quinta-feira, 26 de março de 2009

O amor é para tolos.

Sento-me direita no banco de autocarro. Está calor e vamos, para não fugir ao hábito que nos predestina, à pinha. Um senhor, com idade para ser meu pai, tarado e mal-educado - o hábito ajudou a comprová-lo -, senta-se (não tão) direito no banco ao meu lado. Está calor e ele remexe-se no assento, reza baixinho obscenidades e volto-lhe a cara, revogada com a náusea que me lamacenta o estômago, o céu da boca.
Atrás de mim um rapaz novo, bem parecido e respeitável, pousa suavemente a mão no meu ombro. Um papel pequenino voa dos seus dedos para o meu colo, não me assusto: a força do hábito que nos predestina deixa um travo a deja vu no estômago, no céu da boca. Desdobro o papel pequenino até ser quase do tamanho da palma da minha mão: «Não tenhas medo, eu vou aqui.»
O meu primeiro pensamento foi para o meu ex-namorado. Pagava para ver a cara dele se soubesse que sou assediada por um homem com idade que baste para ser meu pai e ainda protegida por um rapaz novo e de carácter físico que baste para o tornar interessante. Sorrio, pagava para ver. Sacudo pensamentos menos felizes, o meu ex-namorado não deve ter destes momentos fugazes, e tiro uma caneta da carteira: «Não tinha, mas podes ter tu - eu vou aqui.»
Entrego o recado disfarçadamente, enquanto brinco com os caracóis que o rapaz novo, bem parecido e respeitável, fita. Cai-lhe no colo, adivinho-lhe o sorriso.
Na próxima paragem o senhor no banco ao meu lado, salivando obscenidades, levanta-se e leva consigo as suas preces indecentes. Olha-me de relance à saída, de novo a minha cara voltada.
Está calor e vamos, para não fugir ao hábito que nos predestina, à pinha. Um rapaz novo, sentado nas minhas costas, levanta-se e traz consigo o seu carácter físico, o meu papelinho dobrado em quatro. Senta-se do meu lado e sorrimos os dois.
Não escolhemos a paragem do amor, não somos tolos - mas sorrimos os dois como se o fossemos.
Nessa mesma noite ela sentou-se e o recado não veio por escrito, mas as preces indecorosas foram, todas elas, ouvidas.

9 comentários:

  1. que riqueza :) gostei muito mãe, está um doce!
    e as saudades continuam a ser tantas *


    amo-te do fundo do coração *

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  2. O meu blog ás vezes passa-se .
    Agora já percebo porque aquela pergunta. :p
    Obrigada ,~~

    Há muito tempo que não ando de autocarro ..
    Há muito tempo que nao encontro alguem que me protega assim , dessa maneira . =$

    Mais um dos tantos , textos , bonitos.

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  3. Tu e o teu rol de pretendentes do 806 xD

    Quero ver-te sorrir sempre, nem que seja por tolices, quando um rapaz novo, bem parecido e respeitável troca contigo papeizinhos minúsculos oferecendo protecção ;D


    *

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  4. Está fabuloso (: Estes momentos suspensos fazem bem à alma*

    Beijinho, mãe-da-mãe :)

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  5. WOW! Sorte? Isso foi sorte mesmo x) *

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  6. Acho que preciso de andar de autocarro. Acho que preciso de um bilhetinho assim.

    :)
    Maravilhoso!

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  7. O título chamou-me a atenção. O amor é para tolos? Talvez às vezes, quando o amor é tolo para connosco.
    (em termos literais: gostei muito disto: "adivinho-lhe o sorriso". Acho que te vou copiar :D)

    Em relação a esse homem - que aposto que tinha um aspecto asqueroso - é o tipo de pessoa que só me dá vontade de bater. È das coisas que mais me enerva, principalmente quando vou com amigos e um outro não faz mais que bater-me no braço e dizer:
    -Nuno, olha ali.
    metem uma cara de parvos tal que parecem ter vendido a alma ao diabo. Depois metessem com suposições:
    -Ai seu eu pudesse.
    (e td a gente sabe que não podem)
    eu viro e digo
    -é gira
    (confesso que tb não me importo de olhar)
    mas eles
    -gira!? tás maluco ou quê. aquilo é uma deusa
    e o que mais me enerva é usarem "aquilo". Tento seguir em frente mas eles não parem de desviar a cara para trás
    -deves ser gay tu
    o que não me chateia pois sei que não sou e mesmo que fosse não havia mal nenhum nisso, tento seguir caminho com eles ainda na ideia
    -ai se eu pudesse
    incapazes de ganhar coragem, chegar ao pé dela, e dizer alguma de jeito, pois tomam as mulheres como "aquilo". E isso é que me chateia a sério. Não são capazes de olhar para a personalidade. È deprimente que isto aconteça, mas ainda bem que existem os rapazes dos papelinhos.

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  8. Adoro, adoro, adoro e torno a adorar!

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