Acordo e instintivamente alço o braço para o outro lado da cama. Sei que vão estar apenas lençóis mas abraço o vazio. Aliso a cama, tomo banho timidamente. A água corre quente pelo meu corpo, seguro o cabelo com as duas mãos, no cocuruto da cabeça, deixo que me caia pelas costas e escorra espuma até aos joelhos. Seco-me rápido, visto as tuas cores preferidas, a túnica que me trouxeste de Paris, seda como os meus lábios pintados de um rosa pouco forte, um pouco brilhante. Entro no carro e não pouso a carteira no banco da frente, espreito a porta de casa a ver quando sais. Tiro o carro e procuro-te pelos espelhos. Não estás mas a carteira continua no banco de trás. Arranco e passo o dia a olhar por cima do ombro. Assusto-me com portas abrindo, no escritório dizem que estou distante. Elogiaram-me a túnica, os lábios seda de Paris, e eu nem ouvi. Contaram-me, eu sei lá, estava atenta em portas abrindo-se. No final do dia regresso a casa, entro reticente, podes estar atrás do móvel do hall para me surpreender, elogiando-me o cabelo preso atrás como tu preferes ver. Sento-me no divã da sala, depois de confirmar que não estás atrás de mobília, em sítio que não seja nas nossas molduras (já) velhas. Continuarei a olhar por cima do ombro, assustando-me com barulhos distantes, portas que não se abrem.
Amanhã vou acordar e instintivamente alçar o braço para o outro lado da cama, como se lá estivesses. Sei que vão estar apenas lençóis mas abraçarei o vazio, como se a ti te abraçasse. Alisarei a cama, tomarei banho timidamente, como se tomasses banho comigo. Secar-me-ei rápido, vou até vestir as tuas cores preferidas, a túnica que me trouxeste de Paris, seda como os meus lábios pintados de um rosa pouco forte, um pouco brilhante. Entrarei no carro sem pousar a carteira no banco da frente, como se lá fosses tu. Vou esperar-te à porta, pelos espelhos do carro também. Mais um dia no escritório e continuarei distante, assustada, olhando por cima do ombro. Esperar-me-á em casa (somente) o divã. De ti, (somente) molduras já velhas.
Sei que não vais voltar...
Eu adoro como escreves! Dás uma grande volta às palavras, fica espectacular! *
ResponderExcluir*às palavras e à ordem
ResponderExcluirum pedaço de croquete tão saboroso.
ResponderExcluirgostei tanto mãe.
ResponderExcluirmas por mim podes esperar, porque eu vou estar sempre lá!
as saudades é q já não esperam mais! quando é q nos vemos ó Sasha Fierce? :D
trago-te no coração *
a imagem, a musica, as palavras, a sensibilidade... nada a apontar, tudo a elogiar *
ResponderExcluiré porque nunca me viste.
ResponderExcluirAmo, AMO a forma como escreves !
ResponderExcluirContinua Joana :D
Eu acho que tu devias escrever um livro de crónicas (: Eu juro que comprava e exigia que fosse autografado pela autora :b
ResponderExcluirbeijinho*
Adorei a forma como escreves-te este texto. De como andas-te sempre à volta e meteste as emoções em objectos, em acções - digna dos melhores.
ResponderExcluir"Sei que vão estar apenas lençóis mas abraço o vazio" - esta frase está espectacular, faz-me lembrar como por vezes sentimos vontade de nos agarrar a uma coisa, mesmo que não exista.
Obrigado pelo comment. São palavras como essas que dão força para continuar. Espero não demorar muito - ando às voltas com uma música que parece não sair, o que é optimo. E se algum dia quiseres um conselho para o que ler vai ao blog - porque não o apago - e nesse post metes:
-Nuno, que hei-de ler?
e eu com todo o gosto digo-te alguma coisa. :D
Adorei! Este vou ter de seguir!
ResponderExcluirum dia, quem sabe, fazemos de entradas de um jantar importante.
ResponderExcluirestá fantástico, e não vou dizer mais nada porque só me iam sair elogios ridiculos perante a imensidão da tua escrita : )
ResponderExcluirA forma como descreves os mais pequenos pormenores. A forma como consegues fazer passar tanto sentimento em cada um desses pequenos pormenores.
ResponderExcluirEste texto deixa-me um travo de melancolia difícil de explicar.
*
Adisson com caracois (perfect combination)
ResponderExcluirQuinta é nossa :) (Até um dia que nao vais esperar)
Nunca digas nunca...
ResponderExcluirum bjo
A tua escrita é igualmente cativante.
ResponderExcluirAdorei os textos que estive a ler!
Um concelho meu: Nunca pare de escrever.
ResponderExcluirCumprimentos.
sabemos sempre quando não vão voltar :)
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