A minha vida contigo, ou contigo nela, foi sempre um carnaval. Anos a fio de um tortuoso desfile carnavalesco. Todos os dias me pedias uma máscara diferente. Querias que fosse a rapariga misteriosa a quem não poderias conhecer todos os segredos, para garantires que não perderias o interesse em mim porque teria sempre coisas novas para te contar. Mas esse miticismo não podias tu levar a casa para conhecer a tua mãe, então poliste-me arestas para que coubesse no disfarce a estrear no jantar de família em casa dos teus avós. Não me perguntaste se queria ir, deste-me corda como a um boneco e trataste primorosamente dos preparativos. Pintaste-me o rosto em tons claros, apagaste-me o riso porque dizias que o teu pai era de poucas expressões e ensinaste-me a pegar na caneta com a mão direita, não fosse a tua avó achar que eu era filha das trevas por não ser destra. Nos teus tempos livres, porque os tinhas em excesso, obrigaste-me a emagrecer para me poderes mostrar atleta aos amigos e escondias os papos debaixo dos meus olhos com torrões de purpurinas porque ai de quem sonhasse que me fazias chorar até a pele inchar. Ralhavas-me por não ser fotogénica, rolaste-me os olhos porque dizias que os meus tinham uma cor vulgar e proíbiste-me o guarda-roupa de saias curtas. Quiseste-me morena quando fui ruiva, loira quando te fui morena e pediste-me ruiva quando já não sabia de que cor estavam pintados os meus caracóis cansados. Já não sabia dizer de que cor estavam pintados os meus sonhos esquecidos. Cortaste-me o cabelo dois dedos acima da testa e fizeste-me usar um desfiladeiro de perucas que me faziam comichão no couro cabeludo e que descaíam de todas as vezes que inclinava a cabeça. Querias que ficasse quieta, que fosse alta, depois mais alta ainda, que tivesse peito, depois afinal já não, que não perdesse as curvas nas ancas mas que depois não fosse matrona. Todas as fantasias eram insuficientes para o teu ego e não te poupavas a trabalhos. Fizeste-me cozinheira nas tardes de domingo e massagista nas quartas-feiras em que jogavas futebol. Nas noites de sexo sem pudor enchias-me de alegorias como se o meu rosto não te bastasse. Atribuíste-me, ao longo dos meses, personagens e apelidos e vidas como se as nossas fossem aborrecidas demais para serem celebradas. Deixaste de me chamar pelo meu nome porque deixou de ser tão exótico como poderes-me chamar isto ou aquilo que te viesse à cabeça. Eras fiel à máscara que me fazias usar e perdeste-te de mim entre rebuscadas pinturas e robustas vestimentas. Não me perguntavas, pela altura do Entrudo, de que me iria mascarar. Saberias que a última palavra era tua e gozavas do momento como uma criança de confetis na mão. O feriado não era diferente de um qualquer outro dia - eu estava entregue às tuas tortuosas vontades e às tuas perturbadoras fantasias.Diminuiste-me, durante anos a fio, e fizeste-me sufocar na minha própria pele, como uma peruca que dá comichão. Cega entre brilhos e serpentinas achei que fazer-te feliz justificaria tudo o resto. Que um sorriso teu apagaria todas as más recordações, todos os rasgões na carne e cada cicatriz na alma. E quando, por fim, sorrias, ávido e satisfeito, a cena apenas se tornava mais sórdida. De todas as vezes esperei que fosse a última, achando que, eventualmente, irias sentir falta de mim. Eu sentia.
A minha vida contigo, ou contigo nela, foi sempre um carnaval. Esqueci-me da beleza desta festa como me tinha resignado da minha. Esqueci-me da felicidade da vida porque a minha contigo, ou contigo nela, foi sempre um Inferno.

Sempre detestei o carnaval.
ResponderExcluirnunca gostei de máscaras, nem as de argila!
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ResponderExcluirquem escreve usa sempre máscaras, há sempre um carnaval para os que escrevem.
ResponderExcluircomo já dizia Alguém, são uns 'fingidores'..
gostei bastante, para não variar :)
Este texto é uma obra de arte.
ResponderExcluirconcordo com o comentário de cima, este texto é mesmo uma obra Joana. *
ResponderExcluirDiz S.Paulo que "o Amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta". E Inferno não é Amor, nem tu és boneca de trapo. *
ResponderExcluir(também) Tenho demasiados carnavais na minha vida.
ResponderExcluirPorque é que na nossa vida há tantos carnavais? Talvez seja por termos um coração em demasia.
ResponderExcluirCoração em demasia... É de facto a razão para tudo isto.
ResponderExcluirTexto esplêndido.
Um texto divinal! Uau... fiquei rendida. Quantos de nós não andarão a comemorar o carnaval todos os dias? bjs
ResponderExcluirÉs divina e as tuas letras espelham isso naturalmente.
ResponderExcluirFico sempre sem palavras quando te leio. Tento seleccionar uma ou duas frases mas não consigo. Talvez por me identificar, mas principalmente pela forma como expressas tudo aquilo com que me identifico.
O mundo devia ler-te.
E digo-te com todo o coração(em demasia) que não estou a exagerar.
Vivências carnavalescas... quem nao as tem!
ResponderExcluir"Diminuiste-me, durante anos a fio, e fizeste-me sufocar na minha própria pele"
ADOREI, está fantástico!
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