Desculpa escrever-te para esta morada, mas não sei mais onde te encontrar. Ainda tenho o teu número, sim, mas não tenho mais coragem para o marcar e ouvir-te atender, partindo do princípio que, heroicamente, o farias. Perdoa-me o sarcasmo, hoje estou amarga. É que vendi agora o nosso apartamento minúsculo ao tal casalinho que te falei. Recém-casados e ainda a estudar, acho que são capazes de reavivar as nossas felizes memórias ali. Porque as tivemos, ainda diz a D. Júlia. Perguntaram-me porque nunca falaram contigo, enquanto processavam o aluguer. Disse-lhes que viajavas muito, não lhes devemos justificações não é?
De qualquer das formas, já temos o dinheirinho da casa e envio-te metade, conforme o combinado. Esta repartição de bens lembra um pouco o divórcio, a nossa separação é quase de casal, cá dentro. Sim, cá dentro - onde moram os sentimentos. Num apartamento minúsculo que tantas vezes disse, brincando, que não tinhas. Sem-abrigo, chamava-te em tom de troça. Faltava-te, dizia eu, o que eu tenho em ponto grande, uma mansão de coração e uma confusão de sentimentos. Gostava de te poder enviar, juntamente com a parte financeira que te pertence, essa mansão. Também ela te pertence, querido Pedro. Perdoa-me as metáforas, hoje estou amarga. É que me lembrei que te esperei para padrinho dos meus filhos, me vi madrinha dos teus. Os meus haveriam de ser virados para as Artes, os teus para a Música. Passaríamos dias pré-natais a escolher nomes para as crianças. As tuas afilhadas. Sim, porque eu sempre quis meninas. Os meus afilhados. O bom da língua portuguesa é poder-se empregar o masculino plural e englobar-se, sem desconsiderar, o feminino. Sempre te imaginei com um casalinho, talvez três rebentos para me contrariar as previsões. Sempre te achei previsível e sempre me quiseste contrariar, Pedrinho. Foi por isso que te foste embora? Aborreceram-te as minhas lengalengas. Não me alongo mais, não te quero maçar agora também - vim só entregar a parte que te pertence. A financeira, entenda-se. A outra não ma receberias, bem sei. A mansão de coração que ainda te espera, com a caixa de bolinhos da D. Júlia nas mãos e o telefone nos joelhos. Tivesse eu coragem para te ligar, tivesses tu coragem para me atender.
Pelo menos sabemos que o nosso apartamento minúsculo está bem entregue. Vão fazer bem uso dele, como nós soubemos fazer, teve vezes. Quem dera que saibam melhor, não é assim? Talvez saibam, ela não me parece apreciadora de lengalengas nem ele ouve Bob Marley.
Lembra-te, de quando em quando, sim? Pelo Natal, que seja. Eu, por cá, espero que estejas bem pela faculdade, que continues a tocar guitarra pelos tempos livres. Se ainda esperas um livro meu, como em tempos, senta-te, meu querido - ando amarga.
Um beijo,
De qualquer das formas, já temos o dinheirinho da casa e envio-te metade, conforme o combinado. Esta repartição de bens lembra um pouco o divórcio, a nossa separação é quase de casal, cá dentro. Sim, cá dentro - onde moram os sentimentos. Num apartamento minúsculo que tantas vezes disse, brincando, que não tinhas. Sem-abrigo, chamava-te em tom de troça. Faltava-te, dizia eu, o que eu tenho em ponto grande, uma mansão de coração e uma confusão de sentimentos. Gostava de te poder enviar, juntamente com a parte financeira que te pertence, essa mansão. Também ela te pertence, querido Pedro. Perdoa-me as metáforas, hoje estou amarga. É que me lembrei que te esperei para padrinho dos meus filhos, me vi madrinha dos teus. Os meus haveriam de ser virados para as Artes, os teus para a Música. Passaríamos dias pré-natais a escolher nomes para as crianças. As tuas afilhadas. Sim, porque eu sempre quis meninas. Os meus afilhados. O bom da língua portuguesa é poder-se empregar o masculino plural e englobar-se, sem desconsiderar, o feminino. Sempre te imaginei com um casalinho, talvez três rebentos para me contrariar as previsões. Sempre te achei previsível e sempre me quiseste contrariar, Pedrinho. Foi por isso que te foste embora? Aborreceram-te as minhas lengalengas. Não me alongo mais, não te quero maçar agora também - vim só entregar a parte que te pertence. A financeira, entenda-se. A outra não ma receberias, bem sei. A mansão de coração que ainda te espera, com a caixa de bolinhos da D. Júlia nas mãos e o telefone nos joelhos. Tivesse eu coragem para te ligar, tivesses tu coragem para me atender.
Pelo menos sabemos que o nosso apartamento minúsculo está bem entregue. Vão fazer bem uso dele, como nós soubemos fazer, teve vezes. Quem dera que saibam melhor, não é assim? Talvez saibam, ela não me parece apreciadora de lengalengas nem ele ouve Bob Marley.
Lembra-te, de quando em quando, sim? Pelo Natal, que seja. Eu, por cá, espero que estejas bem pela faculdade, que continues a tocar guitarra pelos tempos livres. Se ainda esperas um livro meu, como em tempos, senta-te, meu querido - ando amarga.
Um beijo,
Joana.
PS. Ainda te posso chamar pela alcunha que partilhavas com Charles Darwin, quando pensar em ti?

fiquei um tanto quanto amarg(urad)a. Mas gostei muito da tua escrita neste *
ResponderExcluirSeria um prazer para mim ser citada por ti.
ResponderExcluirEu também...
Tens um coração bom, Joaninha. Só gostava que todos soubessem ser e viver nesse coração, qual mansão de luxo. Quem te descobre de verdade, não é capaz de vender o apartamento minúsculo que contigo partilha a um casalinho qualquer, nem por grandes e imponentes mansões.
ResponderExcluirA amargura vai passar, *
Estes teus mimos que me sorriem no coração, meu bem ') Gosto muito de ti, <3.
ResponderExcluirParece tão cruel, no fim ficar um dinheirito para dividir, como combinado.
ResponderExcluirEscreves-te uma carta cheia de pequenas metáforas, adorei estas:"Disse-lhes que viajavas muito, não lhes devemos justificações não é?", "O bom da língua portuguesa é poder-se empregar o masculino plural e englobar-se, sem desconsiderar, o feminino.", "Sem-abrigo, chamava-te em tom de troça."
Apesar de tudo isso, pareces-me muito melhor. Ou então tens uma força ainda maior que julgo e conseguis-te enganar-me por completo neste texto incrível, escreves muito melhor do que eu. Tal como já disseram aqui, tenho a certeza que a armagura vai passar. E essa mansão de luxo que carregas no peito não precisa de apartamento, pede é uma mansão da mesma grandiosidade.
(È uma bela pergunta, nem eu sei bem o que me motiva. Já preenchi a candidatura, e foi ao meu gosto, mas não sei se o problema é tanto o curso, ou não ter algo para me motivar.)
Não dá para racionalizar nada e escrever-te um comentário decente.
ResponderExcluirEstás para o amor como eu para os vestidos vermelhos, na busca. ;)
Um beijo Grande
Ao ler fiquei sem plavras... Também eu vendi um minusculo apartamento... ficou em mim uma luxuosa mansão... mas ficou tão vazia...
ResponderExcluircomo eu gostei, mãe!
ResponderExcluir"Faltava-te, dizia eu, o que eu tenho em ponto grande, uma mansão de coração e uma confusão de sentimentos."
ResponderExcluirO meu coração ficou apertadinho de te ler. Dispensas comentários.
Acho que esta é uma das cartas mais bonitas que li até agora!!!
ResponderExcluirAdorei***