segunda-feira, 29 de junho de 2009

A culinária do amor: na dose errada.

Cá por casa todos gostam de um bom salame caseiro. Bolachas Maria ao desbarato, trituradas e feridas e cuidado com o chocolate que o teu irmão gosta dele bem forte e docinho, diz-me a minha mãe.
Tenho-me sentido um bom salame caseiro, na dose descuidada de chocolate. É. Também gosto dele bem forte e docinho e deixaram-me em banho-maria, amolecendo em ponto de rebuçado. Esmagada, fui bolacha Maria. Descuidaram-se com o chocolate, amoleci depois de mexer bem devagar e manter em lume brando. Esperei que alguém fizesse frutos da vontade, que é como quem diz da vontade um salame, uma mousse até, cobertura para um qualquer bolo que fosse. Esperei e nada aconteceu que não fosse ficar eu amolecida e untada, como se faz com as formas antes de irem para o forno para que o bolo não fique lá colado. Não resultou comigo que, untada pelo beicinho, em ponto de rebuçado, colei a um qualquer balcão de cozinha. Um qualquer não, o balcão de cozinha dele, o Senhor Banho Maria. Dancei numa pasta achocolatada com os restos da bolacha triturada, a manteiga quente e pestilenta. E, esquecida, fui dose descuidada de chocolate no balcão da cozinha porque, senhor de todos os trends e highlights culinários desta estação, ele se lembrou que bom bom é tarte de maracujá. Ó exótica tarte de maracujá, que nem precisa de ficar em ponto nenhum, já vem no ponto. Feita em três tempos, mas com todos os cuidados, o Senhor Banho Maria olha de soslaio para a pasta de chocolate em cima da banca. Vai perguntar-se que borra ficou ali, parece um resto queimado de qualquer coisa. Não lhe dá grande atenção. Não me dá muita atenção e, como resto queimado de qualquer coisa, ou de coisa nenhuma, fico untada e pestilenta à espera de ficar pronta, à espera de ficar no ponto. À espera, fui salame caseiro em banho-maria.

Nunca mais cá por casa se fez um bom salame caseiro. Digo à minha mãe que não tenho paciência para a migalhice que as bolachas Maria fazem, trituradas e feridas, e explico ao meu irmão que bom bom é tarte de maracujá - não quero deixar ninguém em ponto de rebuçado e, no final de contas, faço da vontade frutos. Maracujá seja e não fica ninguém em banho-maria no balcão da minha cozinha.

10 comentários:

  1. Está muito original. Gostei das comparações.

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  2. Os sabores exóticos são para as pessoas sem sabor, sem gosto. Não há nada como um belo salame de chocolate, bem doseado e preparado com todo o cuidado.
    Melhor ainda só fazê-lo, agarrar nas bolachas Maria e passá-las entre os dedos, com calma e atenção, vê-las uma a uma a passar até termos uma boa quantidade e juntar tudo, deixa-se no forno e prova-se. O que é engraçado é ver as coisas a crescer. De certeza que aí por casa se vai voltar a fazer óptimos salames. :D
    Tartes de maracujá para o teu irmão? - vê lá as companhias que lhe arranjas. :P
    (Não, não estudo política. Sigo apenas a actualidade e tenho umas pequenas noções e opções, mas muito gerais. O meu principal interesse é as pessoas e a sua humanidade.)

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  3. Mousse de ananás é o que gosto.

    Maria: Vamos jogar um jogo de adivinhas, Joana. O que achas?

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  4. Olha que delícia que isto está!!
    (o tema q mais gosto de escrever é sobre a família, e o q mais gosto de te ler é a família também! :))

    fui eu que fiz o cabeçalho! *proud look*

    oh mãe eu amo-te, e aos teus quase vinte anos :D

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  5. Bom bom é tarte de maracujá, mas o salame nunca passa de moda, quais trends e highlights desta estação. Por isso, mais tarde ou mais cedo, sempre volta um chef com mais queda para a escolha de sabores e texturas e a pasta achocolatada com os restos da bolacha triturada, a manteiga quente e pestilenta, que ficaram esquecidas na banca, voltam para a mesa, em doses descuidadas de chocolate e controladas de banho-maria.

    Um bom salame é sempre um bom salame e o teu irmão não se vais contentar com essa resposta ;D *

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  6. tu também és docinha. e na dose certa!

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