sábado, 16 de janeiro de 2010

Cosmic Love. (*)

Abro a porta. Pouso a carteira no chão, perto da soleira de madeira. Há qualquer coisa de errado na sala, que me chama a atenção. Não sei dizer o que é, não sei ver onde está o intruso, como quando era miúda e descobria logo o círculo enfiado em meia dúzia de quadrados. Mas há aqui um sinal, um prenúncio, só não estou a ver bem. Olho a estante.. ali. Faltam as tuas colecções de CDs. Cruzo a sala com o olhar, até à parede oposta.. ali. A tua mochila não está pousada ao canto, como sempre que chegas e abres a porta.
Apresso-me na direcção do teu quarto. Ali. O coração troca o passo, trepa a minha garganta de ansiedade. Dispo o casaco sem querer, os braços vão caídos e avanço como um fantasma. Aterrorizada, apenas oiço o eco das minhas solas no soalho gasto. A porta está entreaberta, vejo-te debruçado na cama, a tua mochila aberta em cima da cama como uma boca faminta. Viras-te para a secretária no momento em que entro:
- O que estás a fazer?
Rodo o corpo sob um pé, devagar, vejo o teu quarto em 360º. Onde estão as tuas camisolas preferidas? O blusão está fora do armário e cá dentro está quente. Os teus livros estão na mochila, aquilo é o teu fim-de-semana?
- As malas.
Ignoro a resposta. Não sei se a ouvi, se a quero ter ouvido. Corro para o quarto de banho. A minha escova dos dentes está ridiculamente sozinha, virada para a parede como que amuada. Desamparada num copo demasiado grande, como que chorando às escondidas da ausência das tuas coisas. Abro as gavetas. Nada. O meu pente, as minhas bijuterias. Mergulho os dedos nos meus pincéis, os meus lápis dos olhos. Não está aqui mais nada. O vazio escorre por entre os dedos como água límpida. Sempre reclamei de espalhares as tuas coisas no lavatório, que tivesses cuidado de não misturares as nossas coisas - e nunca tiveste. Será que arrumaste hoje? Abro outra gaveta. Vazia. O pânico, como água suja nos meus pulmões. Não sei mais se respiro se me afogo.
Vejo-te do espelho. Pareces mais velho, o teu ar cansado repousa-te nas bochechas e faz-te rugas no canto da boca. O canto da tua bonita boca, volto-me para ti. Os teus olhos inexpressivos, não estou a ver bem..
- O que estás a fazer?
Inclinas um pouco a cabeça para a esquerda. Tens o blusão num braço, a mochila cai-te do outro. Abraças-me.
- Não posso ficar mais.
Inspiro fundo. O teu cheiro repousa no meu lábio superior, a minha língua alcança-o numa dança possessiva. Agarro as tuas costas largas com as minhas pequenas mãos. Não sei mais se respiro se me afogo. Procuro-te e estás ainda nos meus braços. Ainda, não mais.
Fechas a porta atrás de ti. A minha carteira está pousada perto da soleira de madeira. O meu casaco a meio caminho do ainda teu quarto. O não mais teu quarto. Rodo o corpo sob um pé, agonio em 360º. Sou escova de dentes desamparada, chorando a tua ausência numa casa demasiado grande. Ridiculamente sozinha, fizeste-me gaveta vazia. E o soalho não conheceu outro som senão o baque do meu corpo ruindo. O coração, carrasco de ti, abre-se como uma boca faminta. Gritou o teu nome. O não mais teu nome, intruso.
(*) Florence and the Machine - Cosmic Love.

8 comentários:

  1. Simplesmente fantástico.
    Nem o leitor sabe se respira se se afoga, enquanto o lê.

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  2. Tu estás recheada de coisas boas, Joana.

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  3. a definição que tens para mim é a melhor. um dias montas este puzzle?

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  4. As imagens que crias são de outro mundo.
    Não conheço nenhuma escrita como a tua. E olha que eu até leio bastaste.
    Tens qualquer coisa de grandioso.

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  5. Eu juro, juro mesmo, que devorei os teus textos. Souberam-me melhor que Milka. A tua escrita é, sei lá, brilhante! Brilhante!

    Um beijinho de uma nova seguidora que vai ser chata chata chata e vai andar por aqui muuuito tempo.

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