Imagino-te rodando as chaves de casa sem falares logo. Espreitas pela porta entreaberta da cozinha. Primeiro a tua mão, as unhas delicadamente cuidadas de um lilás vivo, depois a tua cabeça. Despontam, acima das tuas orelhas pequenas, cabelos finos que fogem ao rabo-de-cavalo que te faz parecer mais velha. Ganchos que te prendem a juventude em firmes madeixas seguras. Vês-me remexer qualquer coisa na panela, há um odor adocicado pela casa, procuras os bolos em cima da mesa. Tenho cara de poucos amigos e vais-me sorrir antes de falares, imagino.
- Ainda bem que chegaste!, suspiro, soltando a colher da panela.
Vais querer provar, perguntar o que é, ignorando as minhas rugas nos olhos, as minhas rugas na testa. Aquelas, de quando estou com um humor de poucos amigos, imagina.
- Fizeste bolo de chocolate?! Estás tu com cara de muitos amigos, uma mão cheia deles, um ânimo de criança na tua voz.
- Não encontro a minha sebenta! Fui ontem paga-la à faculdade, pousei-a na mesa da sala e já lá não está! Estou eu de poucos amigos, rugas nos olhos e rugas na testa.
A tua resposta é pronta, animada:
- Eu ajudo-te a procurar, não deves ter visto bem.
Oh, como me deixa fula quando dizes essas coisas. É claro que vi bem! Vi muitas vezes, vi muito bem, já lá não está! Ai se foi o diabo do gato...
- Se o Moisés ma roeu, como fez com a de Bioquímica, juro que o rifo!
Ris-te. Sabes como adoro o pequeno, gabando-me que ele prefere sempre dormir aos meus pés e não aos teus. Voltas para a cozinha, deixando-me a revolver almofada atrás de manta e de folhas soltas, umas minhas outras tuas. As tuas a preto-gel, as minhas a azul-bic. Queixo-me da desarrumação como se não fosse minha, diminuis o fogão para o mínimo.
Imagino-te voltando para a sala para me veres sentada no chão, cabisbaixa e exageradamente pessimista:
- Vou reprovar.
Outra vez aquele teu sorriso. Vivo, como o verniz lilás. Pareces mais nova quando sorris, até de cabelo preso.
Sentas-te ao meu lado. Respiras fundo, como se te preparasses para confirmar o que disse. Pareces medir as palavras, abanas a cabeça em trejeito de desilusão.
- A sopa está uma porcaria, Joana.
Imagino-me rindo-me do teu tom irónico, a tua voz de suspiro trágico. Haveríamos de ir rapar a sopa do fundo da panela, esforços heróicos e cuidado para não estragar também as colheres. Improvisaríamos algo para jantar - provavelmente atum - antes de eu ir passar a roupa a ferro e lembrar-te da caca do gato.
Sim, é isso que eu imagino quando o trânsito está impossível e não estás no lugar do passageiro para me ouvir cantar.

The point is: tu deixas-me sem palavras. E eu fico toda olhinhos-a-brilhar, porque me contas coisas bonitas - como eu sonho, Joana!
ResponderExcluirEu vejo-nos tão assim! O meu chegar a casa, que tenta ser silencioso, mas acaba sempre num encontrão num móvel ou cadeira qualquer, como quando vou ao quarto-de-banho a meio da noite. O cheirinho dos teus doces, que começa na cozinha e se espalha pela casa. O teu pessimismo tolo - ainda pior do que o meu! O meu passar-a-pasta no que toca a passar a roupa a ferro, mas a contrapartida de ficar com as limpezas da porcaria que o gato faz. Vejo-te a mandar vir, quando não encontras o tal livro, que teimas que foi o gato a roer - como se ele o fizesse desaparecer assim, trenga! Ao domingo vou acordar-te com o almoço, porque te rendes à preguiça. Pelo fim da tarde, páro no estudo, só porque te ouço a cantar da sala ou do banho, como quando vamos de carro e eu adoro. Quando vier do super, vou trazer bolachas de chocolate, para te ver toda olhinhos-a-brilhar, também. E vou mandar vir com o trabalho da faculdade, porque "não temos vida!".
Mas temos. E a que sonho, contigo, é a mais doce que consigo imaginar.
Gosto tanto de ti, Joana M. ') *
Joana Éme, tu encantas-me.
ResponderExcluir:)