Ninguém conhece a nossa história melhor que nós mesmos. A sabedoria de bocas alheias resigna-se aos palpites e opiniões, mais ou menos certeiros. A mágoa, meu amor, é infiel à memória. Essa esquece-se, quantas vezes, dos factos, porque fantasias a aliciam em ilusões tão mais doces, tão mais fáceis. Tão mais compreensíveis. Porque a realidade não o é, compreensível.E a realidade é a de não sermos mais um nós. É de ser eu e seres tu e sermos, eventualmente, felizes - mas não juntos. E a nossa história, a que tivemos, fica-nos na memória. Na dor, na lembrança agridoce. Porque o é - traiçoeira, crua, vã.
Sei como te sentes quando adormeces sem mim. Nas noites infindas e brancas, como se um clarão ardente a vista te cingisse. Nâo vês nada mais que não o meu corpo, os meus dedos em páginas de romances, os que te lia pelo anoitecer. Nada vês que não o meu cabelo molhado, então mais liso que o habitual, cantando no chuveiro pela manhã. Sei porque não dormes e porque não queres dormir. Sei que temes a noite quase tanto como choras a minha ausência. Sei - sinto-o também, alucinada por insónias e olheiras, nas pálpebras dos olhos e nas pálpebras do coração. Porque o meu não fecha mais os olhos. O meu coração não dorme, não descansa, não pestaneja. Mas não vê.
Meu amor, o meu coração já não te vê!
Há só o clarão forte e a memória traiçoeira, aliciando-me em ilusões de noites bem dormidas. E o pânico de me saber sem ti.

São as ilusões que trazem o pânico. Só mesmo as ilusões, porque são estas que turvam as memórias e mostram apenas o que tanta falta faz - com mestria, tenho de acrescentar.
ResponderExcluirO que doeu parece pouco, porque há a saudade. O que desiludiu é esquecido, porque há a memória traiçoeira. Mas, arrumando bem a casa, deitando pela janela as safadas das ilusões, fica o coração - aquele que já não vê! e parte para outra história.
Muito bonito! :)
ResponderExcluirEsse pânico atormenta duma forma impossivel de descrever. Mas as soluções são duas, ou um regresso, ou um corte definitivo. A indifinição só faz sofrer cada vez mais. Embora, se tiveres uma esperança, por mais pequena que seja, agarra-te a ela com tudo o que tens. O que se poder ganhar supera de longe o que se sofre.
ResponderExcluirPois panico. E estaras mesmo a saber te sosinha? ou não será uma ilusao tambem isso? Se fosse real nao escreverias isto. Força um dia perdes o panico e encontras paz e sorrisos.assim espero pelo menos
ResponderExcluirabraço
«(...) alucinada por insónias e olheiras, nas pálpebras dos olhos e nas pálpebras do coração. Porque o meu não fecha mais os olhos. O meu coração não dorme, não descansa, não pestaneja. Mas não vê».
ResponderExcluirUm dia hei-de saber fazer anologias destas *.*
"Há só o clarão forte e a memória traiçoeira, aliciando-me em ilusões de noites bem dormidas. E o pânico de me saber sem ti."
ResponderExcluirmeu deus. foi dos melhores textos que li até hoje, não só teus, mas também se encontra no meio dos de fernando pessoa. adorei, c-o-m-p-l-e-t-a-m-e-n-t-e.
«Meu amor, o meu coração já não te vê!
ResponderExcluirHá só o clarão forte e a memória traiçoeira, aliciando-me em ilusões de noites bem dormidas. E o pânico de me saber sem ti.»
És linda na escrita (e fora dela)
Não queiras saber do meu pânico tão frequente por essa tomada de consciência que descreveste tão bem
«Sei - sinto-o também, alucinada por insónias e olheiras, nas pálpebras dos olhos e nas pálpebras do coração. Porque o meu não fecha mais os olhos. O meu coração não dorme, não descansa, não pestaneja. Mas não vê». - destaco-a, por a achar genial.
ResponderExcluirÉs oficialmente uma poeta, Joana.