domingo, 8 de março de 2009

Novidades nada, tudo na mesma.

Meu amor, há quanto tempo não te via!
Novidades? Oh, cá andamos, estou mais velha. Tu estás na mesma! Como vai a tua mulher? Sempre casaram em Dezembro? Mês de glória, o meu preferido, claro que já não te lembras, faz tanto tempo..
Dezasseis anos e sete meses, mais precisamente. Não, não ando a contar, que tolice! Sei foi que nessa data me faleceu uma tia-avó, prós lados de Foz Côa, casualidades a que o luto obriga, vê lá tu. Ai está grávida? Oh, que feliz notícia, os meus parabéns! Já se sabe se menino se menina? Vai ter os olhos do pai, pela certa. Não, eu não casei e estou a viver nos arredores do Porto. Mas é uma casa maneirinha, aconselhou-ma uma amiga. Fica perto da estação de comboios, dá sempre jeito. Tens de ir? Está bem, pois, eu também tenho sítios para ir, pessoas para ver e coisas importantes para fazer. Não, não acabei o curso mas estou atrás de uma secretária maneirinha, sirvo cafés quando não organizo pastas chatas, nem queiras saber. Não, não são meias do serviço, porquê? Olha lá, tu sempre ficaste na empresa do teu pai? Ah não, foste para a Faculdade. Não sabia que tinhas ido conhecer Europa, foi lá que conheceste a tua mulher? Que ano em grande, sim senhor. Bem, até um dia então. Aperta-me a mão que não estamos com confianças para beijinhos e felicidades à menina.
Como se vai chamar, é verdade?
Joana, como a avó. (silêncio)
Ironias destas matam-me - Literalmente.
Volto-te costas e páro no regresso a casa. Não me sentei ao balcão do café do costume, esticando perna e pedindo mais um. Sento-me na linha fria da estação e a perna lá está esticada. Não, não são meias de serviço, continuo sem perceber onde querias chegar. Sim, quando perguntaste isso. E quando te casaste com outra mulher, uma europeia qualquer, que espera uma menina que há-de ter os teus olhos e o meu nome.. Quando eu esperei dezasseis anos, sete meses e mentiras de tias-avós falecidas.
Sentada na linha de comboio, ouço ao fundo um Pôca-Terra familiar. Chega quase a ser acolhedor este tremer de chão, vacilar de alma.
Tenho de ter cuidado com quê? Tens de falar mais alto que o comboio está perto e não te oiço bem daqui.
O quê?! Morta? Já eu estou, meu amor, já eu estou. Mas felicidades à menina Joana.

7 comentários:

  1. wow. Este texto. Meu Deus. Está lindo.
    Cheio de sentimentos.

    E ele merece que morras ?

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  2. este texto transborda um conjunto de emoções que chegam a assustar de forma positiva, algo difícil de ser feito.
    parabéns *

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  3. Gostei bastante. Ele provavelmente não merece que morras.

    Beijinho* E obrigado pelo teu comentário do outro dia no meu blog. :)

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  4. numa palavra: fantástico!
    o tema é sempre imortal: amores e desamores...mas para além de ser um tema cativante, o texto em si está muitíssimo bem escrito. os parabéns que te deram são inteiramente merecidos, eu sou mais uma que aplaudo *

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  5. Tudo por causa do mesmo sentimento.
    Amor. Chega a meter nojo, o nome.


    Oh , obrigada ! :D
    Também vou adicionar o teu , amo mesmo os teus textos. :D

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  6. O esperar que um Pôca-Terra familiar te tire algo que já te foi roubado dezasseis anos e sete meses antes.
    Mas felicidades à menina Joana.

    Gostei da relação com a foto.
    *

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