A noite rompe barulhenta, há passos sob o soalho que range sob a sola dos sapatos ou os pés descalços. A porta entreabre-se:
- Posso?
Subo um pouco os lençóis para o pescoço, o pijama roda sempre durante a noite e a voz parece-me de rapaz novo.
- Sim, quem é?
- Costuma-se perguntar quem é antes de dizer que sim.
Rio baixinho, já é tarde e estou sonolenta. Esfrego os olhos, passo a mão pelo cabelo - a esta hora está sempre um desalinho, é certo como estar o pijama rodado.
- Chamo-me João.
- Boa noite João.
Entra e cerro um pouco os olhos, não tanto que me dê um ar ameaçador. Alto e entroncado, parece-me ter cara de menino, em corpo de homem, mas a meia-luz do quarto de pensão é traiçoeira. Reparo que traz um saco de guitarra com ele, rodo pijama e solto lençóis.
- Não te parece já um pouco tarde para cantigas, João?
- Nunca é tarde para cantigas, não te parece?
- Se for expulsa apareço no teu quarto a meio da noite e não vai ser para cantarmos.
Ri-se mais alto do que seria de se esperar a esta hora da noite, diz-me que o meu corpo de menina não o intimida. O à-vontade com que está comigo, a meio da noite, barulhenta lá fora, faz-me pensar que não é a sua primeira vez nestas andanças pernoitadas. Não me intimida, o seu jeito de menino e homem. Sorrio, a meia-luz.
Cerra os olhos, procura o meu sorriso, bebe-o.
- Acreditas no amor à primeira vista?
- Não, respondo serenamente. A pergunta foi, de facto, conveniente. Fácil, também.
Inclina a cabeça intrigado, talvez nestas suas andanças pernoitadas esteja habituado a que lhe respondam que sim e lhe ofereçam metade da cama e o corpo por inteiro. Pergunta-me se tenho horas. Cerro os olhos para o relógio de pulso, no chão perto da cama.
- Faltam cinco para as cinco da manhã.
Encontra o relógio, pega-lhe com cuidado e solta ponteiros. Reparo que me atrasa as horas: são agora nove. E da manhã do dia anterior, diz-me.
- Para que me dás tanto tempo?, pergunto intrigada.
- Para que acredites. Senta-se perto da cama, lado a lado com o relógio de pulso. Nove e um.
- No amor à primeira vista?
Acena afirmativamente com a cabeça. Reparo no cabelo escuro, nos olhos grandes.
- Podes continuar a dar voltas às horas. Aos dias, às semanas. Aos meses e aos anos também. Que não sejam nove da manhã, que não tenho tempo suficiente para crer nisso. Que seja noutra vida, então.
- Que seja. Noutra vida tens nome?
- Tenho. Noutra vida sou Joana.
- Boa noite Joana, sorri entre palavras dóceis. Bebo do seu sorriso adocicado, recosto-me na cama pequena.
A noite, mais calma, adormeceu sob solas de sapatos e pés descalços. Rodou o pijama, penteou o cabelo com as mãos sonolentas, subiu lençóis, fez amor com a lua, beijou-lhe os seus olhos grandes.
O dia rompeu sereno, a claridade acorda os pés descalços que ainda dormitam no quarto de pensão, entre cantigas de amor eterno e horas trocadas. O relógio de pulso, no chão perto da cama pequena, marca agora as oito da noite, já não se sabe de que dia. De que vida.

Devias ser escritora *.* gostei muito, muito, muito, de tão mágico e apaixonante, ou não fosse um dos teus textos. @
ResponderExcluirConcordo com o primeiro comentário, escreves mesmo muito bem. Não há como tu para este tema. :D
ResponderExcluirAmor à primeira vista, não sei. Uma chama, talvez, e a partir daí, com o tempo e um pouco de trabalho, pode dar mais. Nisso acredito a 100%.
Eu não acredito em amor à primeira vista. Acredito que há uma faísca, uma atracção, no máximo, uma paixão que poderá evoluir para amor.
ResponderExcluirAdorei o texto.
Joana estou de queixo completamente caído. Não sei exactamente como, mas orgulho-me de ti. Sinto-me meia a planar, sem tocar com os pés no chão, e sabe tão bem. Adorei o texto Joana Éme,obrigada.
ResponderExcluirFantástico é pouco, dizer que estou rendida parece ainda menos.
ResponderExcluirÉs forte na escrita, tens qualquer coisa que foge à normalidade. E isso, como eu tantas vezes digo a quem assim é como tu, sabe tão bem*
está fascinante, claro. achocolatado :D
ResponderExcluirsim, és uma escrita das que há poucas!
escritora*
ResponderExcluirgostei tanto! tens uma optima imaginação e também uma optima escrita, acredita*
ResponderExcluire, acredito no amor à primeira vista. tudo é possivel :)
continua!, beijinhos.
nice...
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