segunda-feira, 15 de março de 2010

Boa viagem.

Está tão habituada a despedidas que diria não as sentir. Mentiria, se o dissesse. Ainda assim, está habituada a despedidas. Conhece os seus rostos e as suas etapas. Prepara-se para ver malas feitas e desejar um punhado de votos de felicidade e uma pitada de boa sorte. Não faltará ao aeroporto no dia da partida, como se o espectáculo masoquista a fascinasse, arregala muito os olhos e o pânico confunde-se com entusiasmo - como se o egoísmo não a domasse. Sabe de cor a pontada no peito que se segue, a saudade aguda gritada em plenos pulmões aos ouvidos. Ouvidos que se esquecem da voz e a voz que se cala em berros aos ouvidos. Entre a primeira e a terceira vez, esqueceu-se de perguntar o que fazer com os planos. Afinal, não havia quem lhe respondesse. Ninguém sabe o que fazer com os sonhos. Depois da quarta já não se importou com fotografias, talvez não as devesse tirar de todo. Agora já não se revolta, mas ainda chora em cada adeus. Dir-se-ia habituada, se se pudesse criar um hábito de dor, manchado como folhas de papel lacrimejadas.
Diz-lhe que vai partir. Ela responde-lhe um sorriso muito grande, como se o egoísmo não a domasse. Está tão habituada a partidas que só encontra um motivo para teimar em ficar: alguém tem de esperar os regressos no terminal de chegada, de olhos muito arregalados. Como se o sórdido espectáculo a fascinasse, ela prepara-se para desejar um punhado de votos de felicidade. A boa sorte guarda-a no seu bolso. Vai precisar. Afinal, ninguém sabe o que fazer com o medo.

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