Acendo um cigarro e a noite apaga-se na faísca de nicotina ardendo. Parece silvar, numa linguagem assobiada que me entretém na noite escura.
Fumo pausadamente, pouso as chaves de casa no degrau da entrada. Está frio e o fumo aquece-me o peito, num peso que não se sei se extenuante se relaxante. Acendo um outro, a ver se descubro, se extenuante se relaxante, e de novo o sedimento no peito. Oh, antes pudesse consolidá-lo, ao peito, fumo como sedimento..
Talvez se tenham passado horas, entre o meu primeiro cigarro e a chegada atabalhoada da vizinha. Esfolou o carro nas beiras do passeio, trancou-o três vezes e das três vezes deixara um filho lá dentro, trancado com um clique à distância. Assisto à cena do meu degrau da entrada, fumando pausada e apaticamente. A vizinha recolhe a catrafada de miúdos que concebeu sabe-se lá por que alma, por que castigo, atiça-me um olhar que, antevejo, condenador. Não a culpabilizo, tem uma catrafada de miúdos para criar e não sou exemplo para nenhum, nem vivendo ali ao lado, sabe-se lá por que alma ou por que castigo. Tranca o carro uma quarta vez, já os miúdos berram que não querem ir para a cama, chega-se ao muro de cimento que separa a sua casa da minha e fala-me num tom condescendente e cansado: Isso vai matá-la, menina.
Fumo pausada e apaticamente, brinco com as chaves de casa pousadas no degrau da entrada.
- Amanhã deixo.
- Diz isso desde Fevereiro..
- Ainda só estamos em Março.
- Fevereiro do ano passado, menina.
Apago o cigarro e encaro-a, à mulher que perde tempo com uma estranha vizinha em vez de ir cantar músicas de embalar aos miúdos - são cinco, reparo agora.
- Não a condeno. A menina fuma, eu procrio canalhada.
Rio-me secamente - perdi vivacidade há tanto, reparo agora.
- Sabe-se lá por que alma.
- Sabe-se lá por que castigo, menina, e que castigo..
Que castigo, minha senhora, que não deixa o peito consolidar da mágoa, do despeito, das noites sofridas, do frio. Que castigo, qual sedimento pesado, sufocante. Extenuante, descubro.
Acendo um cigarro e a noite apaga-se na faísca de nicotina ardendo. Parece silvar, numa linguagem assobiada que me entreterá no que resta da noite escura. No que resta de mim, minha senhora, e do meu peito silvando.
Fumo pausadamente, pouso as chaves de casa no degrau da entrada. Está frio e o fumo aquece-me o peito, num peso que não se sei se extenuante se relaxante. Acendo um outro, a ver se descubro, se extenuante se relaxante, e de novo o sedimento no peito. Oh, antes pudesse consolidá-lo, ao peito, fumo como sedimento..
Talvez se tenham passado horas, entre o meu primeiro cigarro e a chegada atabalhoada da vizinha. Esfolou o carro nas beiras do passeio, trancou-o três vezes e das três vezes deixara um filho lá dentro, trancado com um clique à distância. Assisto à cena do meu degrau da entrada, fumando pausada e apaticamente. A vizinha recolhe a catrafada de miúdos que concebeu sabe-se lá por que alma, por que castigo, atiça-me um olhar que, antevejo, condenador. Não a culpabilizo, tem uma catrafada de miúdos para criar e não sou exemplo para nenhum, nem vivendo ali ao lado, sabe-se lá por que alma ou por que castigo. Tranca o carro uma quarta vez, já os miúdos berram que não querem ir para a cama, chega-se ao muro de cimento que separa a sua casa da minha e fala-me num tom condescendente e cansado: Isso vai matá-la, menina.
Fumo pausada e apaticamente, brinco com as chaves de casa pousadas no degrau da entrada.
- Amanhã deixo.
- Diz isso desde Fevereiro..
- Ainda só estamos em Março.
- Fevereiro do ano passado, menina.
Apago o cigarro e encaro-a, à mulher que perde tempo com uma estranha vizinha em vez de ir cantar músicas de embalar aos miúdos - são cinco, reparo agora.
- Não a condeno. A menina fuma, eu procrio canalhada.
Rio-me secamente - perdi vivacidade há tanto, reparo agora.
- Sabe-se lá por que alma.
- Sabe-se lá por que castigo, menina, e que castigo..
Que castigo, minha senhora, que não deixa o peito consolidar da mágoa, do despeito, das noites sofridas, do frio. Que castigo, qual sedimento pesado, sufocante. Extenuante, descubro.
Acendo um cigarro e a noite apaga-se na faísca de nicotina ardendo. Parece silvar, numa linguagem assobiada que me entreterá no que resta da noite escura. No que resta de mim, minha senhora, e do meu peito silvando.

E resta.te tanto, Joana. Só tens de o redescobrir e fazer do teu riso uma nova melodia.
ResponderExcluirQuero.te bem, <3.
Já nao ? Nao percebi . :s
ResponderExcluirestá lindo, e vai sempre restar-te este poder de dar um sentimento a umas palavras, umas palavras que não valiam nada se não fosses tu e o que resta de ti a dar-lhes força.
ResponderExcluirSinto.te a amadurecer em cada texto. Cada um melhor que o outro.
ResponderExcluirAmanha, almoço :)
ResponderExcluirA conexão é complexa desta vez *
ResponderExcluir:| FEIO? Nada disso :s volto a ler o texto amanhã, prometo.
ResponderExcluirHoje já me bastou levar com água do terraço da vizinha, quando vinha para casa. *
Devias pensar em escrever um livro! ;)
ResponderExcluirGostei muito.
http://escritoemlaranja.blogspot.com
Gosto cada vez mais!
ResponderExcluirBem, isto arrepia-me. Escreves com alma, com tudo o que tens e és. É espectacular. Admiro muito:)
ResponderExcluirEu não consegui interligar as duas situações, mas o texto está lindo. Não me interpretes mal, para mim complexo não é feio!
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