domingo, 10 de janeiro de 2010

Amor amanteigado.

Fui bater ovos para a cozinha. É sempre assim de cada vez que ela parte, dá-me para fazer bolos. Quando a minha mãe chega a casa já fiz uma tarte, um bolo com cobertura e estou nas bolachas em formas de pessoas. Diz-me que vá estudar, respondo sem grande expressão que estou quase a acabar. Mas preparo o papel de alumínio para o salame. Sei que me olha com uma compaixão que não suporto, uma condescendência que ela não compreende.
- A Tânia já apanhou o avião?
- Já.
Há um momento aqui. Uma pausa, como se pensasse como me vai dizer que não tem mal, que não tarda ela volta ou num instante vou eu ter com ela. Mas não me dá a palmadinha nas costas - é minha mãe.
- Acho que exageraste nos ovos neste. Eu ajudo-te no salame.
Sorrio. Vamos passar o resto do dia a cozinhar doces. O meu irmão ganha o dia, diz que gosta mais dos que ficam amanteigados e que as bolachas em forma de gente são um bocadinho sórdidas porque lhes caem os membros. Sabe sem perguntar que a Tânia já partiu, é sempre assim de cada vez que ela vai embora - dá-me para fazer bolos. São a única coisa que me anima, nestes dias. Trazem um livro com instruções: faz assim, assim e depois assim. Ninguém me dá a receita para lidar com as partidas dela. Faz isto, isto, espera dez minutos e está feito, bonito e saboroso.
- Tenho saudades dela. De quem eu era quando ela estava sempre cá.
- Porque não tinhas de te esconder em formas e pinceis de cozinha para chorar?
- Sim.
Abraçou-me e deixou-me chorar sem fazer mais perguntas. Foi quando percebi que a tenho como a mim mesma.

À Tânia, em Londres,
Joana.

5 comentários:

  1. Nunca há receitas para sabermos como minimizar o sofrimento *

    ResponderExcluir
  2. de facto, parece que o que nos ajuda nos dias azedos são mesmo os doces *

    ResponderExcluir
  3. podes sempre passar a fazer as bolachas um dia antes, com ela.

    ResponderExcluir
  4. não há açucar suficiente que adoce os dias saudosos.

    ResponderExcluir
  5. ouh Joana Éme. sou tal e qual, açucar que me adoce estes dias, frios e saudosos acima de tudo. no final de contas, não ajuda em muito.


    mãe é mãe. "não tens que me contar. não tenho que saber tudo. promete-me só que o contas a alguém e não o guardas só para ti. só te faz mal, não te quero saber assim tão triste. confia em alguém, não tem que ser em mim." e abraçou-me enquanto chorava.

    ResponderExcluir