- Sabes ir ter à faculdade de letras?
- Eu? Eu só sei ir ter à venda nova ou a tua casa.
A tua casa. Ainda lá está o meu secador, a minha escova de dentes e o meu roupão cor de salmão. Se está ainda, digamos. A tua casa. Abrias a porta sempre com um cuidado exímio, talvez tivesses medo de acordar fantasmas que pudessem destruir o que eximimianente construímos debaixo desse teu tecto. Acordavas tarde, espreguiçavas-te e ouvia-te entre bocejos dizer Cheira a pipocas, enquanto eu me ria com a destreza de pipocas saltitando em oléo, Sou eu que estou a secar o cabelo, trengo. Havia de pousar o difusor e levar-te o pequeno almoço à cama, coberta apenas pelo meu roupão cor de salmão. Deixavas as torradas de lado, puxavas-me mais para ti. Estás tão bonita, dizias-me entre beijos que não sei se ternos se meigos. Gostavas de uvas pela manhã, mas só quando servidas no meu umbigo, uma a uma. O teu sopro, enquanto devoravas, uma a uma, uvas verdes do meu umbigo, arrepiava-me as pernas e ninguém tem arrepios nas pernas, resmungavas entre risos e sumo de uvas verdes que sorvias desses teus lábios doces. Pergunto-me se te lembras das horas procurando estrelas em noites de nevoeiro imenso, das vezes que me deixaste pegar no teu carro só para me ver agarrada ao volante como uma senhora de idade. Tenho medo de me esquecer do teu riso, da tua voz não sei se terna se meiga de quando me chamavas tua.
- É um mundo que me assusta, sabes?
- O das faculdades?
Não, o de viver sem ti! Sem o meu secador, a minha escova de dentes e o meu roupão cor de salmão. Sem o meu umbigo servindo uvas e os meu riso saltitando como pipocas em óleo.
- Sim, que mais poderia ser?
Ainda me perco olhando o telemóvel, sem to admitir. O meu secador, a minha escova de dentes e o meu roupão cor de salmão ainda estão em tua casa e ainda me sabe a sumo doce de uvas verdes dizer a tua casa. O meu secador, a minha escova de dentes e o meu roupão cor de salmão ainda estão aí, contigo, - se estiverem ainda - mas trouxe comigo o amor - esse ainda aqui está. Faz com que me perca olhando o telemóvel, pensando como dou com a tua casa até sem querer, o amor. Como dou com o teu corpo embrulhado em salmão, nas minhas mãos sempre frias. Os meus lábios sempre querendo os teus. Agora mais ainda..
A minha voz, não sei se terna se meiga, implorando que percebas e que, mais que isso, sintas também.
Não foram fantasmas que destruíram o que eximiamente construímos num mesmo tecto, um só peito. É pena, preferia culpar filosofias e metafísicas a apontar o dedo ao (que julguei ser) meu melhor amigo.

Eu peço desculpa, mas hoje não consigo comentar.. :x *
ResponderExcluir"Tenho medo de me esquecer do teu riso, da tua voz não sei se terna se meiga de quando me chamavas tua.
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Lindo.