sábado, 14 de março de 2009

Lençóis solitários, noite fria e o peito de luto.

A cama está mais fria desde que partiste. Puxo os lençóis passados, solitários lençóis desde que partiste. O gato costumava deitar-se nas tuas costas, imitar-te mimos que tinhas com as minhas, e descansaríamos como felinos preguiçosos, os três, costas sob costas.
As noites são mais escuras desde que partiste, adormecer é sempre um suplício agora.
Choro baixinho, deitada sob solitários lençóis passados. Estão quentes e macios, como a pele do teu peito quando me beijavas a testa de boa noite. A cama está fria e é escuro lá fora, e eu nunca conheci frio nem escuro como este cá dentro. O gato tem feito luto por nós, sabes? Não se arrasta mais por estas terras, não vem descansar a sua preguiça felina para as minhas costas quando aqui estou. Nestes lençóis onde costumavas abraçar-me num sono suplicamente terno, suplicamente caloroso. Mia-me condescendências, de soslaio. Acho que me culpa, sabes? Também me culpas como ele, descansando as tuas preguiças por outras terras, outras costas? Porque as minhas têm aquela cova entre o ombro esquerdo e a nuca, a mesma que a maioria das pessoas tem no rosto quando sorriem e onde o teu queixo cabe e encaixa perfeitamente como uma luva, uma peça de Lego. O teu braço passaria então pelo meu e segurarias no meu pulso delicadamente, como se se pudesse partir pelo alento que veemente te corria no peito. E nunca me deixavas conhecer o frio, então.
Choro baixinho, deitada sob solitários lençóis passados. Estão quentes e macios, troçando o inverno que veementemente marcha cá dentro, do lado esquerdo do peito, com um alento escuro como a noite lá fora e o luto do maldito gato.

10 comentários:

  1. Já li vários textos do teu blogue e sinceramente, não o consigo descrever numa única palavra... gera em mim um misto de emoções; faz-me sentir saudades às vezes nem sei bem de quê...
    Parabens! Vou continuar a passar por aqui e espero que continues a escrever como tão bem como tens feito.

    beijinhos*
    CAT

    p.s. a musiquinha aqui ao lado vem mesmo a calhar! Adoro!

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  2. Hoje não encontro palavras, digo-te que adorei, pura e simplesmente :)
    como disse a Cat a musica bem mesmo a calhar! *

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  3. Está ÓPTIMO! Revi-me em cada palavra!
    Fazes arte, Joana!

    (Deixa-me dizer que a música que aqui tens é lindíssima!)

    Beijinho enorme*

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  4. Não consigo escolher um favorito, pq sempre que aqui entro penso "é este!" mas logo a seguir vem outro, ainda melhor!

    Fico sem palavras, e com arrepios na espinha, cada vez q por aqui passo mãe.
    beijo enorme, *
    amo-te *

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  5. Sinto no meu peito cada palavra*

    beijo, mãe-da-mãe :)

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  6. "O teu braço passaria então pelo meu e segurarias no meu pulso delicadamente, como se se pudesse partir pelo alento que veemente te corria no peito. "
    sem palavras, rapariga.

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  7. já te disse que és o croquete mais recheado?
    Lindo, Joana, juro.

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  8. A cama está fria e é escuro lá fora, e eu nunca conheci frio nem escuro como este cá dentro.

    Conheço bem a sensação.

    *

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  9. ah, fiquei sem palavras, tocou-me.
    o texto, a música, todo o ambiente que cria. está lindo Joana, lindo.
    Sinto cada palavra que escreves:)

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  10. Mais um texto fantástico. Consegues puxar bastante pela minha sensibilidade :')
    sim , por acaso uma música do nossa mafaldinha ficava bem ali no texto :D
    um beijinho enormee Joana :*

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