Pergunto-me como não temos mais fotografias juntos, quando passavas a vida a fotografar a menina. Eras o primeiro a acordar de noite, assustado com os berros da menina, e ias sempre confirmar que tinha os sinais vitais em ordem enquanto passavas a pasta mais chata prá mãe. Não adormecias enquanto não te dissessem que a menina já dorme que nem anjo e o choro desvanecesse serenamente, como o sono que a ti regressava, qual fiel servo.
Ensinaste-me a andar de triciclo, a cair dele também, deste-me pontos na cabeça, três, e fugia de ti quando vinhas de vacina na mão dizendo que era um lápis especial. Corriamos a volta da mesa redonda da sala e fechava-me na varanda com o teu medo que eu caísse redonda no rés-do-chão no bolso. Tantas vezes me disseste que não me chegasse perto da berma que ganhei vertigens, enjoos em sítios altos. Aprendi contigo a andar de bicicleta e de patins também, na garagem poeirenta que inundava de meio em meio ano e me fazia rir porque podia andar de galochas e chapinhar-te as calças do fato, sem perceber porque não te rias também.
Quando tinha medo de noite queria sempre dormir do teu lado e nunca te disse que fui eu, e não o Pantufas, quem comeu a planta que estava na cozinha e sabia a resina doce. Compraste-me uma mota quando era pequena demais para saber que devia ter guardado o pedido para quando fizesse dezasseis e cresci mais parecida com a mãe.
Mas tenho os teus olhos, os teus genes para o sono e para a resmunguice, os teus discursos longos e a tua escrita densa. Tenho a tua dificuldade em transparecer sentimentos por gestos, a tua facilidade em fazer-me de forte e de dura. Às vezes não te consigo perceber, não me vejo nas tuas acções e tenho pena. Lamento quando não chego a ti como quando era pequena e podia chapinhar-te calças de fato com água lamacenta, esperando que te resignasses e me pegasses de pernas para o ar.
Estou crescida demais para malabarices dessas, não tive uma mota quando fiz dessazeis e o meu pai não está por casa neste seu dia.
Ainda assim, feliz dia ao Pai que me ensinou a ser filha, irmã e mulher, apesar de ainda me ver como a sua menina. A da imagem, que já devia estar a resmungar com tantas fotografias, com os olhos do pai e a roupa parola que ele escolhera.

Ler isto foi um doce que contrastou com com tudo que já te ouvi dizer daquele que é tanto mais que tu, como nao imaginas (teimosa!).
ResponderExcluirHoje eu tenho a visão de Mae, pode ser? :)
A minha primeira imagem é ver-te a chapinar as calças do fato do teu pai com água lamacenta com o evidente mau feitio com que já encaravas as pessoas em criança, quando elas não se riam também das tuas palermices, xD.
ResponderExcluirContinuarás sempre uma menina aos olhos do teu pai.
*
E o gaura-roupa era realmente fabuloso - digno de um book, xDD. A moda era um primor no "nosso tempo", que eu também guardo pródigas fotografias com conjuntos magníficos :o
ResponderExcluirBeijo, *
guarda-roupa*
ResponderExcluir-.-
A nossa moda era a melhor , ultrupassava todas , GOD -.-'
ResponderExcluirO texto está lindo ! :D
És uma boa filha =)
ResponderExcluirLindo texto*