Entra no táxi sem hesitar, traz a porta atrás de si como se uma carteira segurasse debaixo do braço. O fato preto dilui-se no banco de couro escuro, encara o motorista com indiferença:
- Por favor, era para a rua, e diz um nome de uma travessa.
Sim senhora, acena o motorista nervoso, bate joelhos e esquece-se momentaneamente de que lado é a caixa de velocidades. A mulher atrás de si permanece indiferente ao seu embaraço, desculpa-se que já tarde e tem sono mas a mulher atrás de si não reage. Permanece indiferente ao seu embaraço e o seu olhar esfuma-se num baço perdido. Abre a carteira de mola, ouve-se um pop como rolha de garrafa e parece retirar um maço de tabaco. O taxista está incrédulo, o descaramento desta mulher! Vai dizer-lhe que guarde o maço, que se controle que ninguém fuma ali dentro, no carro que tem como seu filho de sangue. Está bem enganada se julga que entra aqui e faz do táxi seu espaço, sua vontade e capricho, não faltava mais nada! Vai dizer-lhe que guarde o maço, vai até ser rude que o mistério da mulher atrás de si deixa-o nervoso.
- Importa-se que eu fume?
Enverga o maço contra a luz para que o taxista perceba a pertinência da pergunta, como se o quisesse aliciar ou perguntar se tem lume. Tomá-lo-á por burro? Está bem enganada! Vai ser rude e dizer-lhe que guarde o maço, que o vê bem mas que ali são as regras dele e o mistério da mulher deixa-o nervoso.
- Não minha senhora, gagueja.
Espanta-se com as suas próprias palavras, aperta o volante entre os dedos e enerva-se mais um pouco. Quem é esta mulher misteriosa de fato preto e porque não lhe diz que não fume nada lá dentro, no carro que tem como a um filho de sangue?
Um novo pop de rolha de garrafa, encontrou o isqueiro e acende o primeiro cigarro. O cheiro a nicotina confunde-se com o perfumado do táxi e o odor é agora adocicado, um quente agridoce. O taxista repara mais na mulher atrás de si, pelo espelho retrovisor. Não se esqueceu onde ele estava, como com a caixa de velocidade, porque anseia poder olhá-la com atenção e cuidado. Segura o cigarro entre o indicador e o médio, longos dedos finos, e as suas unhas são de um escarlate pecaminoso, quase pestilento. A qualquer momento pode escorrer esse mesmo vermelho-pasta pela palma da sua mão, pequena como uma concha, revolvendo o seus pulsos povoados por pulseiras barulhentas. O seu fato preto dilui-se no banco de couro escuro, há um qualquer mistério nesta mulher que fuma indiferente ao olhar atento e cuidado do taxista. É atraente e vistosa, como um escarlate pecaminoso, mas tem uma nuance qualquer. Como se um aviso, o seu quê de perigo, de mistério.
- Acha-me uma mulher atraente?
O taxista, surpreso, roda a cabeça para trás, esquece-se da estrada como havia momentaneamente esquecido da caixa de velocidades e roda o volante para o lado da mulher mistério atrás de si. O táxi rodopia chiando o que parecem ser risadas de hiena e o silêncio dos passageiros torna a cena quase macabra. Não o sabem ainda, mas segundos depois estarão com o seu peso trinta vezes superior, essa malvada lei determinista que é a força gravítica, quando menos precisamos dela, um espetado entre bancos de couro e um poste de luz e outro estendido no chão frio da estrada. O táxi irá parar de rir como uma hiena e calar-se-á ofegante, silvando fumo e vapores pelo capô. O taxista não terá mais forças para apertar o volante e já não estará nervoso, não precisará de espelhos para encarar a mulher já não atrás de si, mas agora lá fora, deitada abruptamente quieta no asfalto:
- Sim minha senhora, muito, gagueja em esforço e resposta últimos.
Fechará os olhos e não reparará que o fato preto da mulher se dilui no asfalto de rua e que o mistério morrerá com ela, num odor podre adocicado. Um cheiro a nicotina acesa, a verniz pecaminoso e a corpo queimado. Abruptamente solto para o asfalto, esse corpo do mistério perdido. A luz incide nos seus corpos como um olhar indiferente, é de um reluzente belo, tendo o seu quê de aviso, a sua nuance de perigo.

Amei *.* Está magníficoo! :O
ResponderExcluirBeijinho *
tu és encantadora, e quase te vejo como protagonista da cena
ResponderExcluirEncantador.
ResponderExcluirComo disseram acima, tu és encantadora. Adorei.
ResponderExcluirFeliz por haver coisas que ainda me espantam no Mundo, Parabens.
ResponderExcluirBeijo
:O
ResponderExcluir"Não tem mal, minha querida, inventei aquela porcaria"??! :|
ResponderExcluirAcho que preferia embasbacar como o senhor do táxi e perder a caixa de velocidades do que deixar de ver esta FANTÁSTICA porcaria, JO.
ResponderExcluirEstá tão policial - misterioso e apetecível como a mulher que descreves. Consigo vê-lo com os olhos da imaginação, como se se passasse tudo na minha frente. É este um dos teus dons. Sim, porque tens dons, M. Escrever com a alma que escreves, com a perícia e perfeição com que o fazes. São intocáveis e incorrigíveis as comparações e adjectivações e metáforas e repetições a que recorres com a naturalidade com que se respira. E as imagens que crias são tão reais que parece que caimos no meio da trama que revelas por entre palavras belas e bem escritas.
ENCANTADORA? acho pouco.
Orgulho - isto sim.
ps1. sim, disse "apetecível" quando me referia a uma mulher (a)
ps2. hoje, as minhas unhas estão de um escarlate pecaminoso, quase pestilento xD
Está espectacular! :O Adorei! Está sensual, apaixonante e fazendo das palavras da Joana David, minhas, está tão policial - misterioso e apetecível.
ResponderExcluir*
Lindissimo.
ResponderExcluirA mulher fatal ;D
ResponderExcluirAcho que tinha uma reacção parecida se me perguntassem o mesmo, pelo menos vindo de alguém tão misterioso.
Gostei muito da história. Têm muito suspence, mistério e boas descrições. E tudo muito bem doseado como tu sabes fazer.
Mas acho, e isto nem é muito importante, que devias tirar alguns adjectivos e tentar colocar nesse lugar alguns objectos ou situações. E já te vi fazer isso muitas vezes e por isso sei que o sabes fazer muito bem - se não soubesse não to dizia. Principalmente nas tuas (deliciosas) crónicas. :D
está um espanto, és um espanto! : )
ResponderExcluirescreve um livro :)
ResponderExcluirAinda não tinha lido este e abismada fico eu. Gostava de saber escrever assim, juro!
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