Quero sentar-me contigo, no café do costume, pedir água das pedras que odeio e que tu não, o meu café forte e comprido, por favor. O rapazinho, o do café do costume, vai sorrir porque a nossa presença é já habitual, confortavelmente habitual. Vai trazer-nos as bebidas, perguntar se precisamos de mais alguma coisa e já não o ouvimos porque estamos entretidas em conversas paralelas. Vai sorrir porque é já hábito que não lhe respondamos, estamos a pôr em ordem e dia as conversas paralelas da semana - oh, confortável hábito. Vai voltar para o balcão, pegar num pano cor de parede e limpar pires enquanto admira as duas amigas faladoras. O café costuma ser calado, só na zona de fumadores tem mais alarido e de vez em quando um desastrado parte um copo aqui ou além. Limpam-se os cacos, pedem-se desculpas e diz-se que não tem mal, porque aquele é o único alarido que o café conhece, habitualmente calado, até chegar a sexta-feira e, com ela, as duas amigas que se sentam sempre perto da porta, onde há claridade e luz. Pedem água das pedras e um café, de vez em quando um bolo para a mais gulosa das duas, dão as mãos e falam alto. Conversas paralelas dançam no café, ouvem-se na rua onde a multidão canta hinos próprios, seus. Podia-se imaginar como se conheceram. Talvez num comboio pelo estrangeiro, duas portuguesas que se cruzam e fazem pactos de sangue, de uma vida. Quem sabe se num bar, dançando solteiras e de braços no ar, saltando como só elas gostam de saltar. Dir-se-ia que se conhecem há muito, talvez sejam amigas de infância, desde nascença, primas até podem ser.
Uma é alta, a outra mais baixa e mais larga. Riem-se distintamente, um riso alto que faz fechar-lhe os olhos e darem a mão. Uma tem um cabelo liso um tanto hollywoodesco, um ar felino nas pestanas grandes e nos tons escuros do olhos. A outra, que lhe dá a mão e lhe fala alto, tem o cabelo em cachos não se percebe bem de que cor, lembra um gato malhado. Orgulham-se do que falam, do que contam e discutem, entretidas em conversas paralelas, água das pedras e um café forte e comprido. Dão a mão e, sob o olhar atento do rapazinho do café do costume, que limpa pires com um pano cor de parede, orgulham-se do que sentem. Não explicam porque nem precisam, tão-pouco o dizem.
Passam-se semanas, meses longos. O rapazinho do café do costume é chamado à zona de fumadores porque se partiu um copo, desculpe mas ele é um descuidado. Não tem mal, não tem mal, limpam-se cacos do chão ferido. Passa a esfregona e o café parece emudecer. Calar-se-á, há quanto não se ouve aqui um riso alto, hoje até é sexta-feira. Olha, de relance, para a mesa perto da porta. Há luz e claridade e um casal beberica uma meia de leite. Sorri, nostálgico, lembrando a mistura que costumava levar, confortável hábito, de água das pedras e um café forte, comprido como mandava o pedido, por favor. Não sabe o que é feito das duas amigas. Talvez tenham partido num comboio pelo estrangeiro, berrem ao vento os vícios que esqueceram, uma de bolo na mão e a outra queixando-se que não gosta de chocolate. Quem sabe se não foram cumprir pactos de sangue, de uma vida ou por bares procuraram namoros, acasos encontros felizes. Dir-se-ia que podem até viver juntas agora, na volta até eram irmãs e não primas e mudaram-se para o sul que por lá o tempo está de bom grado. Será que ainda dão a mão, cumprimentando a multidão com um riso alto? Devem continuar orgulhosas do que sentem, disso não duvidará o rapazinho do café do costume.
Passam-se semanas, meses longos. Não partiram num qualquer comboio nem se encontraram em bares com rapazes ou consigo próprias. Não vivem juntas, não são primas sequer. Não deram mais a mão nem explicaram mais o que sentiam. Mas uma delas, aquela mais baixa e larga, que lembra um gato malhado, sim, a tal gulosa, ainda se orgulha do que sente. Tem saudades da amiga que tem como a uma irmã e do seu ar felino hollywoodesco, das suas grandes pestanas e dos seus olhos a fugir para o escuro. Principalmente, tem saudades das sextas-feiras confortavelmente habituais, falando e rindo hinos próprios, seus. Di-lo ainda, de si para si.

utilizaste uma sitaução para descrever uma saudade que sentes Joana?
ResponderExcluirsem nada a acrescentar, a tua escrita encanta!
Qual é a sensação que tens quando te vês ao espelho?
ResponderExcluirTu és tão...olha nem sei...és tão. Ponto.
ResponderExcluirLindo, Joana, lindo...
ResponderExcluirSaudades mudas... rebentam-me a boca
gostava de te falar sobre ste post, em privado, por favor.
ResponderExcluirQue voltem as vossas sextas-feiras em água das pedras, cafés fortes e compridos, risos altos e mãos dadas. Que voltem e que fiquem.
ResponderExcluirE que guardes esse orgulho num cantinho desse teu coração tão grande e cheio. *
O teu coração é mesmo em Demasia :P
ResponderExcluirSó é mesmo pena as vossas conversas não poderem voltar a animar o café.
A saudade muda uma vida.
ResponderExcluirBeijo