Um velho, de aspecto venerando, tem em mim olhos postos, meneando três vezes a cabeça, descontente. A voz pesada, um pouco alevantando, com um saber de experiências feito, tais palavras tirou do experto peito: "Não vás".
Ergo uma epopeia renascentista a seu despeito, abano solenemente a cabeça, três vezes meneando, nego, berro e aponto. Não seremos todos Prometeus, Ícaros ou filhos de Apolos descuidados. A ganância levou-lhes a melhor, nasceu a mitologia do pecado, a concepção do bem e do mal como estigma que, no final do dia, não me diz nada. Não me marca, como o sinal no olho direito dele. O seu beijo, selo na minha carne que abre em ferida na sua ausência. Não é ambição, isso. Este querer maior, o desafio do Além, o sacrifício que os navegadores dos Descobrimentos não conheceram nem com as ninfas mais libertinas - o (do) Amor. Esse sorve-me infames vitupérios e põe em cheque qualquer linha, ténue ou evidente, entre o certo e o errado. O que devo fazer e aquilo que quero - o que peito inflama, chorando. Porque, no final do dia, não me ficam concepções ditadas senão por esta paixão que me guia os dias numa escuridão mais e mais embrenhada. Desconheço, então, a diferença entre o bem e o mal, enquanto faço ouvidos de mercador a um velho que me adivinha e amaldiçoa, longe, a eterna pena do Profundo. Não temo o Inferno tanto quanto receio a solidão, meu senhor.
"Vou sim."
E, assim, sem mais demoras, parto em busca do derradeiro sentimento desta estranha condição, ou mísera sorte, que nos é tão inerente quão humana - o Amor.
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
(«Os Lusíadas», Luís de Camões.)

Há momentos no teu texto em que se sente um autêntico eco d' O Mostrengo, de Fernando Pessoa.
ResponderExcluirMuito bom!
Não temo o Inferno tanto quanto temo a solidão, meu senhor.
ResponderExcluirEscolhes as palavras certas.
*
Mais um texto com grande perfeição!
ResponderExcluirAdoro ler os teus textos.
Um beijinho*
Fuck. O teu mais diferente. Dos teus melhores.
ResponderExcluiro amor. a única coisa eterna.
ResponderExcluirobrigada minha querida (:
O Amor ?
ResponderExcluirTalvez... porque não admitir que, provavelmente, mais de 90% das coisas que encontramos na Net, tem a ver com a busca, com o encontrar, com o gozar... ou com o perder... desta "COISA" chamada ... AMOR ?
temos escritora :)
ResponderExcluirAcho que sim. Pelo menos enchem-me os olhos :')
ResponderExcluirE se fizessemos uma manifestação contra o gave?
(podes ser um croquete :p)
,Não temo o Inferno tanto quanto receio a solidão, meu senhor.
ResponderExcluir"Vou sim."
E, assim, sem mais demoras, parto em busca do derradeiro sentimento desta estranha condição, ou mísera sorte, que nos é tão inerente quão humana - o Amor.
Está fabuloso, e mais não digo que me deixaste sem palavras (:
Beijinho*
E, assim, sem mais demoras, parto em busca do derradeiro sentimento desta estranha condição, ou mísera sorte, que nos é tão inerente quão humana - o Amor
ResponderExcluirgostei muito mãe!
*
há croquetes que me sabem tão bem.
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