Vejo-te passar na rua, pela janela do eléctrico, e há qualquer coisa em ti que me intriga. Não sei se a tua postura, caminhas mais direito, se o teu ar concentrado até quando distraído. Diria que vais sempre a pensar na tua política, na tua música, numa qualquer decisão vitalícia. Talvez vás comprar casa ou casar. Na volta queres deixar a tua mulher e não sabes como lho dizer. Daí que não, não deves ter uma mulher que digas tua. Que se diga, ela própria, tua. Sorrio com malícia, há coisas que nunca mudam. Mas há qualquer coisa em ti que me intriga, brinco com o cabelo, indagando. Tens o teu mais curto, vê-se melhor a tua cara hexagonal e os teus lábios finos, muito fechados e franzidos como rugas de testa.Quando passares e me lembrar de há quanto não te via, como agora caminhas mais direito e tens o cabelo mais curto, vou reparar que estás mais crescido. É isso, névoa de ti, agora que passaste: estás muito mais crescido desde a última vez que te vi.
Seguro a boina que teima em fugir nas curvas, os caracóis rebelam-se e brinco com eles, ainda pensativa: nunca passarás de um menino para mim, um garoto de ar sempre sério que me intriga ao passar.

Este texto está tão envolvente, J.
ResponderExcluirA mulher no eléctrico traz um mistério, um querer saber - como o que ela sente do garoto que observa - e leio o que ela pensa, analiso a sua expressão, os gestos que descreves, na procura de algo mais em cada um. São parecidos, eles - talvez de mais. A mulher que vemos, o garoto que ela vê. A fugacidade de um encontro no eléctrico. A fugacidade do tempo que passa - até o garoto cresceu desde a última vez que se viram. Ou será só intriga, ilusão?
Admiro a tua escrita. Admiro-te. *
Desde texto fica um mistério. Quase consigo imaginar a mulher do eléctrico e o menino dela a passar.
ResponderExcluirGostei bastante!
ResponderExcluirÀs vezes as ilusões devem permanecer assim: como ilusões.
beijinhos
"Sorrio com malícia, há coisas que nunca mudam."
ResponderExcluirgostei tanto da malícia, da intriga da menina do eléctrico, Joana Éme. O teu texto fez-me também lembrar uma música da Mafalda Veiga. é impressão minha?
Paixões platónicas? Mistério? Não há nada mais intenso. Os teus textos, no entanto, andam bem lá perto! Fazes arte *
ResponderExcluirVou seguir o tu blog :)
ResponderExcluirÉ sempre uma delícia ler-te.
ResponderExcluirEscolheste muito bem a imagem :)
já tive oportunidade de ler alguns dos teus post e gostei. Este é daqueles que concerteza já aconteceu a várias pessoas!
ResponderExcluirAo ler os teus textos, por vezes fico na dúvida onde acaba a ficção e entra mais a realidade. :D
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