toda essa alegria caracteristica que sempre te envolveu. E sabes bem como sao estes momentos qe nos tornam mais fortes, e tu tas mais forte, oh, e como mais forte estás porque afinal até os maus momentos nos ensinam.
    Farei o possivel e o impossivel, sempre, para que esse maroto coraçao e essas pernas teimosas se aguentem firmamente, tal como o imenso carinho que eu tenho por ti, e tudo porque nao ha ninguem que mereça mais que tu a felicidade, essa palavra facil de pronunciar, mas complicada de encontrar na realidade, mas que irá ao teu encontro quando menos esperar, e enquanto isso nao acontecer, lembra-te de mim, dos nossos momentos e de todas as confidencias, porque a felicidade é amizade e como a nossa, irma, a verdade será sempre tao transparente como a agua!

    Estarei sempre aqi nao duvides nunca.
    E gosto mais de ti do que alguma vez possas imaginar!

    um bjinho, metade*

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  15. Bem, Jo, parece que a Ni também de comentários-que-davam-posts :'D
    Tão bom ver como vocês, metades, se completam.

    *

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  16. Saio daqui com um nó no peito. O mundo acaba tantas vezes sem nos apercebermos.

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