quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Cara e coroa.

Encontramo-nos a primeira vez no banco. Eu estava nervosa, batendo o pé, atrapalhada com o fecho da carteira encravado. Estarias tu duas ou três pessoas atrás de mim, calmo e contemplativo. Haverias de tirar a carteira na última, só quando o senhor do outro lado do balcão te pedisse documentação, já eu estava com os papéis entre os dedos trémulos, nervosa, ansiosa. Odeio filas, a espera enfurece-me os nervos. O raio do fecho não avança e puxo com mais força. Tanta que rodo a carteira, o encantamento quebra-se, ela abre-se no chão, tralha aos pés de pessoas em fila. Olham-me com curiosidade, tomam-me por desastrada e tomo-me por transparente. Agarro o batom, a caixa de tampões e a carteira. Fugiu o meu telemóvel não sei para onde, bato o pé de nervosismo e ansiedade, penso no quanto quero sair dali. Aproximaste-te de mim a passos curtos, mas firmes. Seguravas o meu telemóvel com a mão direita, a esquerda pousaste-a no meu braço. Não tremias, no lugar das minhas rugas de expressão estava o teu sorriso rasgado. Ajudaste-me a recompor-me, atrapalhada, envergonhada. Saímos nessa mesma tarde. Passeamos como se nos conhecêssemos desde tempos de escola e quiséssemos saber um do outro por saudade nostálgica. Não sei pelo que foi, mas quis saber de ti. Soube dos teus gostos, interesses, passatempos, hábitos. Não gostas de carros grandes, género banheira, e assustas-te com muito pouco ou quase nada. Contigo o sexo é bom e o amor é fácil. Como se trocasses as voltas de uma moeda, contigo cara é coroa e o mundo gira ao contrário de todas as vezes que damos a mão. Gostas de passear sem destino e arrepias-te quando desenho, com os meus dedos trémulos, mapas na tua barriga. Mapas das nossas vidas. Sorrio de todas as vezes que me lembro que a primeira vez que nos encontramos, amor, foi na fila de espera no banco. Não diria então que serias o amor da minha vida e não o digo ainda. Às vezes, meu amor, as palavras só vêm atrapalhar. Como fechos de carteira encravados, enfurecem os nervos.

9 comentários:

  1. uau Joana Éme. tenho andado meia ausente, mas os teus textos fazem-me sempre parar no momento. só tenho em que te agradecer:)

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  2. tenho evitado textos de amor feliz e simples. ao perceber que era disso que o teu tratava, tentei parar e ficar por ai. fugimos todos da dor, sei-o bem. mas ler-te não me magoou, fez-me sorrir e deu-me alento e esperança dum amor maior, risonho e simples. obrigada :D

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  3. Tens razão Joana, às vezes as palavras só atrapalham. Mas aqui, e mais uma vez a falar sobré ti, transformaste as palavras em arte até ganharem magia. Espero que ela agora salta do texto e te acompanhe. :)

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  4. Às vezes as palavras ajudam, porque o que atrapalha mesmo são as emoções... essas que o coração desconhece e o pensamento sente inveja.
    Ele foi o primeiro, mas não será o último. Graças a Deus.

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  5. Por vezes encontramos o amor das nossas vidas da forma mais improvável e as palavras, na tentativa de explicação, só vêm atrapalhar. Dá-lhe a mão e sente o mundo girar ao contrário =D

    beijinho

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  6. conciso e concreto - bom texto, Joana Mendes :)

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  7. Realidade ou Ficção, sinceramente nao me importa. Só a tua capacidade de fazer fluir as palvras na minha mente dessa forma, como se estivesse lá, fez valer a visita :) Parabéns!

    A vida é feita de momentos impensáveis e o amor é um momento :)

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