sábado, 12 de setembro de 2009

Talvez mais logo.

Ligas e desligas. Queres saber de mim, afinal tens de ir não sei onde. Queres contar de ti, mas agora tens de ir fazer não sei o quê. Pedes-me que te ligue mais logo, para não me atenderes. Seguro o telefone perto do ouvido, horas sem tempo finito, oiço um "tu, tu, tu" letárgico. Lembro-me que assim não consegues fazer a ligação. Deixo o telefone de vez, não marcas o meu número do outro lado da linha. Juras-me castelos e desfazes promessas com a destreza de mercenários. Dizes gostar de me ver de vestido mas criticas-me as pernas. Chamas-me para me mandar embora. Gostas de me ver sorridente e odeias o meu sorriso. Abraças-me, procuras um beijo nos meus lábios sedosos de ti. Beijas-me uma e outra vez para te despedires às três e quatro pancadas. Beijas-me para quereres uma terceira vez mas nunca há terceiras vezes contigo. Fica tudo pela primeira, fica tudo pela metade. Desconheces o gosto pelas vozes plurais. Vozes que não a tua, letárgica como um "tu, tu, tu" telefónico. Avanças um passo e recuas dois. És avalanche interrompida, manada que cessa caminho. Dizes-te valente e vejo-te cobarde. Corres na minha direcção para fugires em círculos intermináveis enquanto te procuras. Sim, dizes que é a mim que queres encontrar mas enganas-te. Erras, porque erramos todos. Meditas nos teus erros, nos teus medos, não mos confias. Dizes-te destemido e sei-te aterrorizado. Condenas-me a insegurança e és tu quem balança. Não gostas de relações, não queres compromissos. Não queres casualidades, também. Não te entregas sem coração nem alma e dizes tê-los demasiado ocupados. Agora não porque vais não sei onde. Agora não porque não tens cabeça. Tens sempre desculpa, e a mim nunca me perdoas. Nas tuas mãos sou brinquedo de roda, bola saltitante. Cá e lá, perto e longe de ti. Pões-me defeitos para não me veres perfeita. Receias ver-me perfeita. Surpreendes-te com os meus segredos e revogas-te contra o facto de não me conheceres por inteiro. Ligas para me conhecer então e desligas. Tens de ir não sei onde e o coração e a alma estão ocupados. Do outro lado da linha, fecho os olhos cansados da prova de fogo a que, todos os dias, me sujeitas. Cansada de todos os jogos labirínticos, todos os testes viciados num fracasso e ziguezagues emocionais, arranco o fio da linha telefónica. Agora não que tenho de ir fazer não sei o quê que me ocupe alma e coração.

6 comentários:

  1. Sabes uma coisa? acabaste de descrever o meu passado bem recente.
    Agora, ocupa o coração e a alma, quando deres por ti ele já voltou, já percebeu que não tem o direito de brincar contigo e já te vê perfeita :') *

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  2. uau Joana Éme. Fui parecida, em tempos.

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  3. Hoje não. Para já não. E tu pendurada.

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  4. Esse fio estava estragado, só funcionava para um dos lados, fizeste bem em arrancá-lo. Agora, quando fores fazer não sei o quê, assegura-te da qualidade da ligação.

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  5. «Não gostas de relações, não queres compromissos»

    Identifiquei-me tanto Joana!
    Não te sentes cansada com todos estes jogos, com toda essa capacidade que têm de não amar?
    Chega a ser ridículo.

    adoro a tua escrita e nunca me vou cansar de o dizer
    tens classe*

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