segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ao volante de um Fiat amarelo.

"A primeira vez que fizemos amor ele pegou no meu corpo como se fosse uma extensão do seu. Movimentos que se afinam com o tempo, como aqueles pares nas danças de salão, o corpo que desliza no corpo do outro na antecipação precisa, matemática, do gesto que vem a seguir. Na sua boca fiquei com a ideia de ter esvaziado a alma. Havia suor nas costas dele e a minha mão chegava onde nunca antes tinha chegado. Não houve fim, apenas um suspiro de cansaço e uma espécie de sono onde me guardou. Um abraço que eu não quis perder.
Não houve uma conversa sobre nada, sobre nós, sobre a vida ou o futuro. Aquele exercício costumeiro de apurar a disponibilidade do outro para a conjugalidade foi evitado com aprumo, num acordo silencioso que implicava a aceitação do passado e uma fraquíssima expectativa face ao que vem depois.
O silêncio dele completou o meu e, como duas peças a tentar encaixar, devagar, os dias foram-se seguindo. Nunca pensei que o amasse. Nunca achei que me deixasse. Como a Anya e a Michelle nos deixaram ao volante de um Fiat amarelo:
Quem é que está a dirigir esta coisa?"
Patrícia Reis in «Morder-te o coração».

6 comentários:

  1. God! Gosto do q escreves e gosto do q citas.
    :)

    ResponderExcluir
  2. Livro interessante, muito mesmo. Tenho-o ali na minha estante, ou terei emprestado a alguém?!

    ResponderExcluir
  3. Uma amiga minha leu esse livro já há uns tempos. Disse que ficou viciada e, pelo que vejo aqui, tinha razões.
    Gostei muito

    ResponderExcluir
  4. Não conhecia, mas parece-me um bom livro.

    ResponderExcluir