Consigo imaginar a cena como se se passasse na minha frente.
Sobe o pano, estás debruçada na cama pequena. Abres uma mala grande, de rodinhas, embrulhas roupa com o cuidado que sempre me faltou. Vais berrar com a tua irmã, porque não sabes onde ela deixou o casaco preto que tanto gostas e que tantas vezes lhe emprestas - o jeito que não te vai fazer e logo agora não dás com ele! Vais atirar as mãos para a roupa embalada, socos em algodão dobrado com o cuidado de que sempre careci e em jeito do dramatismo que tanto nos caracteriza. Podia jurar ter ouvido um rugido, ou um parente pobre de um, enquanto soqueias a roupa para levar. Pensas como é possível que ninguém se dê conta como é importante o casaco - até nem sendo. Na verdade estás irritada só porque ninguém te deu um abraço e te disse que vão sentir a tua falta, tens outro casaco que serve perfeitamente. A tua irmã vai aparecer vinda da cozinha, as mãos ainda besuntadas de manteiga espessa, diz que te estava a preparar um bolo mas agora, arreliada com a tua barafunda, diz que nem mereces e que ainda bem que te vais embora. Continuas a dobrar roupa zangada, pegas no telemóvel e escreves-me uma mensagem à pressa para me contares como «esta gente não existe, M!». Vou sorrir, dizer que te mando um abraço e que estou, como tu, zangada. Perguntarás de quê, enquanto mentalmente revês que só te falta arrumar o fim-de-semana mas queres primeiro dar uma última escovadela aos dentes. «Estou zangada porque te vais embora e vou ter saudades tuas». Sorris, com a escova de dentes ao canto da boca. Uma lágrima passeia-se lá perto. O teu pai vai aparecer na porta, que te apresses. A tua mãe está sentada na sala, ainda não sabe se finja que não é nada, isto de te ires embora, se chore e te diga que estarás sempre ali, sentada à mesa e vidrada no ecrã da televisão - a telechata da família. Vão ligar as madrinhas, as avós e as primas. Querem todas dizer-te que podes sempre passar lá em casa, almoçar um Domingo, pedir dinheiro emprestado sempre que precises e que não te acanhes. Vais agradecer com simpatia, alongar-te em conversas de telefone enquanto te debates se terás agasalhos suficientes na mala. O Inverno não tardará e não sabes quando voltas para empacotar mais, vais perguntar ao teu pai se podem fazer as entregas na casa em duas idas, porque não cabe tudo numa só e a mala é pequena, parece grande mas não é, enquanto tens o telefone entre o ombro e o queixo, como quando seguras o violino à pressa, explicas à avó Milu porque não tiveste média para o Porto, apesar de teres do teu lado todas as santinhas dela e as suas sagradas velas e rezas. Fazes tudo ao mesmo tempo, consigo imaginar. Vais fechar a mala com uma só mão, seguras com a outra o tampo porque a desgraçada não quer ceder ao Ziiiip! que se ouve, por fim - a mala está feita. Dás um chuto nas sapatilhas que não queres levar já e não tiveste tempo, ou pachorra, para arrumar, empurra-las para debaixo da cama. Corres para a cozinha, ajudas a tua irmã a acabar-te o doce. Brincam e pedes-lhe desculpa, vais chama-la pelo diminutivo e saber que ela vai ficar louca de saudades tuas. Estão todos zangados, sabes? Vais embora e deixas toda a gente louca de saudades tuas. Olhas o telemóvel de tempos a tempos. Não vou mandar mensagem. Ainda não me decidi se faça contigo a viagem para a tua nova casa, a tua nova vida. Não me decidi ainda se tenho força que chegue para lá entrar e sorrir, lágrima passeando-se perto, denunciando o medo que tenho de te perder. Vais embora e não sei se te quero dar as boas vindas na nova casa, na nova vida, onde vou pensar, logo à entrada, logo à partida, que não vou pertencer ou fazer parte. Fosse e sorriria um sorriso muito grande, dir-te-ia como é bonita e abriria contigo todas as janelas. Ajudar-te-ia, então, a arrumar as tuas trouxas, talvez lanchássemos lá perto para conhecer a zona. Regressaria com o teu pai, chorosa o caminho todo. É muito quilómetro para chorar, é muito medo para enfrentar - não vou mandar mensagem. Consigo imaginar a cena como se se passasse na minha frente. Vais falar com a mãe na sala, uma conversa longa e bonita, confirmar com o pai pela enésima vez que está tudo no carro, perguntar pela enésima terceira porque é que a Joana Mendes não vai connosco. «Numa próxima, tenho a certeza».
Cai o pano. Bem-vinda à tua nova casa, D. À tua nova vida.
Um sorriso muito, muito grande, de janela aberta.
De peito em ferida, também,
M.
Sobe o pano, estás debruçada na cama pequena. Abres uma mala grande, de rodinhas, embrulhas roupa com o cuidado que sempre me faltou. Vais berrar com a tua irmã, porque não sabes onde ela deixou o casaco preto que tanto gostas e que tantas vezes lhe emprestas - o jeito que não te vai fazer e logo agora não dás com ele! Vais atirar as mãos para a roupa embalada, socos em algodão dobrado com o cuidado de que sempre careci e em jeito do dramatismo que tanto nos caracteriza. Podia jurar ter ouvido um rugido, ou um parente pobre de um, enquanto soqueias a roupa para levar. Pensas como é possível que ninguém se dê conta como é importante o casaco - até nem sendo. Na verdade estás irritada só porque ninguém te deu um abraço e te disse que vão sentir a tua falta, tens outro casaco que serve perfeitamente. A tua irmã vai aparecer vinda da cozinha, as mãos ainda besuntadas de manteiga espessa, diz que te estava a preparar um bolo mas agora, arreliada com a tua barafunda, diz que nem mereces e que ainda bem que te vais embora. Continuas a dobrar roupa zangada, pegas no telemóvel e escreves-me uma mensagem à pressa para me contares como «esta gente não existe, M!». Vou sorrir, dizer que te mando um abraço e que estou, como tu, zangada. Perguntarás de quê, enquanto mentalmente revês que só te falta arrumar o fim-de-semana mas queres primeiro dar uma última escovadela aos dentes. «Estou zangada porque te vais embora e vou ter saudades tuas». Sorris, com a escova de dentes ao canto da boca. Uma lágrima passeia-se lá perto. O teu pai vai aparecer na porta, que te apresses. A tua mãe está sentada na sala, ainda não sabe se finja que não é nada, isto de te ires embora, se chore e te diga que estarás sempre ali, sentada à mesa e vidrada no ecrã da televisão - a telechata da família. Vão ligar as madrinhas, as avós e as primas. Querem todas dizer-te que podes sempre passar lá em casa, almoçar um Domingo, pedir dinheiro emprestado sempre que precises e que não te acanhes. Vais agradecer com simpatia, alongar-te em conversas de telefone enquanto te debates se terás agasalhos suficientes na mala. O Inverno não tardará e não sabes quando voltas para empacotar mais, vais perguntar ao teu pai se podem fazer as entregas na casa em duas idas, porque não cabe tudo numa só e a mala é pequena, parece grande mas não é, enquanto tens o telefone entre o ombro e o queixo, como quando seguras o violino à pressa, explicas à avó Milu porque não tiveste média para o Porto, apesar de teres do teu lado todas as santinhas dela e as suas sagradas velas e rezas. Fazes tudo ao mesmo tempo, consigo imaginar. Vais fechar a mala com uma só mão, seguras com a outra o tampo porque a desgraçada não quer ceder ao Ziiiip! que se ouve, por fim - a mala está feita. Dás um chuto nas sapatilhas que não queres levar já e não tiveste tempo, ou pachorra, para arrumar, empurra-las para debaixo da cama. Corres para a cozinha, ajudas a tua irmã a acabar-te o doce. Brincam e pedes-lhe desculpa, vais chama-la pelo diminutivo e saber que ela vai ficar louca de saudades tuas. Estão todos zangados, sabes? Vais embora e deixas toda a gente louca de saudades tuas. Olhas o telemóvel de tempos a tempos. Não vou mandar mensagem. Ainda não me decidi se faça contigo a viagem para a tua nova casa, a tua nova vida. Não me decidi ainda se tenho força que chegue para lá entrar e sorrir, lágrima passeando-se perto, denunciando o medo que tenho de te perder. Vais embora e não sei se te quero dar as boas vindas na nova casa, na nova vida, onde vou pensar, logo à entrada, logo à partida, que não vou pertencer ou fazer parte. Fosse e sorriria um sorriso muito grande, dir-te-ia como é bonita e abriria contigo todas as janelas. Ajudar-te-ia, então, a arrumar as tuas trouxas, talvez lanchássemos lá perto para conhecer a zona. Regressaria com o teu pai, chorosa o caminho todo. É muito quilómetro para chorar, é muito medo para enfrentar - não vou mandar mensagem. Consigo imaginar a cena como se se passasse na minha frente. Vais falar com a mãe na sala, uma conversa longa e bonita, confirmar com o pai pela enésima vez que está tudo no carro, perguntar pela enésima terceira porque é que a Joana Mendes não vai connosco. «Numa próxima, tenho a certeza».
Cai o pano. Bem-vinda à tua nova casa, D. À tua nova vida.
Um sorriso muito, muito grande, de janela aberta.
De peito em ferida, também,
M.

E que bonito, Joana. E digo-o não pelo texto, que como sempre nos deixa rendidos, mas pelo sentimento que te vai no coração.
ResponderExcluirNem sempre a vida permite que tenhamos junto de nós aqueles de quem gostamos. Ou não com a proximidade com que gostaríamos. Por vezes as suas vidas apelam por novos rumos e temos de deixá-los ir, de coração aberto e sorriso rasgado, e com a certeza, porém, de que nem a distância poderá esmorecer o amor que lhes temos.
Tenho a certeza que haverá sempre lugar para ti na nova vida da tua amiga, e em todas as que o destilho lhe impuser.
Beijinho**
Oh Joana Éme, vejo o que sentes, senti tudo o que escreves-te.
ResponderExcluirEla vai-se embora, mas não te vai esquecer, querida, ela vai ter-te sempre contigo. Às vezes, por amor aos que mais gostamos, temos que impor um sorriso na cara e tapar as lágrimas. Por alguma razão, a vida trai-nos e tira de ao pé de nós quem nos é mais querido. Mas Joana, julgo que sabes, e melhor que eu, que ela estará sempre ansiosamente à tua espera, tal como tu à espera de ver voltar a tua grande amiga, e que terá sempre a porta da sua nova casa, da sua nova vida bem aberta para entrares.
Um beijinho Joana Éme, boa noite
Até a mim me dói. Puseste toda a gente com saudades. E essa tua escrita...Meu Deus...
ResponderExcluirTens de mandar mensagem.
ResponderExcluirTens de entrar comigo naquela casa.
(Tenho medo, Joana. Tenho medo e o peito em ferida, também.)
Vais ficar sempre, em cada minha nova vida, ouviste? @