sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A receita do prazer.

Serve-me o copo de vinho. Vejo-o jorrar e oiço-o repicar no fundo do copo alto e depois em si mesmo. Amena como um lago sangrento.
- Há alguma coisa errada? Preferias outra coisa?
O seu sotaque fechado lembra-me as férias que passei no sul e a preocupação com que se empesta o tom da pergunta faz-me sorrir. Toco-lhe levemente na mão que ainda segura a garrafa de vinho, apresso-me a responder-lhe:
- Não, não, está tudo certo.
Sei que me sorri de volta vendo-lhe apenas os olhos. As pequenas rugas que faz nos cantos dos olhos, quando sorri, são em forma de patas de galinha e foi das primeiras coisas que no seu rosto me chamou a atenção. Tem os traços muito firmes, muito geometricamente definidos, um queixo cortado um nada saliente. Tem os traços do rosto arquitectonicamente desenhados, excepto aqueles franzidos que faz no canto do olho quando sorri. Foi das primeiras coisas que reparei porque é a pata de galinha que o humaniza e me lembra que estou a jantar com um mero mortal, meu semelhante.
Preparamos camarões salteados com molho de iogurte como se fizessemos destas experiências o nosso quotidiano. Mergulhou os camarões em sal e regou whisky para me impressionar. Desafia-me a provar o limão com os dentes, corto meio para o sumo de tempêro. Seduz-me com a naturalidade com que brinca com a comida que cozinha. Rala a raiz de gengibre, espreme-a para dentro do copo da varinha mágica. Procura uma malagueta que, depois de limpa de sementes e cortada em pedaços, junta à gengibre. Pede-me o iogurte natural da porta do frigorífico, que geme de cada vez que nela força se faça. Triturou tudo com a varinha mágica, pôs um ingrediente surpresa, que mais tarde vim a saber serem folhas de hortelã, e fritou os camarões. Mexia-os de vez em quando, o seu braço rodando rápidos movimentos com a frigideira escorrendo vaqueiro. Olhava-o pelo canto do olho, enquanto cortava pepinos em dados e um tomate a meio. Os seus dedos são longos como os de um pianista mas sofridos como os de um carpinteiro. Requinta a combinação dos dois com a de um audaz cozinheiro. Misturamos tudo num prato de serviço fundo e sob os camarões jorramos o molho de iogurte. Passou um dedo na beira do copo da varinha mágica, tocou-me nos lábios, sujando-os com a pasta que cobre o nosso jantar.
- Provo eu ou provas tu?
De novo aquelas maliciosas patas de galinha espreitando dos seus olhos. O seu bonito rosto firme, a quatro segundos do meu. Agora a três, agora a dois. Avanço mais um pequenino passo do seu corpo alto; o seu bonito rosto firme a um segundo do meu.
- Prova tu.
Trinca-me levemente o lábio inferior. Uma, duas vezes. Saboreia o iogurte com os seus lábios, nos meus. Tremem-me as mãos que seguram o prato de serviço fundo. Afasta-se suavemente da minha boca, encosta a sua geométrica testa na minha.
- Há alguma coisa errada? Exageramos na gengibre?
Toca-me levemente no pulso esquerdo, apressa-se a responder-me:
- Não, não, está tudo certo.
Pelo final do jantar está o prato de serviço vazio e acompanha-o a garrafa de vinho tinto. Está agradável a conversa, um pouco apimentada, como o seria de esperar da companhia e do álcool. Sente-se um leve calor, uma ardência no corpo como mil malaguetas na pele. Levanta-se com a solenidade de um músico, eleva o meu corpo consigo em gestos rápidos. A louça cai no chão, arrastada por braços esperneando e parte-se silenciosa na carpete da sala. Ouvem-se apenas as nossas respirações pesadas; tem-me nua na mesa que podia ter esculpido com as suas mãos de carpinteiro. Mergulha o seu bonito rosto firme abaixo do meu queixo, beija-me o pescoço e o peito. Cravei as minhas unhas nas suas costas largas e soltei um uivo de fazer inveja à porta do frigorífico e às vizinhas do 3º frente. Nessa noite fiz amor com um deus como se fizesse disso o meu quotidiano e não houve traço que me lembrasse de que se tratou de um mero mortal, meu semelhante.

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