O jovem Ferreira, porque foi cedo para o seminário e cedo fora reencaminhado pelo destino até casa dos Soares dos Reis, nunca chegou a conhecer os seus dois irmãos. Maria Francisca de seu nome era uma calorosa menina de seis anos quando teve um irmãozinho chamado António José que, já adulto, seria um padre controverso. A família Ferreira contava já com cinco, e por já feliz se davam, quando se deu o choque moral de António José. Padre da paróquia e porta-voz dos desfavorecidos da vila, anunciou, em pleno missal, a sua pretensa em casar-se com uma criada mulata que limpava as ruas perto da Igreja. Estaria entre os evangelhos e as bênçãos quando se pronunciou, assim: "Irmãos, saudai-me que Deus falou-me pela boca da pequena e bela Eugénia". Uma mulata efectivamente pequena surge pela esquerda do antro da Igreja e os irmãos sustêm a respiração, nunca ninguém vira a bela criada mulata. Fita o chão de Deus e parece constrangida, brincando com os pés e os sapatos rosados, desbotados e rotos. O padre António continuou na sua missão explicativa e já senhoras se sentavam nos bancos de madeira de mão no peito, mão escondendo a boca aberta, sustendo respiração. Alguns homens riam-se, diziam que o padre tinha olho, que da próxima Deus passasse antes em suas casas. Algumas mulheres, suas respectivas, saracoteavam malas e carteiras no torso desses alguns homens, seus respectivos, ultrajes na casa do Senhor, mostra-me algum respeito homem! Acalmados os ânimos e as explicações, o padre António José dá a mão à criada Eugénia e fala-se em fecharem-se as portas da capela para sempre, Deus nos perdoe esta sem-vergonha e este safado de homem que é um insulto aos católicos que sempre o ouviram, Domingos intermináveis nos missais de António José. A sua irmã, Maria Francisca de nome, assistia muda ao espectáculo, antes se fechassem as mentes retrógradas como portas de capelas, para todo o sempre, pensava de si para si. Formada em Línguas na cidade mais próxima e efectiva na única biblioteca num raio de 60km, Maria Francisca era a Doutora da vila mas sabia que, no que toca a opiniões, ia ser a menos ouvida, o povo não olhava a diplomas quando havia religião à mistura. Talvez lhe pedissem que escrevesse um livro em seu nome, já que poucos eram os que sabiam ler ou escrever. Um que falasse do ultraje a que ali se assistia, na casa de Deus, que nosso Senhor nos perdoe esta sem-vergonha e este safado de homem que é um insulto aos católicos que sempre o ouviram, Domingos intermináveis nos missais de António José. A obra surgiu, de facto, mas assinada pela própria Eugénia, muitos anos depois - quando ela não se sentisse constrangida para escrever sobre a trama, intitulada «Casei-me com um padre», e quisesse tão ambiciosamente uns sapatos rosados que não fossem desbotados que se sentiu capaz de lavar roupa suja em dactilografias várias. Relata a história, páginas amarelecidas pelo tempo e pela mentira da própria, que fugiram para África para ajudarem os pobres e coitados e terem sete filhos. Na verdade, deveria ler-se que a fuga se deveu a ameaças enraivecidas do Governo católico envergonhado com o ultraje a que se assistia e, quanto a rebentos, tiveram apenas uma menina pálida e calada, Eustáquia de seu nome e para seu próprio embaraço.
Numa viagem de visita ao seu irmão, o único que alguma vez conhecera, Maria Francisca e a sua então família, duas meninas loiras e um marido soldado exilado, fora vítima de um trágico acidente de viação. Uns dias depois poderia ler-se no jornal da manhã que uma explosão num tanque de guerra fê-lo virar-se sobre um carro cor de azeitona verde. Dentro dele, pequena azeitona verde, ia Maria Francisca e a sua então família, procurando António José no ventre de uma África em guerra. Eustáquia foi a única que mostrou dor pela falecida tia e odiou a mãe por achar o episódio sumarento para o seu livro, talvez para o trigésimo segundo capítulo. Jurou sair de casa e, completados os seus 17 anos, assim o fez. Arrumou a trouxa e saiu pela porta das traseiras, uma menina pálida e calada, odiando a mãe e chorando a morte da tia, aventurando-se pelo ventre de uma África em guerra. Viria, muitos anos depois, o relato deste episódio, no capítulo vigésimo primeiro de sua mãe, como fruto dos caprichos de uma adolescente perdida, filha de um padre e de uma criada mulata.
Nunca o jovem Ferreira pensou que poderia ter irmãos ou sobrinhos porque cedo saíra da casa dos Soares dos Reis. Uma só noite dormira com a bela mulher de cabelos longos, castanho chocolate, e uma só noite fora apanhado. Julgou nunca mais a ver, uma vez expulso, à bela mulher com quem dormira uma só vez e Bernardete de seu nome, para seu próprio consolo e regozijo. Bernardete, gostava de repetir, caminhando em aventuras pelo ventre de uma vila atribulada.
Nunca o jovem Ferreira pensou que poderia ter irmãos ou sobrinhos porque cedo saíra da casa dos Soares dos Reis. Uma só noite dormira com a bela mulher de cabelos longos, castanho chocolate, e uma só noite fora apanhado. Julgou nunca mais a ver, uma vez expulso, à bela mulher com quem dormira uma só vez e Bernardete de seu nome, para seu próprio consolo e regozijo. Bernardete, gostava de repetir, caminhando em aventuras pelo ventre de uma vila atribulada.

O livro teu que vou comprar está mais perto do que imaginava! :o
ResponderExcluirFantástico!
Foste tu?
ResponderExcluirOh meu Deus , a minha alma está parva :O
Eu sabia q escrevias excepcionalmente , mas isto é literatura da pura! :)
Beijinho *
Adoro estes capítulos sobre o jovem Ferreira. Escreve rápido o próximo, estou ansiosa por saber o desenrolar da história.
ResponderExcluirAprendemos bem?
ResponderExcluir(estás 'triste'?)
ResponderExcluir;D Obrigado xD
ResponderExcluir*.* FANTÁSTICO, mesmo! A história paralela do irmão é mesmo à best-seller ;D
ResponderExcluirGostei imenso, JO. :D
*
Adorei. O teu Jovem Ferreira está cheio de descrições e histórias interessantes.
ResponderExcluirA reacção das pessoas na missa está muito engraçada - "o padre tinha olho", "Deus nos perdoe esta sem-vergonha e este safado de homem que é um insulto aos católicos"
Tu tens jeito, senti-me diminuído depois de ler isto. :D