Têm as pontas dos dedos muito frias, as mãos da cor do cinzento que vestem. Ela tem as luvas guardadas na carteira que usa a tiracolo, mas não lho diz. Ele tem as suas escondidas nos bolsos do casaco, esforça-se para que ela não as veja espreitando pelo fecho metálico. Só assim podem dar a mão e sentir a pele rígida como o Inverno que se faz sentir esta noite. Atravessam a ponte, ela vai do lado de dentro, vê o rio escuro mas não se assusta como quando vai sozinha. Não vai sozinha e dá-lhe a mão nua apesar de a ter muito fria e luvas na carteira a tiracolo. Do outro lado do rio estacam e, em silêncio, olham em simultâneo para o céu. Está escuro mas nenhum dos dois se assusta. Dão a mão com mais força, ela aquece a esquerda e ele a direita que entrançam entre dedos rígidos. O vapor de água da atmosfera esfria ao ponto de se condensar e, sem anunciar, as gotículas de uma nuvem estão tão leves que o ar atmosférico as mantém suspensas nas alturas. Distinguem uns pontos brancos que caem do escuro, como estrelas desmaiadas e rendidas. Alguns são pequenos cristais de gelo, flocos de neve que dançam sobre as suas cabeças. Chovem nuvens em pequenos pedaços, como se os deuses estivessem a divertir-se à grande numa olímpica luta de almofadas. Ela solta uma gargalhada quente ao ver que ele está a ficar com o cabelo muito branco, o ar em redor da sua boca esfuma-se perto do rosto curioso dele. Ela traz um gorro e por isso continua com o seu cabelo muito ruivo, as duas tranças fugindo das orelhas como raízes selvagens. Sacode-lhe a neve da cabeça com uma mão, pára quando encontra o cabelo dele rapado como se barba, cabelo que ela não pode sentir de tão curto e então passa o polegar na sua sobrancelha. Sente-a amestrada como o seu cabelo ruivo em tranças, que ele segura com a mão livre. Atrás de si um senhor de negro abre um estojo do tamanho de uma criança. Suavemente e sem aviso, como se neve, toca saxofone. A música, como se voz, esfuma-se serena na noite fria. Surpresa com o súbito som, ela volta-se para encarar o saxofonista e larga a mão dele. Sente um repentino frio nos dedos, como se tivesse deixado cair a luva no chão da cidade. Olha-o curiosa. Sob a cabeça dele, ao fundo, o Big Ben está reluzente como a lua, marca as sete horas da noite. Ele volta a dar-lhe a mão, fala por cima do jazz que embala as poeiras de gelo:
- Tens planos?
- Para o resto da noite?
Pausa. Ele é um pouco mais alto, o que faz com que a expressão no olhar dela lhe pareça de expectativa, as rugas na testa aparecem sobre a forma de sublimes linhas paralelas e as pupilas dilatam.
- Para o resto da vida.
Corre o fecho metálico dos bolsos, de onde tira as luvas. Vai vestir as pequenas mãos dela, como quem olha por uma criança obstinada. Delicados, rígidos dedos, deslizando por entre o tecido quente. Ele é um pouco mais alto, o que faz com ela tenha de se pôr em bicos dos pés para lhe chegar aos lábios. Delicados, suaves lábios. Como se neve beijasse, rende-se com as estrelas. O Big Ben, atrás de si, está radiante; os seus ponteiros adormecem na eternidade que os espera, expectante e com sublimes rugas na testa.

ai Joana, gostei tanto deste! :')
ResponderExcluirlindo, lindo, lindo! *
eu se pudesse lia-te para o resto da vida.
ResponderExcluirwwwwauuhmm. fizeste-me ter saudades. quero romanceee! rshgghrr
ResponderExcluirenfiim :)
acabaste de uma forma fenomenal. :')
ResponderExcluirÉs brilhante!
ResponderExcluirquando começo a ler o teu blog (e estou sempre a ver nas actualizações dos blogues que sigo se há alguma coisa do teu 'coração em demasia', é dos que mais aprecio, sem desfazer nos outros) a primeira coisa que penso é 'débora, lê devagar para durar mais tempo', mas por muito devagar que tente ler, por mais que beba e sinta as palavras todas dentro de mim parece-me sempre que acaba cedo demais.
ResponderExcluirJoana, sou fã da tua escrita, é realmente uma delicia e aquece-me sempre o coração. Obrigada :)
Um dia perguntaste-me se estava no teu coração. Se calhar estou. Escrevi um texto há pouco tempo em q ele tinha cabelo curto, como a barba, e ela trança. Não ruiva, mas trança. :)
ResponderExcluirGosto deste teu canto, Joana Éme. *
Que linda história...
ResponderExcluir:)
ADOREI!!
Continua porque quero ler mais.
Beijinho*
Se calhar não.. Tenho a certeza q temos mais em comum, começando pelo coração em demasia.
ResponderExcluirObrigada igualmente.
ResponderExcluirAdorei *
Ah!
ResponderExcluirE tenho uma coisa para ti no meu blogue. :)
beijinho*