sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Marte da Lua.

Da lua vê-se a tua casa. Distingue-se a ponta da casota do cão, espevitada como o seu temperamento obstinado, e de quando em quando uma nuvem rosa passeia-se entre o teu portão e o outro lado da rua. Deduzo que seja a tua mãe a perguntar as boas novas à D. Erminda, que tem a filha grávida de três raparigas e está muitas vezes à janela. Olha o nada, porque o tudo tem ela em casa. Berra numa das camas, segurando a barriga cheia e a mão do marido babado.
Da lua onde me deixaste, vê-se a tua casa. Pouco te vejo por lá, sais cedo e chegas quase sempre tarde. Quando os carros já descansam no que suponho ser a beira do passeio e as casas, ensonadas, se apagam. Não sei o que pensas quando não te adormeço as noites porque não mo dizes e eu não consigo ver bem de tão longe. Mergulho no Universo escuro e lavo a cara nas nuvens chuvosas, cor de prata, para tentar chegar a ti. Rasgar-te a pele nos dias em que te esqueces que a tens vestida, reluzente e apaixonante como ontem e como no dia anterior a ontem. E como no dia em que te conheci, muitos dias anteriores a esses. Tocar-te e deixar que me transformes em ouro, reluzente e apaixonante como a bonita pele que vestes. Ver-me nua, vestida na tua reluzente pele, meu amor.
E podia estar agora numa das camas da minha mãe, chorando dores como se nuvem, agarrada a uma redonda barriga, redonda como a lua, e uma mão esquecida. A tua, meu amor. Mas beijei dos teus lábios o céu e por cá fiquei. Daqui vê-se o tudo, porque mais nada importa. A tua casa e a ponta espevitada da casota do cão. O ronronar do teu carro pelo final do dia, adormecendo-me os dias pelo doce hábito de te saber de volta. Ao céu, onde mais nada importa. Ensonada como as casas da tua rua, apago-me com as estrelas da minha.

6 comentários:

  1. Joana Éme, este deve ter sido um dos textos mais bonitos que já li :') obrigada

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  2. e fez-me lembrar no filme "dennis o pimentinha", (via muitas vezes quando era pequena) quando a avó o vai tentar adormecer e lhe "canta" aquele poema lindo. não sei se conheces. mas lembrou-me muito isso :')

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  3. Lindo, lindo! Adorei! Vou voltar sempre para te ler! beijinhos :)

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  4. Quando parece que já escreveste sobre tudo, quando parece que não nos podes surpreender mais, tu fazes isto: superas-te.
    És um poço de inspiração e nasceste para escrever.

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  5. (suspiro)

    és bonita, joana.

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