Estás a brincar? O que é que isso quer dizer? Sou demasiado correcto? Não ter ciúmes é mau? Confiei em ti! E tive-os, mas não tos mostrei, não te fiz cenas! Querias que as tivesse feito?! Estás a brincar, não estás? Como é que me ligas para dizer coisas destas?! Não digas mais nada, por favor. A não ser que estejas a brincar. Estás?
Do outro lado da linha um silêncio crepita entre o ruído de fundo das linhas. Sei-a respirar, adivinho-a sentada na beira da cama, uma mão segurando o telemóvel, outra puxando o cabelo ruivo para trás da testa, cotovelo apoiado num dos joelhos. Se isto fosse, de facto, uma brincadeira seria, mais a mais, uma de mau tom e grado. Mas não, ela não se calaria assim, rir-se-ia e poderia, então, adivinhar a sua mão livre do telemóvel gesticulando em vez de segurar a cabeça, o cabelo ruivo para trás num gesto nervoso e irrequieto.
- Estás a brincar?
Responde-me, cortando o silêncio crepitante: Não, desculpa.
Nervoso e irrequieto, desligo o telemóvel e sento-me na beira da cama. Levo as duas mãos à cabeça, a cara escalda-me nas palmas das mãos. Rastejo pela casa, do quarto ao quarto do banho, apoio-me no lavatório e olho-me ao espelho. Pareço mais velho, os olhos resfriam um vermelho estonteante, cansado. Fui demasiado bom e ela deixa-me pelo melhor amigo. O melhor amigo de quem nunca mostrei ciúmes, nas noites que saímos a três em vez de a levar para minha casa, os jantares a dois eram mal contados porque sempre a contar com ele também, e eu sem fazer cenas. Os aniversários, as saídas à noite, os bares, os cafés de fim de tarde, as noites de S.João - não havia festim sem o melhor amigo estar presente, partilhando o seu cabelo ruivo, a sua voz alta e gesticulada. Fui demasiado bom? Não, fui demasiado urso. Agora pareço mais velho e estou sozinho. Que poderia ter feito? Cenas, birras, berrarias? Querias que te acorrentasse à cama, à minha, dizendo que não o poderias ver porque eu te queria só para mim? Que as tuas longas pernas só poderiam passear perto das minhas, os teus braços apenas poderiam abraçar os meus, o meu corpo (agora sozinho)?! Diz-me! Que querias que tivesse feito?! Que te algemasse aos meus olhos claros, ao meu sotaque quente para garantir que estavas presa ao meu coração?!
Querias que eu te mantivesse cativa, implorando perdão e jurando submissão?! Agora era até era capaz de te prender à cama onde me gemeste juras de um amor eterno, de te atirar fotografias dele e perguntar se é disto que um homem é feito. Se procuravas isto, quando adormecias comigo. Quando acordavas e o teu hálito seco chamava o meu nome. O meu nome, o meu..
Não me digas que isto são voltas do coração, coisas do peito, porque eu também tenho um. E as voltas que o meu dá são círculos infindáveis no teu nome, no teu cabelo ruivo e na tua voz alta. Não digas que isto são coisas do coração e voltas do peito porque há ruído crepitante das linhas e eu entretanto desligo.

Os teus textos surpreendem-me sempre (pela positiva).
ResponderExcluirObrigado, também já estás adicionada.
Beijinho
"três é multidão"
ResponderExcluiristo para mim é um dogma
Wow! Adorei. È preso por ter e preso por não ter. Estas frases estão espectaculares:
ResponderExcluir"Levo as duas mãos à cabeça, a cara escalda-me nas palmas das mãos. Pareço mais velho, os olhos resfriam um vermelho estonteante, cansado." - como conheço esta sensação...
"E as voltas que o meu dá são círculos infindáveis no teu nome, no teu cabelo ruivo e na tua voz alta." - e esses circulos parecem nunca parar, cada vez mais rápidos, cada vez mais difusos, parecendo ganhar vida e perdendo-a mal tentamos procurar uma razão.
Miúda, tu estás lá. :D
que eish!
ResponderExcluirOh , obrigada :')
ResponderExcluirTu crias enredos fantásticos, sabias?
Fantástico mesmo. Consegues ver para além, Joana.
ResponderExcluir:) *
Só te digo que tu és qualquer coisa...
ResponderExcluirmuito bom mesmo...
uma forma de escrever que me fascina...