A minha avó senta-se com uma manta ao colo e insiste que pegue numa para as minhas pernas. Não tento explicar-lhe que estou bem assim, que não tenho frio, não me iria dar ouvidos. Pego noutra manta da sala. Sento-me ao seu lado, frente à lareira que crepita. Olha o fogo com uma seriedade de quem enfrenta uma pessoa sábia. Não se vira para mim quando me fala:
- Não tenhas medo do Amor, Joaninha.
Olho-a com a seriedade com que enfrenta o fogo. Não tento explicar-lhe que estou bem assim, que não tenho frio, não me iria dar ouvidos.
- O teu avô era uma pessoa muito abstracta. Teria de o ser, para me compreender. Teria de ter o seu mundo para se refugiar nas minhas noites de loucura. Teria de ser um artista de quando em quando, aluado nos seus delírios para que pudesse aceitar os meus. Nunca poderia pedir um Amor tão grande a alguém que não o sentisse em si também. Mesmo antes de me conhecer, ele era uma pessoa tão.. apaixonada. Pelas pessoas e as suas histórias. Pelo mundo que não chegou a ver, mas que julgou que sim. Tu entendes? O teu avô era uma pessoa muito abstracta. O teu avô era uma pessoa..
- Em demasia.
Interrompo-a de inconsciência. Falei como se para mim mesma.
- Em demasia, sim. Como eu.
Volta-se para mim, olha-me nos olhos. O seu rosto tem tanto para me contar, no silêncio que julguei ouvir.
- E como tu, Joaninha.
Não tento explicar-lhe que já não há rostos como antigamente, olhos que falam num silêncio audível. Não vou roubar-lhe a fé com que crê que ainda se ama como ela amou. Seria um golpe cruel, como foi para mim percebê-lo. Não me daria ouvidos se lhe dissesse, como se para mim mesma, que não vou encontrar alguém a quem possa exigir tanto. É simplesmente demasiado, percebe 'Vó?
- Eu não tenho medo do Amor. Eu tenho medo da falta dele.
Estala a língua no céu da boca uma vez, como quando diz «disparates!» muito destemidamente. Volta a olhar a lareira que crepita e sorri. Penso que talvez esteja a ver o avô. É uma pessoa muito abstracta, a minha avó.

Por vezes também penso se não estarei deslocado da época histórica em que deveria ter nascido. Mas não achariam os nossos antepassados o mesmo? São tempos esquisitos estes, eu acho...
ResponderExcluirTão bonito, mas sim já não se ama o amor da forma que a tua avó falou. Eu queria crer que sim, mas começo a achar que não....bjs
ResponderExcluirAs conversas com as avós são as melhores :)
ResponderExcluirouh Joana Éme:) que lindo.
ResponderExcluirparece que hoje em dia, estranho é as pessoas serem assim de paixão. sentirem paixão pelas pessoas e pelas coisas, pelo mundo, serem pessoas abstractas. é o que dizem de mim, ou pensam, que não são capazes de o dizer.
também sou em demasia, de paixões eu. pelas pessoas, pelo abstracto, pelo mundo
tal como tu Joana Éme querida
já tinha mil saudades
eish, e é lixado sentir assim, em demasia, claro, para os outros sempre em demasia, um extremo, e não ser correspondido. it really sucks!
Uma das maiores falhas humanas é ter medo de falhar. A maior perda é a de ter medo de perder.
ResponderExcluirTu não és abstrata Joaninha.
Este texto transporta tanta, tanta tornura Joana.
ResponderExcluiramar em demasia é algo que só determinados possuem. parece-me a mim que pertencemos a esse grupo :) *
ResponderExcluirás vezes pergunto-me se é justo nascer com coração em demasia. é justo eu querer mais que o outro? amar mais que o outro? querer um amor como o da tua avó e o outro não? não acho nada justo.
ResponderExcluirestou cansada de ser em demasia, não estás?
ou então, estou cansada de ser em demasia sozinha.
Fiquei cheia de vontade de pôr um link para este teu post no meu blog... posso? Revejo-me imenso nele! E admiro a forma como o escreveste!
ResponderExcluirMais vale ser em demasia e abstracta, sempre :)e há sempre alguém que te equilibre, vai aparecer *
ResponderExcluirtento sê-lo muitas vezes, mas so nos meus momentos de completa inlucidez é que o consigo. obrigada:)
ResponderExcluirgostei muito deste teu texto , continua , vou seguir.
a objectividade está demasiado valorizada :)
ResponderExcluirtens genes dos bons, tu
ResponderExcluirSe calhar até estou porque partilho da demasia do teu coração. E ainda há amores assim, como o da tua avó, como os de antigamente. Eu acredito e não acomodo à maré de amores com letra minúscula.
ResponderExcluirTambém sou assim, abstracto, em demasia, ligado a paixões, pelas pessoas, pela vida, pelo mundo. Gostei tanto do texto, faz-me lembrar as conversas com a minha avó :)
ResponderExcluirBeijinho Joana
E bem vinda de volta!:D ja la vao uns dias, mas não tenho andado pelos blogs, de maneira que ainda não tinha reparado.
ResponderExcluirBem -vinda. (a tua avo e uma senhora que eu tenho muito desejo de conhecer, by the way.)
ResponderExcluir« Eu não tenho medo do Amor. Eu tenho medo da falta dele.»
ResponderExcluirTemos o mesmo medo pelos vistos.
És a maior (e a melhor) contadora de histórias*
"Teria de ter o seu mundo para se refugiar nas minhas noites de loucura."
ResponderExcluirFantástico!