Odeio que me chames mulher com esse teu sarcasmo embrulhado no «lh» só porque ainda me vês menina e moça. Porque te negas a ver que cresci? Custa-te assim tanto admitir que já não podemos brincar ao faz-de-conta porque há responsabilidades que vêm com isto da idade? Odeias o desdém com que te atiço o «assim tanto», sibilante e assustador para o menino que ainda julgas ser. Não gostas que pinte os lábios quando estou de saída porque dizes que pareço vulgar e gostas de fazer mímica no espelho em que me arranjo, para silenciosamente me insultares de palhaça. Perdi a conta ao número de vezes que montas este espectáculo privado. Mas não é como se tivesses mais que fazer.. É por isto que me cospes nos sonhos, não é? Porque não tens mais que fazer? Gostas de os agarrar, vê-los bem, falar deles aos teus amigos como se teus fossem - os sonhos e os amigos - e depois rasgas tudo só para veres de que são feitos. Não sabes o que isto é, ter ambições. Estar de saída, arrumares os cacos em que te fizeste na noite anterior e seres composto pela manhã. Não conheces o orgulho da vitória nem a pontada nele da derrota, porque nunca te alistaste para a corrida. Não podes brincar ao faz-de-conta para sempre. A idade não é só um número. Faz-de-conta que não crescemos. Faz-de-conta que somos um casal de verdade. Faz-de-conta que tens objectivos. Faz-de-conta que tens amigos que se importam com isto tudo. Odeias que to diga com esta indiferença, eu sei. Mas depois de tantos anos a ver-te pisar-me enquanto mulher - e mulher dito de uma vez só, sem línguas de fora no «lh» - só porque me querias menina e moça, não há muito sentimento que te possa guardar na sola do teu sapato. Ou que lá coubesse. Daí a indiferença: é pequenez o suficiente.

Não há histórias de faz-de-conta para sempre, por muito que as arrastemos. E a realidade tem tanto de fantasia que mais vale vivê-la, como menina que se fez(faz) mulher.
ResponderExcluirbrilhante Joana *
ResponderExcluirArrebatadoramente belo!
ResponderExcluirUm êxtase de boa leitura.
ResponderExcluira maneira como decalcas o teu estado de espirito no texto é genial.
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