quinta-feira, 12 de março de 2009

Amor de ouro e de ferro.

Um velho, de aspecto venerando, tem em mim olhos postos, meneando três vezes a cabeça, descontente. A voz pesada, um pouco alevantando, com um saber de experiências feito, tais palavras tirou do experto peito: "Não vás".
Ergo uma epopeia renascentista a seu despeito, abano solenemente a cabeça, três vezes meneando, nego, berro e aponto. Não seremos todos Prometeus, Ícaros ou filhos de Apolos descuidados. A ganância levou-lhes a melhor, nasceu a mitologia do pecado, a concepção do bem e do mal como estigma que, no final do dia, não me diz nada. Não me marca, como o sinal no olho direito dele. O seu beijo, selo na minha carne que abre em ferida na sua ausência. Não é ambição, isso. Este querer maior, o desafio do Além, o sacrifício que os navegadores dos Descobrimentos não conheceram nem com as ninfas mais libertinas - o (do) Amor. Esse sorve-me infames vitupérios e põe em cheque qualquer linha, ténue ou evidente, entre o certo e o errado. O que devo fazer e aquilo que quero - o que peito inflama, chorando. Porque, no final do dia, não me ficam concepções ditadas senão por esta paixão que me guia os dias numa escuridão mais e mais embrenhada. Desconheço, então, a diferença entre o bem e o mal, enquanto faço ouvidos de mercador a um velho que me adivinha e amaldiçoa, longe, a eterna pena do Profundo. Não temo o Inferno tanto quanto receio a solidão, meu senhor.
"Vou sim."
E, assim, sem mais demoras, parto em busca do derradeiro sentimento desta estranha condição, ou mísera sorte, que nos é tão inerente quão humana - o Amor.

Que promessas de reinos e de minas

De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
(«Os Lusíadas», Luís de Camões.)

11 comentários:

  1. Há momentos no teu texto em que se sente um autêntico eco d' O Mostrengo, de Fernando Pessoa.
    Muito bom!

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  2. Não temo o Inferno tanto quanto temo a solidão, meu senhor.

    Escolhes as palavras certas.
    *

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  3. Mais um texto com grande perfeição!
    Adoro ler os teus textos.
    Um beijinho*

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  4. Fuck. O teu mais diferente. Dos teus melhores.

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  5. o amor. a única coisa eterna.

    obrigada minha querida (:

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  6. O Amor ?

    Talvez... porque não admitir que, provavelmente, mais de 90% das coisas que encontramos na Net, tem a ver com a busca, com o encontrar, com o gozar... ou com o perder... desta "COISA" chamada ... AMOR ?

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  7. Acho que sim. Pelo menos enchem-me os olhos :')

    E se fizessemos uma manifestação contra o gave?

    (podes ser um croquete :p)

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  8. ,Não temo o Inferno tanto quanto receio a solidão, meu senhor.
    "Vou sim."
    E, assim, sem mais demoras, parto em busca do derradeiro sentimento desta estranha condição, ou mísera sorte, que nos é tão inerente quão humana - o Amor.


    Está fabuloso, e mais não digo que me deixaste sem palavras (:

    Beijinho*

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  9. E, assim, sem mais demoras, parto em busca do derradeiro sentimento desta estranha condição, ou mísera sorte, que nos é tão inerente quão humana - o Amor
    gostei muito mãe!

    *

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  10. há croquetes que me sabem tão bem.

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