Deito-me contigo e sei, perfeitamente, o dia em que vou partir. Olho-te nos olhos e procuro uma chama, aquela que vem descrita nos livros, ou pelo menos os que terminam com "e viveram felizes para sempre". Esses têm sempre uma chama. Afinal, fizemos tudo pelos livros. Como eles mandam. Enamoramo-nos sem querer, toda a trama de adolescentes aluados e sedentos por uma razão para acordar e começar o dia. Encontramo-la, acordamos juntos. Perdi a conta ao número de dias que começamos, também. Deitei-me contigo, fizemos amor ardentemente. Seguiram-se as juras eternas, as que também se cantam em cantigas, mesmo as mais antigas - prometemo-nos.
Deito-me contigo, procurando chama, e encontro cinza em mim. Vá, chama-me! Incendeia-me! Vive-me! Oh, como queria que tu me vivesses, meu amor..
Devia ter-te prometido mais, uma frontalidade que me permitisse dizer-te, sentada: Sinto cinza em nós, a chama morreu. Afinal, sei perfeitamente o dia em que vou partir.
Recorrerás, rancoroso e desprevenido, às minhas feridas. Vais lembrar-me de como nos enamoramos como mandam os livros, os sábios que acabam com "e viveram felizes para sempre". Dir-te-ei que iremos, de facto, viver felizes para sempre - mas não juntos. Não iremos beber essa felicidade dos nossos corpos, como a copos, como até então fizemos. Sim, não me tentes demover com lembranças de amor ardente e de juras de vidas. Devidas não foram, meu amor, perdoa-me. Quando estiveres rancoroso e desprevenido, aluado dos meus devaneios, perdoa-me. Bem sei que o que temos é precioso, quem dera a quantas, mas preciso de uma chama. Preciso de um livro novo, romances esgotaram-me. Não, não é por causa de um policial qualquer, talvez me vire para a fotografia. Preciso só descansar os olhos da leitura, percebes? Perdoa-me, mesmo que não percebas. Irás recorrer aqui, à ferida, quando estiveres rancoroso da "ex" a quem juraste uma vida preciosa. Quem dera a quantas, sim.
Faz-me só um favor, mais não te peço.. Enquanto me atirares para a lama não me chames pelo meu nome. Tornou-se tão indigno da nossa história de amor. Chama-me Raquel. Marta. Susana.
Responder-te-ei, Carlos, Luís, Francisco, que não gosto do travo a cinza. Ou a lama.
Mas isto só quando partir: sei perfeitamente o dia em que, partindo, serei a vilã da tua história. Da nossa, história de amor, como não as há nos livros, afinal.
Sempre tua, até sem ser
Raquel. Marta. Susana.

Maria: Que forma subtil de fugires à minha pergunta. É um amor sem namoro, se me faço entender.
ResponderExcluirChoro, $.
ResponderExcluirA tua intensidade é digna de histórias de "viveram felizes para sempre", mas precisas de uma chama - eu percebo. Sei bem que as cinzas são finas demais nas vias respiratórias e acumulam-se demais no coração - matam lentamente. E queria poder dizer que ninguém que te atirará para a lama, mas apenas sei que na lama não ficará este teu amor, porque tu foste história a cada página folheada. Admiro como és e crês num amor que já não te é suficiente. Admiro como ainda esperas que o final desta história se revele. E, no fundo, sabes o dia em que partirás.
Quem dera a quantos, também, Pe. *
Maria: Custa-me acreditar nisso em ti. Falo como se soubesse muito de ti... Eu sei que não sei nada mas sinto.
ResponderExcluirSem chama, não há fogo. A faísca não passa duma luz que de início chama a atenção, capaz dum sorriso até, mas dura muito pouco.
ResponderExcluirAcho que se já não a sentes, fazes bem. Seria como enganar-te a ti própria, e não apenas. Mostras muita força e dignidade.
Eu só senti a chama uma vez, e foi a única vez que quis namorar com alguém. Acho que se alguma vez namorar sem essa chama (o que não creio), vou sentir-me apenas um corpo vazio, um peso para cá e para lá.
Escreves encantadoramente bem, eu fico agarrada às tuas palavras.
ResponderExcluirQuando partimos da vida deles, passamos a ser a pior mulher que já tiveram, e o mesmo sucede ao contrário: quando eles partem, vão sempre com o título de vilões das nossas vidas.
Quando o que se deveria processar era uma nova amizade.
Beijinho *
PostScriptum: Mas se o que sentes, é que está a chegar a hora de partir, não esperes mais e parte. Adiar a partida, adiar o fim acarreta mais sofrimento posteriormente.
ResponderExcluirsinto, toco, vivo, cada palavra que escreves.. nao sei como é possivel.. coincidencia? (ou nao) mas é verdade.
ResponderExcluirNão tem que ser assim...
ResponderExcluirHá que aceitar as decisões do outro lado. Há que perceber que também não queremos alguém que esteja connosco só por estar.
Mantendo um certo nível, depois a mágoa passa - normalmente depois de ocuparmos o coração com outra pessoa - e podemos retomar uma relação de amizade com um carinho especial...
Não temos de odiar...