"Apreciamos a inteligência como se fosse uma espécie de dom supremo. Falamos dela como se fosse uma qualidade intrínseca a alguns, que se afatam da mediana e brilham resplandescentes do alto da sua capacidade de raciocinar, tematizar, argumentar, invocar factos, recordar eventos, saber pormenores que nos escapam ou relacionar odens de acontecimentos que acrescentam qualquer coisa àquilo que tínhamos por adquirido. Em certas fases da vida, sobretudo no ínicio da idade adulta em que começamos a perceber que a beleza pode ser apenas uma questão de "produção", viramo-nos para a inteligência como se nela estivesse contida uma qualquer essência maior, mais plena ou mais definitiva.
Por aí, deixamo-nos fascinar por algumas raras personagens que, pela qualidade do que pensam, pelo fulgou ou facilidade com que usam parcelas de conhecimento, nos fazem antever outros mundos e, por essa via, nos abrem portas a uma pertença de entendimento, que nos promove e qualifica como sendo também inteligentes. Muito inteligentes.
Um bocadinho mais à frente nesse percurso que vai construindo sentido de vida, começamos a dar conta que, às vezes, aquilo que designámos por inteligência é uma característica específica, valorizável em certos contextos mas desprezível noutros.
Descobrimos, habitualmente por experiência própria, que aquelas criatuas muito doutas que citam os clássicos sabem sempre quem disse o quê, quando e a que propósito patinam na resolução de problemas triviais e quotidianos. Que o «crânio» que brinca com os números como se fossem simples e fáceis emperra em algumas habilidades sociais que diríamos básicas. Que o escritor laureado ou o artista plástico cotado distinguem-se tanto pelas suas produções quanto se tornam invisíveis ou desinteressantes nos seus juízos e nas suas acções sobre o mundo que os cerca. Que o líder carismático que empola massas em discursos fluentes e inflamados funciona na intimidade como uma criança mimada ou insegura. Que escapar a um pormenor de excepcionalidade atribuível à tal da inteligência, mantendo alegria, boa disposição, senso comum e capacidade de envolvimento com os outros, é tão rara que fica por validar se é assim tão bom ser especialmente inteligente.
Por todas essas coisas que se aprendem, lentamente, umas ao longo da história da humanidade, outras ao longo das nossas próprias vidas, é que é importante ir dizendo aquilo que o Jay Gould explicou tão bem: que a inteligência não é a medida dos homens."
Isabel Leal in «Notícias Magazine».

A parvoíce dos homens é muito mais emocionante do que a sua inteligência. Porque a inteligência tem limites, mas a parvoíce não :o)
ResponderExcluirPreso a inteligência - o tacto, como tu dizes - nas relações humanas, coisa que muito poucas pessoas sabem o que é ou como alcançar. Cada vez mais se preocupam com o óbvio, com o acessível - é bem mais confortável.
ResponderExcluir(Sim, esta é a minha revolta xD)*
Um Homem será sempre um Homem. Mesmo quando faz o que não aceite, o que não é emocionalmente correcto para os outros, que não é bem disposto ou alegre, que não é dotado duma grande inteligência, senso comum ou a capacidade de se relacionar com outros. Tudo isso acaba por ser sempre secundário em algumas situações, em situações reais. O Homem é um ser de acção. Um Homem sabe que raramente será compreendido, mas não se importa. Há coisas há fazer e isso é que importa, nem que para as fazer tenha de prejudicar não só outros como também ele próprio. Um Homem não se orienta com medidas e julgamentos alheios; é como é, tenta fazer o que melhor pode e sabe. Sabe como é fácil ser tudo isso que se espera dele, basta ser egoísta e não viver.
ResponderExcluir*No meu comentário, como é obvio, estava a falar de Homem como raça -a Humanidade. Não a distinguir entre homem e mulher.
ResponderExcluirE creio que nem sequer há uma pessoa plena. Todas elas têm habilidade para serem o que são e o que não são. Mas sim, a inteligência adquire-se por experiência própria e de vida, mas há tanta coisa a dissecar desta história toda. Talvez um dia, daqui a uns quantos milhares de anos, o mundo deixe de ser assim, porque na minha não-tão-distante-visão não acredito que vá mudar.
ResponderExcluir(bom tema)
Beijo
Foi-me certeiro à consciência. Também eu desisti do mundo alheando-me de todas as suas trivialidades para me entregar a algo mais forte, mais profundo e, acima de tudo, não mundano, banal, ridículo. São jogos de ciência e puzzles com peças que não encaixam que me ocupam o dia sem me importar se lá "fora" está chuva ou sol. E, mesmo sabendo que este é o caminho que vai directo à minha Luz, chego ao fim do dia cansado, exausto e na esperança de que algum sentimento humano, puro, banal e ridículo me seja oferecido sem que me calem o silêncio. E esse equilíbrio não é fácil quando estás no trapézio, que, para mim, nos últimos tempos se tem mostrado avesso a acrobacias. (...)
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