segunda-feira, 1 de junho de 2009

Eterna infância, Miguel.

Deitada no seu quarto, de barriga para o ar, pensa no que há-de fazer para o jantar. Acabaram-se as batatas ontem, o Miguel não gosta de massa e ovos acha só ter um. Está demasiado cansada para ir até à loja comprar o que lhe falta, dirá que está demasiado ecológica para pegar no carro e demasiado velha para ir a pé tão longe. Está velha, pensa, deitada de barriga para o ar, na cama do seu quarto. Talvez faça uma salada, o pequeno ainda tem um bife que sempre alimenta mais que meia dúzia de folhas de alface e logo com quem, que torce nariz a tudo que seja verde e esteja no prato - dir-se-ia demasiado ecológico para digerir plantas precisas à saúde dos Homens. Ri-se, deitada de barriga para o ar, pensando no pequeno ser que reteve como a uma prenda no seu ventre, contando nove meses como quem espera um aniversário. O que viria a ser o do Miguel, ainda tão pequeno. Esquece-se do jantar e pensa como será possível ganhar-se vontade própria, torcer nariz às saladas e verduras, cansar-se para não pegar no carro e ficar deitada só porque assim lhe apetece, quando foram apenas seres retidos como prendas, em ventres como embrulhos. Ri-se, tolices para se pensar na hora do jantar, está mesmo velha. Qualquer dia falará sozinha, depois de contar vezes infindas às vizinhas e sobrinhas como o seu pequeno Miguel está um bonito galã na faculdade.
Está para se levantar e finalmente decidir a quem vai atribuir o ovo que lhe resta no frigorífico, salada será, um bife para o pequeno, quando ele entra no seu quarto.
- Mamã, estás a dormir?
- Não, a mamã está só a pensar, Miguel.
- Também quero pensar, então.
O pequeno sobe para a cama, deita-se de barriga para o ar na cama da mãe. Sorrindo, ela vai cruzar as mãos e segurar a nuca, cruzar as pernas à frente. Num instante, Miguel imita-a. Rindo, esquece-se do jantar e de que está velha, prenda já cansada e gasta, ser retido em lidas domésticas chatas e aborrecidas.
- Não queiras, meu pequeno. Não queiras pensar.
- Porquê mamã?
- Porque devias ser para sempre criança.
- O que é uma criança?
- És tu Miguel. A mãe é adulta, tu és criança. O pai também é adulto. Aquele teu amigo João também é criança.
- Eu gosto do João.
- Sê sempre criança, Miguel.
- Mãe, porque é que o pai não é criança?
- Porque cresceu, como a mãe.
- Mas a mãe é adulta, o pai é criança.
- Porquê Miguel?
- A mãe faz o jantar.
Há uma pausa no quarto, na cama onde mãe e filho se deitam de igual, conversando sem sentido.
- Hoje não.
- Então a mãe hoje é criança.
- Sim, hoje a mãe é criança contigo, Miguel.
Esquece-se do jantar e de que está velha, prenda já cansada e gasta, ser retido em lidas domésticas chatas e aborrecidas e abraça o filho com um carinho infindo. Indizível.
Sorri, hoje é criança e haja quem pense no jantar por ela.



Hoje, somo-lo todos.

11 comentários:

  1. Posso ser criança, também? A minha irmã já está a tratar do jantar.

    *

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  2. È tão mais fácil ser criança.

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  3. Hoje ofereceram-me um chupa-chupa de laranja.

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  4. Hoje (e sempre) somo-lo todos :)
    Está divinal*

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  5. «(...) foram apenas seres retidos como prendas, em ventres como embrulhos».Adorei a metáfora.
    Hoje, somos todos crianças (: *

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  6. Tão lindo Joana, parabéns, não me canso de te ler.

    A magia de ser criança é tão boa mas tão rara de se manter!:)

    Beijinho grande:)

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  7. Ohhh:)Gosto tantoo, mas tanto.

    eu fui criança de faltar à escola com uma bela de uma insolação.

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  8. E que bela forma de comemorar o Dia da Criança.
    Que sejemos sempre assim: crianças.

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  9. Está simplesmente delicioso.
    Dom. O que tu tens é um dom.

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  10. então eu sou criança todos os dias. :D


    ;*

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