domingo, 21 de junho de 2009

Fez-me companhia, o comboio da manhã.

Acordo e o teu corpo quente do meu lado faz-me calor. Respiras para cima da minha cara e questiono-me como pude achar este cenário amoroso, fazes-me calor. Sacudo os lençóis como a um leque, saio da cama sem rodeios. Não sei se te acordo, dirijo-me para o lavatório do quarto de banho que partilho contigo há já não sei quantos anos. Dois meses? Pareceram décadas, meu amor. Estiveste a fazer a barba e deixaste uma imundice de pêlos e espuma na loiça branca do lavatório onde tencionava lavar a cara - tenho calor. Dispo a camisa de noite, dirijo-me nua para o frigorífico. Deixaste o pacote do leite aberto em cima da mesa, com um resto já alagado em natas pestilentas, e descascaste fruta para cima do balcão. Há um pouco de sumo de laranja no frigorífico, está fresco e bebo-o de um copo alto que tiro do armário sob o balcão - tenho calor mas modos também. Deito fora as cascas de fruta que vieste comer pela noite, chegas à cozinha e trincas os lábios às minhas costas nuas. Volto-me e encaras-me com um abraço - fazes-me calor e dois meses pareceram décadas, meu amor. Desculpo-me com pressas para o trabalho, Tenho mesmo de me vestir. Vejo-te desanimar com o meu tom seco e descascar mais fruta, procuras bolachas Maria para um batido qualquer. De banana, quase poderia apostar, enquanto regresso ao quarto que nos adormece os dias. Odeio banana.
Enfio um vestido curto, colorido como os teus olhos, pego na pasta e saio de casa sem grandes despedidas: Até logo, amor.

Na rua, o vento ainda dorme. Não respira na minha cara e é uma pena porque tenho calor. No comboio para o escritório vou ver gentes de todos os géneros. Mães e meninas, rapazolas e homens de barba rija, multidões a tempo e horas e sujeitos atrasados para a escola. Mulheres de bagagem, homens de bagagem numa mente já pesada de si. Óculos escuros, fatos-gravata, saias travadas, vestidos coloridos. Pergunto-me se não deveria seguir rumo com a massa anónima de gentes que partilha sempre comigo o comboio da manhã. Se não terei mais em comum com estas mães, estas meninas, estes rapazolas e estes homens de barba rija que contigo, meu bem. Eles não me fazem calor e quase aposto que mais de metade não tem o teu vício de beber leite do pacote e deixá-lo no balcão a alagar em natas pestilentas. Óculos escuros, fatos-gravata, saias travadas, vestidos coloridos.
A meio caminho do escritório um rapaz senta-se do meu lado. A meio caminho de casa reparo como tem um corpo robusto, entroncado e o cabelo escuro como os óculos daquela senhora. Veste algo simples, talvez a tenha enfiado sem rodeios nem preocupações, qual vestido colorido no meu corpo quente.
- Faço-te calor?, pergunto.
- Não, fazes-me companhia.
Encara-me com um sorriso fresco. O vento acorda com o seu pestanejar, um clarão que desperta das suas pestanas com a veemência de um calor arrebatador. Adivinho no seu rosto que não tem os teus vícios de descascar fruta para o balcão e sigo rumo consigo, no comboio da primeira manhã da minha vida. Adeus, amor, odeio banana e bolacha Maria dá-me sede.

7 comentários:

  1. Consegui visualizar tudo. Forma fantástica de escrever, amei. Faço-te calor? Com estas palavras, é bom receber o seu calor.

    Beijinho meu bem.

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  2. O fim, (só) comovente.

    Há pessoas que não deixam de fazer calor, mesmo que o Inverno chegue carregado de frio e vento. *

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  3. adorei mae! adorei.


    olha, eu tambem nao gosto de banana. Nada de todo.

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  4. bem, já tinha saudade de ler os teus textos maravilhosos!
    o fim está espectacular, sem dúvida :D
    também não gosto de banana nem de bolacha maria, não alimenta isso. *

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  5. Por acaso gosto de banana e de bolachas maria.
    mas não gosto de batidos de banana e bolachas maria. há coisas que simplesmente não ficam bem juntas :)

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  6. Tu és divina na escrita!
    fico sempre surpreendida
    muito muito muito bom
    e a forma como passas a mensagem é estrondosa!
    muito muito muito bom

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  7. Oh! senti tudo! tens um dom Joana




    sim, fui eu:P

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