Sento-me direita no banco de autocarro. Está calor e vamos, para não fugir ao hábito que nos predestina, à pinha. Um senhor, com idade para ser meu pai, tarado e mal-educado - o hábito ajudou a comprová-lo -, senta-se (não tão) direito no banco ao meu lado. Está calor e ele remexe-se no assento, reza baixinho obscenidades e volto-lhe a cara, revogada com a náusea que me lamacenta o estômago, o céu da boca.
Atrás de mim um rapaz novo, bem parecido e respeitável, pousa suavemente a mão no meu ombro. Um papel pequenino voa dos seus dedos para o meu colo, não me assusto: a força do hábito que nos predestina deixa um travo a deja vu no estômago, no céu da boca. Desdobro o papel pequenino até ser quase do tamanho da palma da minha mão: «Não tenhas medo, eu vou aqui.»
O meu primeiro pensamento foi para o meu ex-namorado. Pagava para ver a cara dele se soubesse que sou assediada por um homem com idade que baste para ser meu pai e ainda protegida por um rapaz novo e de carácter físico que baste para o tornar interessante. Sorrio, pagava para ver. Sacudo pensamentos menos felizes, o meu ex-namorado não deve ter destes momentos fugazes, e tiro uma caneta da carteira: «Não tinha, mas podes ter tu - eu vou aqui.»
Entrego o recado disfarçadamente, enquanto brinco com os caracóis que o rapaz novo, bem parecido e respeitável, fita. Cai-lhe no colo, adivinho-lhe o sorriso.
Na próxima paragem o senhor no banco ao meu lado, salivando obscenidades, levanta-se e leva consigo as suas preces indecentes. Olha-me de relance à saída, de novo a minha cara voltada.
Está calor e vamos, para não fugir ao hábito que nos predestina, à pinha. Um rapaz novo, sentado nas minhas costas, levanta-se e traz consigo o seu carácter físico, o meu papelinho dobrado em quatro. Senta-se do meu lado e sorrimos os dois.
Não escolhemos a paragem do amor, não somos tolos - mas sorrimos os dois como se o fossemos.
Atrás de mim um rapaz novo, bem parecido e respeitável, pousa suavemente a mão no meu ombro. Um papel pequenino voa dos seus dedos para o meu colo, não me assusto: a força do hábito que nos predestina deixa um travo a deja vu no estômago, no céu da boca. Desdobro o papel pequenino até ser quase do tamanho da palma da minha mão: «Não tenhas medo, eu vou aqui.»
O meu primeiro pensamento foi para o meu ex-namorado. Pagava para ver a cara dele se soubesse que sou assediada por um homem com idade que baste para ser meu pai e ainda protegida por um rapaz novo e de carácter físico que baste para o tornar interessante. Sorrio, pagava para ver. Sacudo pensamentos menos felizes, o meu ex-namorado não deve ter destes momentos fugazes, e tiro uma caneta da carteira: «Não tinha, mas podes ter tu - eu vou aqui.»
Entrego o recado disfarçadamente, enquanto brinco com os caracóis que o rapaz novo, bem parecido e respeitável, fita. Cai-lhe no colo, adivinho-lhe o sorriso.
Na próxima paragem o senhor no banco ao meu lado, salivando obscenidades, levanta-se e leva consigo as suas preces indecentes. Olha-me de relance à saída, de novo a minha cara voltada.
Está calor e vamos, para não fugir ao hábito que nos predestina, à pinha. Um rapaz novo, sentado nas minhas costas, levanta-se e traz consigo o seu carácter físico, o meu papelinho dobrado em quatro. Senta-se do meu lado e sorrimos os dois.
Não escolhemos a paragem do amor, não somos tolos - mas sorrimos os dois como se o fossemos.


Ainda ando de autocarro...
ResponderExcluirque riqueza :) gostei muito mãe, está um doce!
ResponderExcluire as saudades continuam a ser tantas *
amo-te do fundo do coração *
O meu blog ás vezes passa-se .
ResponderExcluirAgora já percebo porque aquela pergunta. :p
Obrigada ,~~
Há muito tempo que não ando de autocarro ..
Há muito tempo que nao encontro alguem que me protega assim , dessa maneira . =$
Mais um dos tantos , textos , bonitos.
Tu e o teu rol de pretendentes do 806 xD
ResponderExcluirQuero ver-te sorrir sempre, nem que seja por tolices, quando um rapaz novo, bem parecido e respeitável troca contigo papeizinhos minúsculos oferecendo protecção ;D
*
Está fabuloso (: Estes momentos suspensos fazem bem à alma*
ResponderExcluirBeijinho, mãe-da-mãe :)
WOW! Sorte? Isso foi sorte mesmo x) *
ResponderExcluirAcho que preciso de andar de autocarro. Acho que preciso de um bilhetinho assim.
ResponderExcluir:)
Maravilhoso!
O título chamou-me a atenção. O amor é para tolos? Talvez às vezes, quando o amor é tolo para connosco.
ResponderExcluir(em termos literais: gostei muito disto: "adivinho-lhe o sorriso". Acho que te vou copiar :D)
Em relação a esse homem - que aposto que tinha um aspecto asqueroso - é o tipo de pessoa que só me dá vontade de bater. È das coisas que mais me enerva, principalmente quando vou com amigos e um outro não faz mais que bater-me no braço e dizer:
-Nuno, olha ali.
metem uma cara de parvos tal que parecem ter vendido a alma ao diabo. Depois metessem com suposições:
-Ai seu eu pudesse.
(e td a gente sabe que não podem)
eu viro e digo
-é gira
(confesso que tb não me importo de olhar)
mas eles
-gira!? tás maluco ou quê. aquilo é uma deusa
e o que mais me enerva é usarem "aquilo". Tento seguir em frente mas eles não parem de desviar a cara para trás
-deves ser gay tu
o que não me chateia pois sei que não sou e mesmo que fosse não havia mal nenhum nisso, tento seguir caminho com eles ainda na ideia
-ai se eu pudesse
incapazes de ganhar coragem, chegar ao pé dela, e dizer alguma de jeito, pois tomam as mulheres como "aquilo". E isso é que me chateia a sério. Não são capazes de olhar para a personalidade. È deprimente que isto aconteça, mas ainda bem que existem os rapazes dos papelinhos.
Adoro, adoro, adoro e torno a adorar!
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