Queria poder tocar à campainha, depois de ter andado à deriva com transportes públicos e horários confusos, e ser recebida com os teus grandes braços abertos. Adivinho já o sorriso que se abriria então no teu rosto, raiando na surpresa de me ver ali, pingando chuva do cabelo no chão do condomínio.
- Posso jantar?
Abraçavas-me e tiravas-me o casaco encharcado, enquanto me empurravas soleira da porta dentro e me davas uma toalha seca para o cabelo e um copo de sumo com gás.
- Não tem problema?
Rir-te-ias da minha falsa modéstia e o orgulho de me saberes contigo roubava-te palavras encantadas. Nunca fui de cerimónias e sabe-lo bem, estou aqui porque preciso de ti e não há como ter problema eu precisar de ti.
A tua mãe provava a sopa do jantar com uma grande colher de pau e fazia cara de caso, às tantas esquecera-se do sal. Via-me de toalha amarrando madeixas negras, o cabelo molhado preso num pano branco seco imenso, e de novo um sorriso raiando surpresa. Dois beijinhos, um abraço e deixa cá ver se não tens febre com a chuvada que apanhaste.
Sorrio, deixando o carinho roubar-me palavras encantadas.
A tua irmã haveria de pôr mais um prato na mesa e ao jantar falaríamos de candidaturas como doutores, discutiríamos «A Mensagem» como poetas de então e eu até falaria o meu quê de música como se de música um quê percebesse.
Arrumada a mesa e a cozinha, beijavas-me a testa levemente:
- Ficas para dormir?
Os teus olhos brilham, raiando.
- Sim, preciso de ti.
Sorris, (sem) palavras encantadas.
- Vou pôr dois colchões na sala, adormecemos a ver «Irmãos e Irmãs», se quiseres.
- Três!, berra a tua irmã de um qualquer recanto da casa.
Três seriam. Colchões espalhados entre tapetes, almofadas e séries de TV.
- Não tem problema?, perguntar-te-ia já no escuro.
- Não há como ter problema eu precisar de ti, responder-me-ias então.
E não haveriam palavras encantadas senão estas.
Eu queria...
(A minha porta está sempre aberta, a minha mãe tem sempre dois beijinhos e um caldo de sopa quente, copos e sumos com gás. E terei sempre este sentimento encantado.)

Está mesmo mesmo puro. :o
ResponderExcluirDesculpa a invasao, mas gostei mesmo imenso deste texto:)
ResponderExcluirMadu
Sim, preciso de ti.
ResponderExcluirPodia pensar em milhares de coisas para te dizer, mas parei aqui.
E às vezes tenho medo que não vejas o quanto me dizes, o quão especial me és - o quanto, sim, o quanto preciso de ti.
<3
Ler-te é encantador, sabias?
ResponderExcluireste é dos textos mais bonitos que já li (: se calhar porque já vivi uma situação com o seu quê de parecida com esta e agora tu escreveste-a com um encanto que eu ainda não a tinha pensado*
ResponderExcluirque cumplicidade boa que me aquece o coração só de ler e de lembrar!
beijinho, mãe-da-mãe :)
É mesmo textos cheios de coração, mas na minha opinião, nunca em demasia. São tão puros, dá vontade de ler cada vez mais, mais e mais.
ResponderExcluirUm beijinho . E és tu que tens um grande dom, sem dúvida. (hoje, estou bastante sentimentalista.)
:*
No fim de o ler só consegui sorrir. As palavras encantadas já estão escritas, aí, por ti.
ResponderExcluirestava a ler e a cantar a música da Fox Life :p
ResponderExcluiré tão bom quando precisamos de alguém que está sempre de braços abertos para nos amparar.
eu gosto de precisar de ti mãe, gosto do teu abrigo :)
beijinho de filha *
E foram fazer festa para outro lado?
ResponderExcluirO video já tenho há um tempo; mas é lindo, não é?
tanta transparencia, tanto silêncio de alma. que sinceridade, que música deliciosa.
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