segunda-feira, 18 de maio de 2009

Velhos hábitos.

Pedi um queque de chocolate. Estou fraca e sozinha frente ao senhor de farda laranja do outro lado do balcão, O que vai ser menina?
Um queque de chocolate. Estou fraca e sozinha e espero que o senhor de farda laranja me traga o pedido. Demora-se com uma senhora que pergunta se fazem bolos por encomenda, daqueles com fotografias estampadas como as t-shirts. Não tem mal, meu senhor, tenho tempo e ninguém me espera. Lembro-me quando estive, fraca e sozinha, frente a um balcão frio, esperando um senhor de farda verde-água. Trazia os resultados dos meus exames e uma expressão fechada no rosto, a mesma do senhor laranja que se desculpa pela demora. Então, estaria com o telemóvel na mão para te contar se teria cancro ou não. O resultado na mão de um senhor cor verde-água e expressão fechada. O queque de chocolate embrulhado em papel castanho na mão de um senhor cor laranja e expressão desculpando-se. Não tem mal, não tenho cancro, meu senhor. Enviar-te-ia uma mensagem agora mesmo, dizendo-te que continuo fraca e sozinha quando tu não estás. Choraria a tua ausência, o vulto que está comigo apenas por mensagens, de mão apenas por telemóvel. Não me lembro da última vez que te abracei, penso enquanto o senhor laranja faz contas do troco que me deve. Não me lembrei quando estive num balcão frio de clínica, ouvindo um senhor verde-água explicando-me que teria de mudar de hábitos mas não de cabelo ou vida. Ou morte, o quão fraca eu fui. O quão sozinha estive.
Um queqe de chocolate. Não vou dizer ao meu médico que fechei olhos aos novos hábitos, soubesse ele como estou fraca. O quão sozinha, e dir-me-ia que pedisse antes dois.
Levo o embrulho na mão, a mão que já não dás senão por telemóvel, enviando mensagens contando-me os dias em cliques e facilitismos. Tecnologias, odeio-as. Vou distraída, como vou sempre, caminhando pela rua que já pisamos juntos. Passas por mim e tropeço. Não me demoro no teu rosto, levo a expressão fechada e tu não me explicas desculpas como o senhor cor de laranja, o senhor cor verde de água. Tropeço em desculpas que oiço tão-só na minha imaginação, na minha vontade, no alento que perdi como velhos hábitos que o médico obrigou a matar. Não vais perguntar porque não te levei um queque também, ou que embrulho de papel é este que abraço como a uma mão. A tua, que não procura a minha. Não vais perder tempo certificando-te que não caí e raspei joelhos. Porque tropecei, caí e raspei os joelhos da alma. Do medo, da amizade que em tempos tivemos em abraços e deixa cá ver o que levas nesse embrulho de papel castanho. Já não - caminhas a rua que já pisamos juntos e não olhas para trás.
Estou fraca e sozinha, vendo-te caminhar sem me olhar duas vezes, até quando da tua mão só tenho tecnologias, cliques e facilitismos. Cedo a velhos hábitos e trinco o bolo quente. O chocolate derrete-se debaixo da língua, no cândido das bochechas e no céu da boca. Cedo a velhos hábitos e choro a tua ausência, a minha saudade. A que derrete na palma da mão, nos ombros fracos e no peito só. Tão sozinho, soubesse o médico. Soubesses tu.
Enviar-te-ia uma mensagem, mas odeio tecnologias.

13 comentários:

  1. Também eu, Joana.
    Malditas sejam (as tecnologias) que, por vezes, em vez de nos aproximarem só nos afastam. Exactamente por isso. Por mero facilitismo.*

    http://escritoemlaranja.blogspot.com

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  2. também eu Joana, ouvi, sorri e preocupei.
    Sinto-te há já muito tempo realmente fraca, e não quero que te sintas sozinha, não mais.

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  3. ouve lá menina, hoje dei-te um abraço gigante e fui a correr para ti, para mandar com os medos ao ar, e para ficares forte!

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  4. Oh minha Joana Éme, bem sei que o cansaço te tomou. sabes, secalhar mesmo que alguém pegasse nessas tuas pontas soltas, as tentativas de nós seriam falhadas. a mim, pelo menos acontece-me. é triste e dificil de explicar. as pessoas zangam-se e secalhar por isso a sua simpatia foge. compreendo que não seja fácil para quem, que quase em vão tenta pegar mais uma vez nas pontas soltas.
    temos de encontrar quem nos mostre a sua simpatia, por não conhecer a situação, mas reconhecer a nossa tristeza e desconsolo. Posso servir-te de simpatia, se quiseres:) (é que bem preciso de a dar)

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  5. Tambem já me senti fraca assim, e ainda tenho vestígios desta fraqueza. Células cancerígenas deve ter permanecido em mim, talvez, quem sabe.

    Fantastica a tua escrita, gosto muito :)

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  6. E o pior é que parece não haver culpa para o cancro. as tecnologias do futuro parecem-me cada vez mais impessoais,o embrulho tão frio que faz arrepiar na mão. Nem um médico ou empregado de farda que nos compreenda. Olha-se para o lado e retratos que parecem ganhar vida. As mensagens parecem não chegar ao destino ou deteoram-se...
    (adorei o texto, em crónicas bates-me de longe ;D)

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  7. Porque tropecei, caí e raspei os joelhos da alma. Do medo, da amizade que em tempos tivemos em abraços e deixa cá ver o que levas nesse embrulho de papel castanho. Já não - caminhas a rua que já pisamos juntos e não olhas para trás.A dor e a desilusão parecem mais belas nas tuas palavras. Fossem também no coração e não sentirias um peso tão grande.
    Dói, mas há coisas, há pessoas que não valem a pena. Há pessoas que não sabem merecer nem o facilitismo de uma mensagem.



    Gosto muito - MUITO - de ti, M. <3

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  8. obrigada pelo comentário :)

    eu já andei por aqui a ler-te. e gostei muito. *

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  9. Deveria ser proibido deixares as pessoas sem palavras! Quando termino a leitura dos teus textos eu fico embasbacada, de boca aberta, a pensar como alguém pode escrever tao bem :o
    Adoro o teu estilo de escrita, adoro as tuas palavras, adoro os teus enredos, adoro!

    Em tempos, já me deixei levar pelo facilitismo tecnológico que me impingiram, mas a certa altura fartei me de amizades e amores que sobrevivem via mensagem escrita e messenger.
    Entao desisti de lutar por quem so assim sabia viver. Mas ainda custa, ainda dói demasiado as ausências pronunciadas na minha vida. :$

    Wow , q testamento!
    Beijinho *

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  10. És tão doce, tão subtil. Estou quase a chorar...

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  11. doce como o chocolate, profundo como o amor e lindo como a tua alma :)

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  12. está tão envolvente, tal qual um queque de chocolate. : )

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