quinta-feira, 25 de junho de 2009

Filho do exército e do infortúnio - II.

Querido Carlos,

Recebi todas as tuas cartas e li-as avidamente, como li a primeira. Todas as noites adormeço rezando a Deus que te traga em breve, como havias prometido, e todas as manhãs acordo amaldiçoando essa Regência que te levou para longe de mim e do teu filho. Está para nascer o bebé e há-de ter o nome do teu avô, os meus olhos e o teu sorriso. Dá-me pontapés de noite, zangado com a tua ausência, meu amor. Não sei durante quanto mais sou capaz de responder à tua mãe, que insiste em ligar, que não, ainda não voltaste e que quando voltares a avisarás. Não sei durante quantos domingos sou capaz de falar com o Padre Jorge que diz que Itália conjura uma guerra que há-de implodir nas almas dos extremistas e explodir corpos dos defensores. Entras aí meu amor, tu vem-te embora. Saúda a desgraçada da cúpula, ou lá da base que foste benzer, e vem para Casa. Não sei quanto tempo vou demorar a superar o ódio que tenho ao Partido por ter falado em três meses e ter falado mentira - sei bem como essas coisas nunca cumprem horários nem calendários, sim, mas nem te chegaste a despedir. Beijamo-nos a última vez quando compramos o berçário para o menino, a tua camisa cheirava a sabão e suor quente e os meus caracóis caíam nos teus ombros. Não quero que seja a última vez e o Padre Jorge diz que pensamentos destes fazem mal ao pequeno. Dá-me pontapés quando penso coisas dessas, zangado com a tua ausência e o meu pessimismo. O pequeno, bem entendido, porque o Padre Jorge limita-se a dar-me um abraço de compaixão e três Avés Marias em teu nome, Carlos.
Também tenho saudades tuas e não tenho quem pontapear. Limito-me a receber o abraço do Padre Jorge e a esforçar-me por não esquecer como o teu era reconfortante e acolhedor. Terno, longo abraço teu.
Amanhã vai ligar a tua mãe e perguntar se já voltaste, se deste notícias por carta ou se o Partido já vos soltou das obrigações civis. Obrigações o tanas, não quero saber dos Sindicatos, meu amor, quero saber de ti. Quero-te em casa e que não seja para breve - seja para agora. O menino está para nascer e há-de ter os teus olhos, fitando-o babado. Prometeste.
Volta para Casa.

Tua,
Nora.

10 comentários:

  1. não é critica fácil.
    é a constatação de um facto. podes lá aplicar qualquer palavra, mas fácil é que não é Joana ;)

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  2. o teu mail mail =)
    fazemos assim, eu doute o meu: carolinarita@live.com.pt e tu adicionas.
    e joana, o texto está fantástico!

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  3. ok nameless queria dizer: eu dou-te :P

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  4. E eu continuo a dizer que um dia quero escrever como tu.
    Tens outra escola ;)


    beijinho

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  5. Ausência e pessimismo caiem pior que veneno. Mas quando o Carlos voltar, o menino vai parar com os pontapés, a Nora já não vai precisar do abraço do Padre Jorge e as explosões que existirem serão no peito de cada um dos amantes, apenas interrompidas pelo choro do pequeno, ou pelo telefonema da mãe aflita a querer saber se por acaso o Carlos foi outra vez chamado pela Regência.

    *

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  6. Diz-me onde encontras as palavras para escrever assim, que está absolutamente fantástico (e o primeiro tambem).

    ** amo.te mãe, esta bem?

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  7. Está tão bem representada essa nacionalidade, Joana. Os pontapés no interior, o mundo contra um par (ou um trio,...), um telefonema irritante a perguntar se tudo bem quando já se sabe a resposta, a esperença e a súplica aos céus, os dias a passar...
    A saudade é um país estrangeiro onde jamais ganharemos nacionalidade. Espero que não tenhas ido de viagem, a volta é mais longa.

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  8. Oh Joana Éme, obrigada. Significou muito :)

    leio cada uma destas cartas e quando chego ao fim algo me pede sempre mais. Tens um talento especial, um estilo muito próprio Joana.
    Beijinhos

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  9. E a tua? Fala-me dela.

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  10. Ele vai voltar, não vai?
    Espero que sim.

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