sexta-feira, 24 de julho de 2009

A carta que nunca te escrevi, Pedro.

Desculpa escrever-te para esta morada, mas não sei mais onde te encontrar. Ainda tenho o teu número, sim, mas não tenho mais coragem para o marcar e ouvir-te atender, partindo do princípio que, heroicamente, o farias. Perdoa-me o sarcasmo, hoje estou amarga. É que vendi agora o nosso apartamento minúsculo ao tal casalinho que te falei. Recém-casados e ainda a estudar, acho que são capazes de reavivar as nossas felizes memórias ali. Porque as tivemos, ainda diz a D. Júlia. Perguntaram-me porque nunca falaram contigo, enquanto processavam o aluguer. Disse-lhes que viajavas muito, não lhes devemos justificações não é?
De qualquer das formas, já temos o dinheirinho da casa e envio-te metade, conforme o combinado. Esta repartição de bens lembra um pouco o divórcio, a nossa separação é quase de casal, cá dentro. Sim, cá dentro - onde moram os sentimentos. Num apartamento minúsculo que tantas vezes disse, brincando, que não tinhas. Sem-abrigo, chamava-te em tom de troça. Faltava-te, dizia eu, o que eu tenho em ponto grande, uma mansão de coração e uma confusão de sentimentos. Gostava de te poder enviar, juntamente com a parte financeira que te pertence, essa mansão. Também ela te pertence, querido Pedro. Perdoa-me as metáforas, hoje estou amarga. É que me lembrei que te esperei para padrinho dos meus filhos, me vi madrinha dos teus. Os meus haveriam de ser virados para as Artes, os teus para a Música. Passaríamos dias pré-natais a escolher nomes para as crianças. As tuas afilhadas. Sim, porque eu sempre quis meninas. Os meus afilhados. O bom da língua portuguesa é poder-se empregar o masculino plural e englobar-se, sem desconsiderar, o feminino. Sempre te imaginei com um casalinho, talvez três rebentos para me contrariar as previsões. Sempre te achei previsível e sempre me quiseste contrariar, Pedrinho. Foi por isso que te foste embora? Aborreceram-te as minhas lengalengas. Não me alongo mais, não te quero maçar agora também - vim só entregar a parte que te pertence. A financeira, entenda-se. A outra não ma receberias, bem sei. A mansão de coração que ainda te espera, com a caixa de bolinhos da D. Júlia nas mãos e o telefone nos joelhos. Tivesse eu coragem para te ligar, tivesses tu coragem para me atender.
Pelo menos sabemos que o nosso apartamento minúsculo está bem entregue. Vão fazer bem uso dele, como nós soubemos fazer, teve vezes. Quem dera que saibam melhor, não é assim? Talvez saibam, ela não me parece apreciadora de lengalengas nem ele ouve Bob Marley.
Lembra-te, de quando em quando, sim? Pelo Natal, que seja. Eu, por cá, espero que estejas bem pela faculdade, que continues a tocar guitarra pelos tempos livres. Se ainda esperas um livro meu, como em tempos, senta-te, meu querido - ando amarga.
Um beijo,


Joana.

PS. Ainda te posso chamar pela alcunha que partilhavas com Charles Darwin, quando pensar em ti?

10 comentários:

  1. fiquei um tanto quanto amarg(urad)a. Mas gostei muito da tua escrita neste *

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  2. Seria um prazer para mim ser citada por ti.

    Eu também...

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  3. Tens um coração bom, Joaninha. Só gostava que todos soubessem ser e viver nesse coração, qual mansão de luxo. Quem te descobre de verdade, não é capaz de vender o apartamento minúsculo que contigo partilha a um casalinho qualquer, nem por grandes e imponentes mansões.

    A amargura vai passar, *

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  4. Estes teus mimos que me sorriem no coração, meu bem ') Gosto muito de ti, <3.

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  5. Parece tão cruel, no fim ficar um dinheirito para dividir, como combinado.
    Escreves-te uma carta cheia de pequenas metáforas, adorei estas:"Disse-lhes que viajavas muito, não lhes devemos justificações não é?", "O bom da língua portuguesa é poder-se empregar o masculino plural e englobar-se, sem desconsiderar, o feminino.", "Sem-abrigo, chamava-te em tom de troça."
    Apesar de tudo isso, pareces-me muito melhor. Ou então tens uma força ainda maior que julgo e conseguis-te enganar-me por completo neste texto incrível, escreves muito melhor do que eu. Tal como já disseram aqui, tenho a certeza que a armagura vai passar. E essa mansão de luxo que carregas no peito não precisa de apartamento, pede é uma mansão da mesma grandiosidade.

    (È uma bela pergunta, nem eu sei bem o que me motiva. Já preenchi a candidatura, e foi ao meu gosto, mas não sei se o problema é tanto o curso, ou não ter algo para me motivar.)

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  6. Não dá para racionalizar nada e escrever-te um comentário decente.
    Estás para o amor como eu para os vestidos vermelhos, na busca. ;)

    Um beijo Grande

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  7. Ao ler fiquei sem plavras... Também eu vendi um minusculo apartamento... ficou em mim uma luxuosa mansão... mas ficou tão vazia...

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  8. "Faltava-te, dizia eu, o que eu tenho em ponto grande, uma mansão de coração e uma confusão de sentimentos."

    O meu coração ficou apertadinho de te ler. Dispensas comentários.

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  9. Acho que esta é uma das cartas mais bonitas que li até agora!!!

    Adorei***

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