A manhã branca interrompe-lhe o sono sem pedir licença. Espreguiça-se nos seus braços longos, acorda-lhe as pestanas ainda pintadas de um negro-noite.Quer levantar-se apenas quando tiver descoberto o sentido de ver, uma outra vez, o sol interrompendo o sono sem pedir licença. O mesmo sol que, não sei se amarelo se cor de lâmpada, não se detém nas persianas semi-abertas, semi-fechadas.
Ela adormecera com alguém e acordara sozinha, sabe-o. Não se assusta nem procura bilhetes. Não vai olhar o atendedor de chamadas e esperar ver piscando um número qualquer, um «1» que seja, ouvindo "Desculpa querida, volto para tomar pequeno almoço contigo". Não vai confirmar que levara tudo que lhe pertencia consigo, o blazer escuro, os boxers às riscas - e que deixara a carteira dela onde ela a pousara na noite passada, entre brindes e beijos frescos como a manhã que interrompe o seu sono sem pedir licença. Não iria chorar, como tantas outras vezes, a dor de um corpo solitário e um cheiro a perfume de homem pela casa, nem quando visse que o filho da mãe teve a lata de beber leite directamente do pacote e deixá-lo fora do frigorífico. Os homens são como bichos de hábito, não a iria surpreender.
Queria levantar-se só quando percebesse porque se deita tentando amar bichos, em vez de acordar amando-se a si própria.
Espreguiçou-se com o sol três anos depois.
Escrito a 18.3.09. Poderia ter sido hoje.

Esse texto será sempre intemporal, poderás sempre encontrar «bichos».
ResponderExcluir(Desculpa-me o que tevou dizer por saber que é contra a tua natureza, não ter a certeza de estar certo e, principalmente, por só a ti dizer respeito, mas acho que não devias seguir o primeiro impulso do teu Coração. Merece melhor.)
«Queria levantar-se só quando percebesse porque se deita tentando amar bichos, em vez de acordar amando-se a si própria.»
ResponderExcluirqueria fazer exactamente o mesmo hoje pela manhã
queria fazer exactamente o mesmo há muito tempo atrás.
há coisas que não mudam e que, com muita pena, temos de aprender a contornar
dói faze-lo